Pedro, da Elytron, vê IA, fraude digital e soberania de dados como novos desafios para empresas brasileiras

No primeiro episódio do Tech and Business, novo quadro do Last Mile conduzido por Mateus Gomes, Pedro, da Elytron Cybersecurity, trouxe uma leitura direta sobre o avanço da cibersegurança como uma pauta estratégica para empresas, bancos, executivos e setores de infraestrutura crítica.

A conversa marcou a estreia do quadro voltado a tecnologia, inovação e negócios, ampliando o escopo do Last Mile para temas que passam cada vez mais pela operação das empresas e pela infraestrutura digital do país.

Pedro atua em diferentes frentes do ecossistema de cibersegurança. Além da Elytron, falou sobre iniciativas como a Imunex, voltada à proteção contra fraudes e legitimidade de acessos no mercado financeiro, e a Verxus, associada à inteligência de ameaças. A lógica por trás dessa atuação em múltiplas frentes, segundo ele, é simples: o crime digital também se organiza por especialidades. Para enfrentá-lo, a defesa precisa operar com a mesma capacidade de coordenação, inteligência e velocidade.

A Elytron Cybersecurity se posiciona como uma empresa voltada à proteção de organizações que operam em ambientes críticos, combinando inteligência estratégica, especialistas e tecnologias proprietárias para fortalecer a resiliência cibernética das empresas. Essa visão apareceu ao longo de todo o episódio, principalmente quando Pedro tratou cibersegurança menos como uma compra de ferramentas e mais como uma capacidade permanente de defesa.

O crime digital mudou de escala

Um dos pontos centrais da conversa foi a mudança de patamar das fraudes financeiras no Brasil.

Pedro fez uma comparação com o assalto ao Banco Central em 2005, caso que ficou marcado na história do país pela complexidade da execução e pelo valor levado. A provocação feita no episódio é que, hoje, uma fraude financeira baseada em incidente cibernético pode alcançar cifras superiores sem precisar de túnel, caminhão, presença física ou grande estrutura operacional visível.

Essa comparação ajuda a explicar a virada do mercado. O crime digital ficou mais rápido, mais organizado e mais difícil de rastrear. O que antes dependia de uma operação física complexa agora pode acontecer a partir de credenciais roubadas, engenharia social, falhas em aplicações, vazamentos de dados, acessos simulados e exploração de vulnerabilidades.

Para Pedro, a pandemia acelerou investimentos em cibersegurança, mas muitos deles foram feitos sob pressão. Empresas compraram camadas básicas de proteção, como firewall e antivírus, sem necessariamente redesenhar sua estratégia de segurança a partir da perspectiva real do atacante.

Agora, com o avanço da inteligência artificial, das APIs, dos ataques à cadeia de fornecedores e da fraude digital em larga escala, esse modelo precisa ser revisto.

A inteligência artificial acelerou o ataque

A inteligência artificial apareceu no episódio como uma das grandes forças de transformação da cibersegurança.

Pedro explicou que a IA não muda apenas a defesa. Ela também aumenta a capacidade de ataque. Criminosos podem simular usuários, automatizar tentativas, copiar voz, imitar comportamentos, explorar vazamentos e acelerar o uso de vulnerabilidades recém-publicadas.

Um dado citado por ele resume bem essa mudança: em 2018, uma vulnerabilidade publicada podia levar mais de dois anos para ser explorada de forma ampla. Hoje, com a ajuda da inteligência artificial, esse tempo pode cair para poucas horas.

Isso muda a régua de decisão das empresas. Se o ataque ficou mais rápido, a defesa não pode continuar presa a ciclos lentos de atualização, processos burocráticos e aplicações de correção que levam meses. O básico continua importante, mas precisa ser executado com mais disciplina e velocidade.

A mensagem é direta: muitas empresas ainda tratam cibersegurança como uma área de suporte, quando ela já virou parte da continuidade do negócio.

Segurança deixou de ser problema apenas do TI

Outro ponto forte do episódio foi a crítica à forma como muitas empresas ainda enxergam segurança digital.

Para Pedro, investir em cibersegurança antes de um incidente permite uma decisão mais planejada, com orçamento, estratégia e prioridade. Investir durante o ataque costuma ser mais caro, mais improvisado e mais arriscado.

Ele resumiu essa diferença com uma imagem simples: uma coisa é tomar decisão no “calor do ar-condicionado”; outra é tomar decisão no “calor do incêndio”.

Essa visão conversa diretamente com empreendedores, fundadores e executivos que ainda deixam segurança para depois. O risco não é apenas técnico. Um ataque pode gerar prejuízo financeiro, paralisação operacional, exposição de dados, dano reputacional, perda de confiança e impacto direto sobre clientes, fornecedores e parceiros.

Em mercados sensíveis, o efeito pode ser ainda maior. Bancos, aeroportos, telecomunicações, data centers, saúde, governo e empresas de infraestrutura crítica não lidam apenas com sistemas. Lidam com continuidade de serviços essenciais.

O elo fraco pode estar fora da empresa

A conversa também passou pelo tema de supply chain, ou cadeia de fornecedores.

