Carlos Nazareth, do Inatel, aponta educação, IA e 6G como pilares para o Brasil avançar em tecnologia

Diretor do Inatel falou ao Last Mile sobre a trajetória da instituição, formação de engenheiros, 5G, 6G, inteligência artificial, satélites, empreendedorismo e o papel do Brasil na próxima geração da inovação tecnológica

O avanço das telecomunicações brasileiras nas próximas décadas dependerá tanto de novas tecnologias quanto da capacidade do país de formar pessoas para criá-las. Essa foi uma das principais mensagens de Carlos Nazareth, diretor do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em entrevista ao Last Mile Podcast.

Em uma conversa que percorreu mais de seis décadas de evolução tecnológica, Nazareth falou sobre a história do Inatel, a formação de engenheiros, o desenvolvimento de tecnologias nacionais, os trabalhos relacionados ao 5G e 6G, o impacto da inteligência artificial na educação, o avanço das constelações de satélites e os próximos desafios da conectividade.

A instituição completou 60 anos em 2025 e foi criada, em 1965, como a primeira escola de Engenharia de Telecomunicações do país. Em 2026, Nazareth segue à frente do instituto, antes da transição de diretoria prevista para dezembro.

A visão apresentada pelo executivo é de um mercado em que telecomunicações, computação, inteligência artificial, cibersegurança, energia e automação estarão cada vez mais conectadas.

De Santa Rita do Sapucaí para a transformação das telecomunicações brasileiras

A história do Inatel acompanha uma parte importante da construção da infraestrutura de telecomunicações do Brasil.

Localizado em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, o instituto nasceu em um período em que o país buscava ampliar sua integração por meio das telecomunicações. Em 1965 também surgiam projetos nacionais que demandariam profissionais especializados para construir redes, sistemas de transmissão e uma nova estrutura de comunicação.

Segundo Nazareth, essa origem ajuda a explicar uma característica que permanece presente no instituto: a proximidade entre academia e mercado.

Sem grandes recursos em seus primeiros anos, a instituição precisou buscar projetos e parcerias. Um dos primeiros trabalhos foi ligado à interiorização do sinal de televisão em Minas Gerais. Depois vieram relações com empresas como Vale, IBM, Nortel e Ericsson.

Essa aproximação evoluiu até a criação do Inatel Competence Center, estrutura dedicada a colocar o conhecimento desenvolvido dentro da academia à disposição das empresas.

Hoje, segundo Nazareth, essa atuação envolve desenvolvimento de software, hardware, sistemas embarcados, redes de telecomunicações, testes, calibração, certificação, consultoria e educação continuada.

Formação prática virou um dos pilares do modelo do Inatel

Para Nazareth, uma das explicações para a permanência do Inatel como referência está na tentativa de aproximar formação acadêmica e problemas reais do mercado.

O instituto mantém mais de 60 ambientes laboratoriais distribuídos entre laboratórios acadêmicos, temáticos e de pesquisa.

Os estudantes também podem participar de iniciação científica, projetos, monitorias e estágios. Segundo o diretor, o Inatel oferece anualmente mais de 350 oportunidades de estágio dentro das atividades desenvolvidas em conjunto com empresas.

A ideia é formar aquilo que a instituição define como um “recém-formado com experiência”.

No curso de Engenharia de Telecomunicações, por exemplo, os alunos têm acesso a estruturas relacionadas a redes ópticas, FTTH, comunicação móvel e uma rede 5G em funcionamento dentro do campus.

Essa proximidade com o mercado também ajuda a antecipar a entrada dos estudantes nas empresas. Nazareth relatou que muitos alunos de telecomunicações começam a ser contratados antes mesmo de concluírem a graduação.

Falta de engenheiros pode limitar o avanço tecnológico

Um dos pontos mais enfáticos da entrevista foi a formação de novos profissionais.

Nazareth avalia que o Brasil enfrenta dificuldade para despertar vocações tecnológicas ainda no ensino fundamental e médio. A redução da experiência prática e laboratorial nas escolas, segundo ele, prejudica o interesse de jovens pelas engenharias.

Durante a conversa, o diretor citou uma diferença que considera preocupante: enquanto alguns países asiáticos possuem uma participação elevada de jovens escolhendo carreiras ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática, as chamadas áreas STEM, essa proporção seria significativamente menor no Brasil.

Ao mesmo tempo, a demanda do mercado continua crescendo.

