Affonso Nina, da Brasscom, alerta para investimentos perdidos pelo Brasil e desafios do Redata

Presidente-executivo da Brasscom analisa os entraves tributários para data centers, os próximos passos do Redata, a concorrência internacional por investimentos e os desafios do país em inteligência artificial, cibersegurança e formação de profissionais de tecnologia.

O Brasil reúne condições importantes para ampliar sua participação no mercado global de infraestrutura digital, mas os custos tributários, a demora na implementação de políticas públicas e a competição internacional continuam dificultando a atração de grandes investimentos. Essa foi uma das principais avaliações de Affonso Nina, presidente-executivo da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), durante entrevista ao Last Mile Podcast, gravada no Futurecom 2026, em São Paulo.

Em conversa com Bruno Guimarães e Matheus Cofferri, durante o Futurecom Connect, Nina detalhou os avanços e os pontos ainda pendentes do Redata, iniciativa criada para estimular a instalação e a expansão de data centers no Brasil. O executivo também apresentou exemplos concretos de projetos que acabaram sendo direcionados a outros países em razão das diferenças de custos, além de discutir as iniciativas da Brasscom nas áreas de qualificação profissional, inteligência artificial e cibersegurança.

Na avaliação do presidente da entidade, o país precisa avançar simultaneamente em diferentes frentes para conquistar uma posição mais relevante na economia digital mundial. A redução dos custos de infraestrutura é uma delas, mas os resultados também dependem da disponibilidade de profissionais qualificados, da segurança dos ambientes digitais e da capacidade brasileira de competir por investimentos internacionais.

Redata representa um avanço, mas ainda não resolve os principais entraves tributários

O Redata foi um dos assuntos centrais da entrevista. Affonso Nina participou da cerimônia de sanção da iniciativa, representando um conjunto de entidades e empresas que acompanharam as discussões junto ao governo federal e ao Congresso Nacional.

Segundo ele, a construção da política envolveu um esforço coletivo do setor produtivo, motivado principalmente pela necessidade de reduzir os custos de implantação de data centers no Brasil.

O principal problema está na carga tributária incidente sobre os equipamentos utilizados nessas instalações. De acordo com os números apresentados pelo executivo, os tributos representam aproximadamente 30% a 35% do custo dos equipamentos no Brasil, enquanto países que disputam os mesmos investimentos trabalham, em muitos casos, com cargas entre 5% e 10%.

Essa diferença afeta diretamente o investimento inicial necessário para construir uma instalação, especialmente em projetos de grande escala, que exigem servidores, equipamentos de armazenamento, processamento e redes de alta capacidade.

Embora o Redata tenha sido desenvolvido para enfrentar parte desse problema, Nina destacou que a iniciativa alcança principalmente tributos federais, como IPI, PIS/Cofins e PIS/Cofins-Importação.

O ICMS, de competência estadual, continua fora do alcance direto da medida e, segundo o presidente da Brasscom, representa aproximadamente dois terços da carga tributária incidente sobre esses equipamentos, dependendo de sua classificação.

O imposto de importação também permanece vigente, preservando mecanismos de proteção à indústria nacional.

Para Nina, portanto, a sanção representa uma etapa importante, mas ainda insuficiente para equiparar as condições brasileiras às de outros mercados.

O executivo comparou a evolução do projeto à escalada de uma montanha: depois de alcançar um primeiro objetivo, o setor encontra novos desafios que precisam ser superados para que os resultados esperados sejam efetivamente alcançados.

Regulamentação, ICMS e imposto de importação estão entre as próximas decisões

Um dos pontos mais importantes apresentados por Nina foi a necessidade de regulamentar o Redata para permitir sua aplicação prática.

Segundo o executivo, a legislação prevê aproximadamente 20 pontos que dependem de regulamentação infralegal. A expectativa apresentada durante a entrevista era de que a maior parte dessas definições fosse contemplada em um decreto presidencial, enquanto temas específicos poderiam ser tratados posteriormente por portarias e outros instrumentos.

Entre os aspectos pendentes estão a definição dos equipamentos contemplados, por meio de seus códigos de classificação fiscal, os procedimentos para habilitação das empresas e os requisitos de sustentabilidade aplicáveis aos data centers.

