Por William Taylor – CMO da Connectoway
Barcelona voltou a ser, mais uma vez, o ponto de encontro da indústria global de telecomunicações durante o Mobile World Congress 2026. Foram três dias intensos de feira, painéis estratégicos, demonstrações tecnológicas e muitas conversas nos corredores da Fira de Barcelona, que confirmaram algo que já vinha sendo percebido há algum tempo: o setor atravessa uma transformação profunda, talvez uma das mais importantes desde o início da internet comercial.
Mais do que o lançamento de novos equipamentos ou melhorias incrementais nas redes, o que se discutiu no MWC foi, essencialmente, o futuro do próprio papel das operadoras no ecossistema digital. Ao longo das apresentações e debates ficou claro que a indústria de telecom está entrando definitivamente na chamada era das redes inteligentes, um momento em que conectividade deixa de ser apenas infraestrutura e passa a se posicionar como base para novos serviços digitais.
A inteligência artificial chegou à infraestrutura de rede
Entre os temas que dominaram as discussões durante os três dias de congresso, a inteligência artificial apareceu como elemento central dessa transformação. Fabricantes, operadoras e empresas de tecnologia apresentaram arquiteturas em que a IA deixa de ser apenas uma camada adicional de software e passa a fazer parte da própria lógica de funcionamento das redes.
Cada vez mais se fala em AI-Native Networks, redes concebidas desde a origem para operar com inteligência embarcada. Isso significa infraestruturas capazes de prever falhas antes que elas aconteçam, otimizar tráfego automaticamente, ajustar capacidade em tempo real, automatizar operações de rede e melhorar a experiência do usuário sem intervenção humana.
Essa mudança altera profundamente a forma como as redes são projetadas, operadas e, principalmente, monetizadas. A conectividade passa a deixar de ser apenas transporte de dados para se tornar uma plataforma inteligente capaz de suportar novos serviços digitais e aplicações de maior valor agregado.
5G Advanced amadurece e o 6G já começa a ser desenhado
Outro tema muito presente nas discussões foi a evolução do 5G Advanced, que começa a consolidar casos de uso mais sofisticados e economicamente relevantes. Entre eles aparecem redes privadas industriais, automação de processos produtivos, aplicações críticas de baixa latência, conectividade para veículos e cidades inteligentes e a integração cada vez maior entre redes móveis, satélite e infraestrutura de edge computing.
Ao mesmo tempo, diversos fabricantes e centros de pesquisa já começaram a apresentar conceitos iniciais do 6G, que deverá nascer profundamente integrado à inteligência artificial, sensores distribuídos e computação avançada
A próxima geração de conectividade tende a ser menos sobre velocidade pura e muito mais sobre redes capazes de compreender o contexto ao seu redor e reagir a ele.
O movimento global: de Telco para TechCo — e o protagonismo crescente dos provedores brasileiros
Talvez o insight mais relevante das conversas que aconteceram em Barcelona não tenha sido necessariamente tecnológico, mas estratégico e econômico. Existe hoje um consenso crescente dentro da indústria de que o modelo tradicional de telecom está sob pressão. A simples venda de conectividade tende, cada vez mais, a se aproximar de uma commodity.
O crescimento sustentável, segundo diversos executivos que participaram das sessões e painéis, virá da capacidade das operadoras de evoluírem para o modelo conhecido como TechCo, no qual conectividade passa a ser apenas uma das camadas de uma oferta mais ampla de serviços digitais.
Nesse contexto ganham importância iniciativas ligadas a cloud distribuída, edge computing, segurança digital, soluções de IoT, redes privadas e serviços gerenciados voltados ao mercado corporativo. Em outras palavras, o valor deixa de estar apenas na rede e passa a estar cada vez mais no que se constrói sobre ela.
Essa discussão tem uma relação direta com o que vem acontecendo no Brasil. Um aspecto particularmente interessante deste MWC foi a presença significativa de comitivas brasileiras, especialmente do ecossistema de provedores regionais de internet. Executivos, engenheiros e empreendedores vieram a Barcelona não apenas para conhecer novas tecnologias, mas para entender como essas mudanças podem impactar diretamente o futuro de seus negócios.
Essa presença é extremamente relevante quando se observa o papel que os provedores desempenham hoje no Brasil. Foram justamente essas empresas que protagonizaram a expansão da fibra óptica no país, levando conectividade de alta qualidade a cidades e regiões onde, por muitos anos, as grandes operadoras não conseguiram chegar.
Estar presente em um evento como o MWC significa conectar esse ecossistema extremamente dinâmico ao que há de mais avançado em termos de tecnologia, estratégia e modelos de negócio.
O que os provedores brasileiros precisam observar
Durante os dias de feira também tive a oportunidade de participar de diversas conversas técnicas e reuniões com executivos da indústria, incluindo encontros com parceiros globais como a Huawei, onde foi possível discutir não apenas o que está sendo desenvolvido em termos de tecnologia, mas principalmente como essas inovações podem ser traduzidas em soluções práticas para o mercado brasileiro
Para quem acompanha de perto o mercado de provedores de internet no Brasil, o MWC 2026 deixa algumas mensagens bastante claras. A primeira é que o investimento em infraestrutura continuará sendo essencial. Redes ópticas de alta capacidade, backbone resiliente, Wi-Fi de nova geração e arquitetura de rede eficiente seguirão sendo pilares fundamentais do setor.
A segunda mensagem, no entanto, talvez seja ainda mais importante. O próximo ciclo de crescimento do setor provavelmente não virá apenas da expansão de rede, mas da capacidade de construir novos serviços digitais sobre essa infraestrutura.
Isso envolve explorar oportunidades em soluções corporativas, conectividade para indústria e agronegócio, redes gerenciadas, segurança digital e integração com cloud e edge computing.
O futuro dos provedores não está apenas em entregar internet. Está em entregar valor digital sobre a conectividade.
Um recado claro de Barcelona
Depois de três dias intensos de debates, demonstrações tecnológicas e encontros estratégicos, uma conclusão parece inevitável: a indústria global de telecom está entrando em uma nova fase de transformação.
A pergunta já não é mais quem terá a rede mais rápida e sim quem conseguirá transformar conectividade em plataforma de inovação e serviços digitais.
E nesse cenário, o Brasil — com um dos mercados de banda larga mais dinâmicos do mundo — tem uma oportunidade real de protagonismo.
O desafio agora é entender quem estará preparado para liderar essa próxima etapa.
William Taylor é Sócio da Connectoway onde por mais de duas décadas liderou diretamente o departamento comercial da companhia, participando de forma ativa na expansão da empresa e na consolidação de sua presença no ecossistema brasileiro de provedores de internet e infraestrutura de redes. Acompanha de perto a evolução da infraestrutura digital no Brasil, com atenção especial à transformação do ecossistema de ISPs, à convergência tecnológica e à transição das operadoras para o modelo TechCo. Há dois anos assumiu a posição de Chief Marketing Officer (CMO), função que exerce atualmente, atuando na estratégia de posicionamento, inovação e desenvolvimento de novos mercados.
O Last Mile reúne algumas das vozes mais relevantes do setor para discutir ideias, decisões e os próximos movimentos da indústria de telecom e tecnologia.