Para Nazareth, telecomunicações também precisa ser compreendida de maneira mais ampla. O engenheiro da área pode trabalhar em operadoras e provedores, mas também em mineração, óleo e gás, agronegócio, indústria, logística e qualquer outra vertical que dependa de conectividade.

“Não existe setor que não necessite de telecomunicações”, afirmou durante o episódio.

Do 4G ao desenvolvimento nacional de soluções para o 5G

A atuação do Inatel em novas gerações de redes móveis ganhou força a partir da experiência acumulada em radiocomunicação e rádio definido por software.

Nazareth explicou que, em 2015, o instituto estruturou o Centro de Referência em Radiocomunicação com foco também no desenvolvimento de soluções relacionadas às novas gerações móveis.

O trabalho começou com tecnologias LTE e avançou para soluções baseadas em conceitos que seriam empregados no 5G.

Em 2017, segundo o diretor, o Inatel realizou uma demonstração em Brasília conectando prédios do governo com uma solução desenvolvida pela própria instituição, incluindo rádio, placas e software.

Nazareth destacou esse momento porque, nas gerações anteriores, o Brasil acompanhava a chegada e a implantação das novas tecnologias, mas tinha participação limitada no desenvolvimento dos sistemas.

A partir do 5G, o objetivo passou a incluir uma presença brasileira mais ativa na construção tecnológica.

6G coloca o Brasil mais perto da definição das próximas redes

Essa experiência abriu caminho para o xGMobile, Centro de Competência Embrapii Inatel em Redes 5G e 6G, criado para desenvolver pesquisas, formar profissionais e aproximar empresas das tecnologias que deverão compor as próximas gerações de comunicação móvel. A própria instituição mantém atualmente pesquisas em diferentes frentes relacionadas ao 5G e 6G.

Entre os temas citados por Nazareth estão antenas, inteligência artificial aplicada às telecomunicações, comunicações ópticas, IoT, novos materiais e convergência entre redes sem fio e ópticas.

Uma das linhas apresentadas no episódio foi o TV White Spaces, tecnologia que utiliza canais ociosos de televisão para oferecer conectividade em áreas onde a infraestrutura tradicional é limitada.

A solução tem relevância especialmente para regiões rurais e localidades de menor densidade populacional, uma realidade particularmente importante para o Brasil. Em testes realizados no Ceará em 2026, o sistema desenvolvido no Inatel alcançou aproximadamente 115 Mbps em um enlace de 11,5 quilômetros.

Para Nazareth, participar das discussões do 6G oferece ao Brasil a oportunidade de colocar necessidades nacionais dentro do desenvolvimento das próximas redes, incluindo conectividade no agronegócio e em regiões de baixa densidade.

Inteligência artificial muda a engenharia — e também a forma de ensinar

Outro eixo central da conversa foi a inteligência artificial.

Todos os cursos de engenharia do Inatel, segundo Nazareth, já possuem disciplinas relacionadas ao tema. O objetivo é preparar profissionais não apenas para utilizar ferramentas generativas, mas também para desenvolver soluções que incorporem IA em softwares, redes, equipamentos, robôs e dispositivos IoT.

O desafio também chegou à sala de aula.

Nazareth relatou que, nos primeiros momentos de popularização da IA generativa, começaram a aparecer trabalhos em que era evidente que o estudante havia delegado boa parte da atividade à ferramenta.

Isso levou o instituto a discutir novas metodologias.

A visão defendida pelo diretor é que a IA deve acelerar o acesso à informação e eliminar parte das tarefas repetitivas, mas o estudante precisa continuar desenvolvendo conhecimento, raciocínio lógico e capacidade de criação.

Avaliações orais, projetos aplicados e interação direta com professores ganham relevância nesse ambiente.

“Se o aluno fica dependente do uso de IA para responder perguntas, desenvolver soluções e fazer projetos, inevitavelmente vai ter uma formação mais superficial”, afirmou.

Para Nazareth, o ganho real aparece quando a tecnologia libera tempo para atividades intelectualmente mais sofisticadas.

IA já começa a entrar nas próprias redes de telecomunicações

O Inatel também trabalha no desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial para empresas.

Segundo o diretor, a instituição possui infraestrutura computacional equipada com GPUs para pesquisas e projetos que podem executar IA tanto na nuvem quanto na borda.