A regulamentação também precisa abordar condições relacionadas à eficiência energética. A eficiência no uso da água, por sua vez, já havia sido contemplada no texto legal, conforme explicado pelo presidente da Brasscom.

Outro assunto relevante está relacionado ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), responsável pelas deliberações que envolvem benefícios fiscais estaduais.

Nina explicou que já existia, havia mais de um ano, uma proposta em discussão para permitir reduções expressivas do ICMS incidente sobre os equipamentos abrangidos pelo programa, chegando a percentuais de 80% a 90% nas alíquotas, conforme a proposta mencionada na entrevista.

Entretanto, uma medida dessa natureza depende de decisão unânime dos estados, além da definição do escopo e das regras de funcionamento do Redata.

O imposto de importação representa uma terceira frente de discussão.

Segundo Nina, o governo federal havia aumentado, em fevereiro de 2026, as alíquotas de importação incidentes sobre uma série de equipamentos, incluindo produtos relevantes para a infraestrutura de data centers.

Na avaliação da Brasscom, esse aumento criou uma contradição com o próprio objetivo do Redata, que busca justamente reduzir os custos e ampliar a competitividade brasileira.

A entidade defendeu inicialmente o retorno das alíquotas aos patamares praticados até janeiro, acompanhado de uma discussão mais ampla sobre como equilibrar o fortalecimento da indústria nacional e a necessidade de atrair investimentos.

Para o executivo, a existência de produção brasileira precisa ser considerada na formulação das políticas industriais, mas os mecanismos de proteção também devem observar os efeitos sobre a competitividade do país.

A demora nas decisões já provocou perda de investimentos para outros países

A velocidade de implementação das medidas foi outro ponto de preocupação apresentado durante a entrevista.

Affonso Nina relatou que as discussões sobre o Redata começaram ainda em 2024 e que havia expectativas de avanços em diferentes momentos de 2025. Entretanto, a tramitação levou mais tempo do que o setor considerava adequado.

De acordo com o executivo, a demora trouxe consequências concretas para a capacidade brasileira de atrair projetos internacionais.

Embora não tenha apresentado uma estimativa consolidada dos valores perdidos, Nina mencionou situações relatadas por empresas que participaram de negociações envolvendo grandes investimentos em infraestrutura.

Em um dos casos, uma companhia global avaliava implantar um projeto no Brasil, mas acabou direcionando o investimento para a Índia.

Em outro, uma empresa que negociava um contrato com um cliente brasileiro perdeu a oportunidade para uma operação localizada no México, onde os custos tributários eram mais competitivos.

O presidente da Brasscom também destacou situações em que empresas instalaram infraestrutura fora do Brasil para atender exclusivamente clientes brasileiros.

Um dos exemplos citados envolveu data centers localizados na Flórida, nos Estados Unidos, utilizados para atender demanda do mercado nacional.

Segundo Nina, mesmo com custos de energia potencialmente superiores aos brasileiros, a diferença no investimento inicial em equipamentos pode tornar economicamente mais vantajosa a operação no exterior.

Esse fenômeno representa uma perda de oportunidade para o desenvolvimento da infraestrutura local, pois investimentos destinados a atender consumidores e empresas brasileiras acabam estimulando a construção de capacidade computacional em outros países.

Na avaliação do executivo, o Brasil deveria buscar o caminho inverso: desenvolver infraestrutura suficiente para atender a demanda interna e, adicionalmente, conquistar espaço na exportação de serviços digitais.

Brasil disputa investimentos com Chile, México, Colômbia e outros mercados internacionais

A competição internacional por data centers também foi abordada na conversa.

Nina destacou que a atração de grandes projetos depende de uma combinação de condições econômicas, tributárias, energéticas e de infraestrutura. Entretanto, considera que o custo dos equipamentos representa um dos primeiros obstáculos que o Brasil precisa enfrentar.

Como exemplo, mencionou o Chile, onde a carga tributária relacionada aos equipamentos seria de aproximadamente 13%, segundo os dados apresentados na entrevista.

O executivo relatou ainda uma conversa com uma autoridade chilena que indicou esforços para reduzir esse percentual a menos de 10%.

