Martha Suarez, presidente da Dynamic Spectrum Alliance, afirma ao Last Mile que o Brasil pode ampliar competição e inovação ao preservar mais espectro para uso não licenciado
A discussão sobre o uso da faixa de 6 GHz ganhou importância para o futuro da conectividade no Brasil. Para Martha Suarez, presidente da Dynamic Spectrum Alliance, a decisão regulatória sobre essa faixa pode influenciar diretamente a capacidade de inovação, competição e inclusão digital nos próximos anos.
Em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026, Martha explicou que a DSA atua globalmente na defesa de políticas de acesso dinâmico ao espectro, com foco em ampliar o uso eficiente de radiofrequências e apoiar modelos que estimulem conectividade, inovação e competição.
Segundo ela, o caso brasileiro é observado com atenção porque o país tem um mercado de provedores bastante pulverizado e desenvolvido, com muitos agentes regionais participando da expansão da conectividade.
“Temos outros países com muitos fornecedores, mas não está no mesmo nível de desenvolvimento que estamos vendo no Brasil. Então, é um caso muito interessante”, afirmou Martha.
Por que o 6 GHz importa
Martha explicou que, para muitos pequenos provedores, o espectro não licenciado é a principal alternativa para operar soluções de conectividade via rádio.
Hoje, as faixas de 2,4 GHz e 5 GHz já estão bastante utilizadas. A faixa de 2,4 GHz concentra várias aplicações e dispositivos, como Bluetooth e Zigbee, além de outros equipamentos de radiação restrita. A faixa de 5 GHz também passou a enfrentar maior pressão de uso, especialmente em ambientes com muitos usuários simultâneos.
Segundo Martha, esse cenário limita a largura de banda disponível, reduz a capacidade de canais maiores e impacta velocidade e desempenho.
A faixa de 6 GHz, por outro lado, abre uma nova camada de capacidade. Ela citou o intervalo de 5.925 MHz a 7.125 MHz, com 1.200 MHz de espectro, como uma oportunidade para aplicações que exigem maior largura de banda, menor latência e melhor performance.
“Lá você pode ter novas aplicações com mais largura de banda, menor latência e maiores velocidades”, afirmou.
Uso não licenciado e inovação
Na visão da DSA, o melhor modelo seria preservar toda a faixa de 6 GHz para uso não licenciado.
Martha argumenta que já existem várias faixas adequadas para redes móveis licenciadas, como 700 MHz, 600 MHz, 1.800 MHz, 2,5 GHz, 2,3 GHz, 3,5 GHz e faixas milimétricas. Já o Wi-Fi depende de espectro não licenciado para continuar evoluindo.
Segundo ela, a faixa de 6 GHz tem limitações para uso móvel, especialmente em ambientes internos, por causa de propagação, paredes e dificuldade de uplink em terminais de usuário. Para a DSA, essas características tornam a faixa mais adequada para Wi-Fi e aplicações locais de alta capacidade.
“A faixa de seis não é a faixa ideal para isso”, disse, ao comentar o uso para redes móveis.
A entidade entende que uma decisão regulatória que limite o uso de Wi-Fi pode reduzir a disponibilidade de canais largos, afetando velocidade, latência e desempenho.
Provedores poderiam usar 6 GHz para ampliar conectividade
Martha destacou que, no Brasil, provedores de pequeno porte poderiam usar a faixa de 6 GHz, inclusive em aplicações outdoor, para ampliar conectividade com qualidade.
Esse ponto é relevante porque muitos ISPs regionais dependem de soluções flexíveis para atender áreas específicas, complementar redes de fibra, levar conexão a pontos de difícil acesso e criar novos modelos de serviço.
“Especialmente aqui no Brasil, os provedores de pequeno porte poderiam usar essa faixa, no uso outdoor, para estender a conectividade com conectividade de qualidade”, afirmou.
Na visão dela, esse uso poderia fortalecer a competição, ampliar a capacidade das redes regionais e permitir novas aplicações em empresas, áreas rurais, ambientes densos e espaços produtivos.
Cenário internacional
Martha também comentou o cenário global da faixa de 6 GHz.