Pedro explicou que uma empresa pode fazer um bom trabalho internamente e ainda assim ficar vulnerável por causa de terceiros. Fornecedores, parceiros, integrações, APIs e prestadores de serviço podem se transformar em porta de entrada para ataques.

A analogia usada no episódio foi a do vizinho com o muro baixo. A empresa pode proteger sua casa, levantar muros altos e reforçar o portão. Mas, se o atacante entrar pela casa ao lado e pular para dentro da sua operação, o problema passa a ser seu.

Esse ponto é especialmente relevante para telecom, tecnologia e infraestrutura digital. O setor depende de múltiplos fornecedores, sistemas de gestão, plataformas de atendimento, equipamentos, integrações, redes, ambientes em nuvem e aplicações de terceiros. A segurança da operação não termina mais dentro da empresa.

Executivos também viraram alvo

O episódio também trouxe uma discussão importante sobre proteção de executivos, fundadores e pessoas-chave dentro das empresas.

Segundo Pedro, os dados de muitos brasileiros já foram vazados em algum momento e circulam de forma organizada na dark web e na deep web. Esses dados podem ser usados para fraudes digitais, ataques direcionados, golpes financeiros e até ameaças físicas.

A exposição digital de executivos, familiares e pessoas ligadas à liderança das empresas precisa ser tratada com mais seriedade. Informações aparentemente simples, quando cruzadas com bases vazadas, redes sociais, dados de localização ou registros públicos, podem criar um mapa de vulnerabilidade.

Esse risco aumenta em momentos de M&A, captação, venda de empresas ou grandes movimentações societárias. Fundadores e executivos envolvidos em transações relevantes podem se tornar alvos mais atrativos para criminosos.

Telecom, data centers e soberania digital

A ponte com o mercado de telecom apareceu quando a conversa entrou em soberania de dados, data centers e tecnologias nacionais.

Pedro defendeu que não basta o Brasil hospedar dados dentro do território nacional se outras camadas da tecnologia continuam levando informações para fora. O dado é uma camada importante, mas não é a única. A soberania digital passa também por software, protocolos, fornecedores, infraestrutura, segurança, governança e capacidade tecnológica local.

Esse ponto se conecta diretamente ao momento atual do Brasil. O país tem energia, território, conectividade e potencial para se posicionar como um hub relevante de dados. Mas essa oportunidade precisa vir acompanhada de uma discussão mais madura sobre segurança, dependência tecnológica e desenvolvimento de soluções nacionais.

Para o setor de telecom, a mensagem é clara. Redes, data centers, conectividade, aplicações e segurança digital estão cada vez mais ligados. O provedor, a operadora, o integrador e o gestor de infraestrutura digital precisam entender que a cibersegurança não é um produto à parte. Ela passa a fazer parte da entrega de valor.

O Brasil tem talento, mas precisa acreditar mais nisso

Pedro também trouxe uma visão otimista sobre o potencial brasileiro em cibersegurança.

Segundo ele, o mercado brasileiro forma profissionais preparados por lidar com um ambiente complexo, competitivo e com alto volume de ataques. Essa vivência cria uma capacidade prática que pode ser levada para fora do país.

A Elytron, segundo Pedro, vem trabalhando com a tese de transformar esse conhecimento em produtos e tecnologias com potencial global. A lógica é sair de uma atuação baseada apenas em serviços e avançar na criação de soluções próprias, desenvolvidas por talentos brasileiros.

Essa visão tem relação direta com soberania tecnológica. Se o Brasil quer ser protagonista em dados, inteligência artificial, infraestrutura crítica e economia digital, também precisa desenvolver sua própria base de defesa, inteligência e proteção.

O futuro da cibersegurança será mais rápido e mais complexo

No fim do episódio, Pedro apontou dois temas que devem marcar os próximos anos: inteligência artificial e computação quântica.

A IA já está mudando a velocidade dos ataques e das defesas. A computação quântica, por sua vez, abre uma nova janela de discussão para criptografia, proteção de dados e segurança de sistemas críticos.

Ainda é um tema mais técnico, mas a provocação é importante. Empresas que demoraram para levar cibersegurança a sério na era da nuvem e da inteligência artificial podem repetir o erro diante da próxima grande mudança tecnológica.

A cibersegurança sempre foi vista por muitos empresários como custo, obrigação ou assunto técnico. O episódio com Pedro mostra outra coisa: segurança digital virou infraestrutura de confiança.

E confiança, no mundo dos negócios, sempre foi um dos ativos mais difíceis de construir e um dos mais fáceis de perder.

O primeiro episódio do Tech and Business mostra justamente isso. Tecnologia e negócios já não caminham separados. A empresa que entende essa conexão se prepara melhor. A que ignora, pode descobrir tarde demais que o ataque não espera planejamento, orçamento ou reunião de diretoria.

Assine agora

Visão estratégica sobre o mercado de telecom e tecnologia, construída a partir do que realmente acontece no setor.

Ao me inscrever, concordo com os Termos de Uso do Substack e reconheço o Aviso de Coleta de Informações e a Política de Privacidade.