Além do Chile, países como Colômbia, México e Uruguai aparecem entre os mercados que disputam ou recebem investimentos em infraestrutura digital na América Latina.

Essa competição também envolve países europeus, asiáticos e os Estados Unidos.

Embora cada mercado apresente vantagens e limitações específicas, a diferença tributária brasileira amplia o desafio de transformar o potencial nacional em projetos efetivamente contratados.

O executivo destacou que o México, por exemplo, se beneficia da proximidade com os Estados Unidos, mas também enfrenta dificuldades relacionadas à disponibilidade de energia.

Nesse ambiente competitivo, Nina considera que o Brasil precisa acompanhar as condições oferecidas por outros mercados e agir com maior velocidade na implementação de medidas que melhorem sua posição internacional.

A leitura apresentada durante a entrevista é que o país possui potencial para conquistar investimentos relevantes, mas já perdeu oportunidades por não ter avançado no ritmo necessário.

Energia e sustentabilidade também influenciam o futuro dos data centers

A definição dos requisitos energéticos previstos no Redata também ganhou destaque na entrevista.

Segundo Nina, um dos debates que retardaram a regulamentação estava relacionado à interpretação dos termos utilizados na legislação para definir fontes de energia renováveis ou de baixa emissão.

A discussão envolvia especialmente quais fontes poderiam ser classificadas como de baixa emissão, incluindo a possibilidade de enquadramento do gás natural.

O presidente da Brasscom explicou que esse debate estava entre os pontos ainda pendentes de entendimento dentro do governo.

Para a entidade, entretanto, questões específicas como essa não deveriam impedir o avanço dos demais dispositivos necessários ao funcionamento do programa.

A sugestão apresentada pela Brasscom foi permitir a publicação das regras já definidas, deixando eventuais divergências para uma etapa posterior.

O posicionamento reflete a preocupação com o tempo de resposta das políticas públicas diante de decisões empresariais que envolvem investimentos elevados e concorrência internacional.

Embora a sustentabilidade seja considerada um componente importante do desenvolvimento dos data centers, a entidade defende que o processo regulatório também observe a urgência econômica da expansão da infraestrutura digital brasileira.

Formação de profissionais é outro desafio para o crescimento da tecnologia

Além da infraestrutura física, Affonso Nina destacou a importância da formação de profissionais para sustentar o crescimento do setor.

Segundo ele, a Brasscom organiza sua atuação em duas grandes frentes complementares: a jornada das tecnologias e a jornada dos talentos.

A primeira envolve temas relacionados à infraestrutura digital, conectividade, energia, data centers, segurança e desenvolvimento tecnológico.

A segunda concentra iniciativas voltadas à qualificação de pessoas capazes de trabalhar na construção, operação e evolução dessas tecnologias.

Entre os projetos apresentados está o Jovem Aprendiz Digital, iniciativa que busca aproveitar os mecanismos existentes de aprendizagem profissional para oferecer formação direcionada às atividades da economia digital.

A proposta é permitir que jovens adquiram conhecimentos e experiência dentro das empresas, ampliando suas possibilidades de contratação tanto pelas organizações participantes quanto pelo mercado de trabalho.

Outro projeto mencionado foi a Rede Carreiras Digitais, iniciativa em estruturação pela Brasscom com a perspectiva de ganhar escala a partir de 2027.

Segundo Nina, a proposta é construir uma coalizão envolvendo diferentes setores econômicos para enfrentar a escassez de profissionais qualificados em tecnologia.

A abrangência da iniciativa considera que a demanda por especialistas digitais não está restrita às empresas de tecnologia da informação.

Indústrias, instituições financeiras, empresas de serviços, comércio e organizações de diferentes segmentos também dependem de profissionais capazes de desenvolver, implementar e administrar soluções tecnológicas.

A expectativa apresentada pelo executivo é ampliar a capacidade nacional de formação para reduzir a distância entre a demanda empresarial e a disponibilidade de profissionais qualificados.

Cibersegurança precisa acompanhar a expansão da inteligência artificial

A cibersegurança também apareceu entre os temas estratégicos discutidos durante a entrevista.

Na avaliação do presidente da Brasscom, o desenvolvimento da economia digital exige uma abordagem integrada entre infraestrutura, proteção dos ambientes computacionais e inteligência artificial.