Segundo ela, os Estados Unidos foram o primeiro país a adotar novas regras para uso não licenciado da faixa. O modelo americano considera diferentes tipos de uso, incluindo aplicações indoor, outdoor e dispositivos de baixa potência.
Ela também citou Canadá, Coreia do Sul e Reino Unido como exemplos relevantes. No caso sul-coreano, destacou que o país é uma referência em 5G e também avançou no uso de 6 GHz, o que reforça a tese de que redes móveis e Wi-Fi não precisam ser tratadas como tecnologias concorrentes.
“Um bom Wi-Fi é um bom elemento para uma boa rede móvel”, afirmou.
Sobre o Reino Unido, Martha mencionou um modelo mais compartilhado, em que a parte baixa da faixa foi aberta para alguns usos e a parte alta passa por uma abordagem com acesso dinâmico, permitindo uso por Wi-Fi enquanto eventuais aplicações móveis futuras são avaliadas.
Compartilhamento de espectro
A presidente da DSA também explicou que o compartilhamento de espectro pode permitir uso mais eficiente de faixas já ocupadas por determinados serviços.
A ideia é proteger usuários primários, mas permitir que outros agentes utilizem o espectro quando ele estiver disponível. Como exemplo, Martha citou experiências nos Estados Unidos na faixa de 3,5 GHz, onde um sistema de compartilhamento foi criado para conciliar usuários existentes e novas aplicações.
No caso da faixa de 6 GHz no Brasil, ela mencionou que o país já possui mais de 21 mil enlaces fixos operando nessa faixa, o que torna complexa qualquer realocação. Um sistema de compartilhamento poderia proteger esses enlaces e, ao mesmo tempo, permitir uso outdoor de Wi-Fi.
O custo de esperar
Outro ponto levantado foi o custo de oportunidade de adiar uma decisão.
Para Martha, esperar pode parecer uma alternativa prudente, mas também posterga benefícios econômicos, investimentos, novas aplicações e desenvolvimento de mercado.
Ela afirmou que a DSA publicou um estudo sobre o impacto econômico das decisões regulatórias relacionadas à faixa de 6 GHz. Segundo ela, países que tomam decisões oportunas tendem a capturar antes os ganhos de inovação, novos dispositivos, novas empresas e novas aplicações.
“Se você não toma a decisão, o benefício econômico vai ser postergado”, afirmou.
Na visão dela, o risco é que empresas brasileiras fiquem menos competitivas em relação a países que já avançaram no uso mais amplo da faixa.
IA também aumenta a necessidade de conectividade local
No fim da conversa, Martha também relacionou o tema à inteligência artificial.
Segundo ela, muitas aplicações de IA vão exigir tráfego mais equilibrado entre uplink e downlink, baixa latência e conectividade próxima dos sistemas. Em ambientes como fábricas, áreas industriais e espaços densos, tecnologias como Wi-Fi 7 e futuras gerações de Wi-Fi podem responder a essas demandas sem que o mercado precise esperar muitos anos por novas gerações móveis.
“Talvez não precise esperar muitos anos para ter a conectividade que potencializa o uso da inteligência artificial”, afirmou.
Decisão estratégica para o Brasil
A entrevista com Martha Suarez mostra que a discussão sobre 6 GHz não é apenas técnica. Ela envolve competição, inovação, capacidade de rede, novos serviços, conectividade rural, aplicações empresariais e o futuro do Wi-Fi.
Para a DSA, preservar mais espectro para uso não licenciado permitiria que provedores, empresas de tecnologia e novos entrantes criassem soluções sem depender de leilões ou modelos altamente concentrados.
O Brasil já tem um ecossistema de provedores que se destacou pela capilaridade e pela capacidade de atender mercados locais. A decisão sobre 6 GHz pode ampliar essa vantagem ou limitar parte das próximas oportunidades.
O recado deixado por Martha foi direto: empresas brasileiras precisam conhecer melhor o tema e participar da discussão, porque outros países já estão usando a faixa e o tráfego continuará crescendo.
A entrevista completa com Martha Suarez está disponível no Last Mile Podcast.