Nina explicou que a entidade organiza parte de seu trabalho considerando essas três camadas e mantém grupos específicos de associados dedicados a cada uma delas.

Enquanto o Redata e os projetos de data centers estão associados ao desenvolvimento da infraestrutura, a cibersegurança possui uma agenda própria de discussões e propostas.

A Brasscom também realizou um evento dedicado ao assunto, com participação do Gartner, reforçando a importância do tema para as empresas de tecnologia.

Segundo o executivo, o Brasil ainda possui espaço considerável para ampliar os investimentos em proteção digital e fortalecer as empresas e organizações que integram esse mercado.

O avanço da inteligência artificial aumenta a relevância dessa preocupação, uma vez que a utilização crescente de sistemas digitais depende de ambientes capazes de oferecer segurança e confiabilidade.

Nina destacou que, embora a inteligência artificial concentre grande parte das atenções do mercado, seu desenvolvimento depende de uma estrutura mais ampla, que inclui data centers, energia, conectividade e cibersegurança.

A entidade pretende continuar trabalhando em iniciativas que estimulem o crescimento desse ecossistema e ampliem os investimentos em segurança no Brasil.

Brasscom estuda as vocações brasileiras para a inteligência artificial

Na parte final da entrevista, Affonso Nina apresentou uma iniciativa da Brasscom voltada à identificação das principais oportunidades brasileiras no mercado de inteligência artificial.

Segundo ele, a entidade está desenvolvendo um estudo sobre as vocações do Brasil nessa área, considerando tanto as diferentes camadas tecnológicas necessárias ao funcionamento da IA quanto os setores econômicos nos quais o país possui vantagens competitivas.

O objetivo é identificar onde o Brasil apresenta maior potencial de desenvolvimento e em quais segmentos pode conquistar posições relevantes no mercado internacional.

Essa análise considera que o crescimento da inteligência artificial envolve diferentes atividades econômicas, desde a infraestrutura de processamento e armazenamento até o desenvolvimento de aplicações específicas para indústrias e serviços.

Para Nina, o país precisa fazer escolhas estratégicas e direcionar esforços para áreas nas quais tenha condições de competir globalmente.

A visão da Brasscom é que o desenvolvimento tecnológico deve contribuir para a ampliação da presença brasileira nas cadeias internacionais de valor, gerando crescimento econômico e oportunidades sociais.

O executivo destacou a importância de observar o que outros países estão desenvolvendo e de construir uma estratégia que considere o posicionamento internacional do Brasil.

A inclusão digital também faz parte dessa perspectiva, já que a expansão da tecnologia pode contribuir para ampliar o acesso da população a serviços, oportunidades e atividades econômicas.

O futuro da infraestrutura digital brasileira depende de decisões coordenadas

A entrevista com Affonso Nina revelou uma agenda de desafios que envolve tributação, regulamentação, política industrial, energia, desenvolvimento de talentos, cibersegurança e inteligência artificial.

O Redata representa um avanço na construção de condições mais competitivas para a instalação de data centers, mas sua efetividade depende de decisões adicionais que envolvem diferentes instâncias do poder público.

O executivo também demonstrou preocupação com a velocidade dessas decisões. Em um mercado no qual grandes investimentos podem ser direcionados para diferentes países, atrasos regulatórios e diferenças de custos podem significar a perda definitiva de oportunidades.

Ao mesmo tempo, a expansão da infraestrutura precisa ser acompanhada pela formação de profissionais e pelo fortalecimento das condições necessárias para o desenvolvimento seguro das tecnologias digitais.

Para a Brasscom, o Brasil deve buscar uma participação mais expressiva no mercado internacional, aproveitando suas capacidades para desenvolver infraestrutura, gerar conhecimento, atrair investimentos e ampliar sua presença na economia digital.

A mensagem central de Nina é que o país possui oportunidades relevantes, mas precisa transformar potencial em competitividade, combinando políticas públicas, investimentos privados e formação de talentos para sustentar seu crescimento tecnológico nos próximos anos.

A entrevista foi gravada durante o Futurecom Connect, realizado pelo Last Mile no Futurecom 2026, em São Paulo, com apoio da Connectoway e da Eletronet.

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