Entre as aplicações citadas estão sistemas capazes de analisar o comportamento de assinantes de serviços de conteúdo, equipamentos de telecomunicações com configurações autônomas, soluções para mineração e agentes voltados à automação de processos empresariais.

Nas redes móveis, a tendência é de uma utilização crescente da IA na operação e otimização da própria infraestrutura.

Esse movimento também aparece nas pesquisas do xGMobile, que estudam inteligência artificial aplicada às futuras redes 5G e 6G.

Satélite será complementar às redes terrestres

O crescimento da Starlink e das constelações de baixa órbita também entrou na conversa.

Para Nazareth, a principal ruptura recente do mercado satelital ocorreu na redução do custo dos lançamentos. A reutilização de foguetes permitiu aumentar significativamente a quantidade de satélites colocados em órbita e tornou economicamente possíveis constelações muito maiores.

Isso cria uma oportunidade particularmente relevante em um país continental como o Brasil.

Mas o diretor não enxerga uma substituição generalizada das redes terrestres.

A razão está nas características físicas de cada tecnologia.

Mesmo satélites de baixa órbita operam a centenas de quilômetros da superfície. Aplicações que exigem latências extremamente baixas, como veículos autônomos, sincronização de máquinas e determinados usos industriais, continuarão dependendo fortemente de infraestrutura terrestre.

A visão apresentada é de complementaridade.

Fibra óptica, Wi-Fi, redes 5G e 6G e sistemas satelitais deverão operar de maneira cada vez mais integrada. Nazareth relacionou essa arquitetura ao conceito de uma rede tridimensional, reunindo infraestrutura terrestre e elementos no espaço.

“Não existe uma única tecnologia que dominará todo o cenário de telecomunicações”, resumiu.

Empreendedorismo transforma pesquisa em empresas

A formação tecnológica do Inatel também se conecta a uma cultura de empreendedorismo desenvolvida dentro do campus.

O instituto mantém uma estrutura de pré-incubação e incubação para estimular estudantes a transformar projetos em negócios.

Um dos pontos de entrada é a Feira Tecnológica do Inatel, a FETIN, onde estudantes apresentam protótipos desenvolvidos ao longo da graduação.

Projetos identificados como promissores podem avançar para programas de pré-incubação, receber orientação e posteriormente disputar uma vaga na incubadora.

Segundo Nazareth, das aproximadamente 170 empresas de eletroeletrônica existentes em Santa Rita do Sapucaí, 85 nasceram nesse ambiente ligado ao Inatel.

Ele citou empresas como Think Technology, Qualitronix e Ativa Soluções entre exemplos de negócios desenvolvidos a partir desse ecossistema.

Telecom começa a ocupar cada vez mais verticais

A diversificação também aparece na estratégia institucional.

Nazareth afirmou que o conhecimento originalmente construído em telecomunicações hoje é aplicado em mineração, indústria automobilística, serviços financeiros, saúde, energia e automação.

A explicação está na própria digitalização da economia.

Uma mina autônoma depende de conectividade. Um equipamento médico conectado precisa de rede e segurança. Uma indústria robotizada possui infraestrutura de comunicação própria. Sistemas financeiros dependem de processamento e telecomunicações.

Essa convergência amplia o campo de atuação tanto do Inatel quanto dos profissionais formados pela instituição.

Cibersegurança desde a concepção será um dos próximos desafios

Entre as prioridades para os próximos anos, Nazareth destacou a evolução do conceito de cybersecurity by design.

A proposta é considerar segurança cibernética desde a fase inicial de desenvolvimento dos equipamentos, sistemas e softwares.

A preocupação também se estende para a tecnologia operacional.

Redes industriais utilizadas em mineração, automação, energia e fábricas estão cada vez mais conectadas. Uma invasão nesse ambiente pode ter impactos físicos e operacionais muito superiores aos encontrados em um sistema convencional de tecnologia da informação.

Além da segurança, Nazareth citou realidade virtual, realidade aumentada, games, tecnologias médicas, energias renováveis, automação e inteligência artificial entre áreas que deverão ganhar espaço crescente dentro da atuação do instituto.

Educação será determinante para o Brasil avançar na cadeia global de inovação

No encerramento da entrevista, Nazareth voltou ao tema que atravessou praticamente toda a conversa: pessoas.

Na avaliação do diretor, investimentos financeiros e infraestrutura são insuficientes se o país não conseguir formar profissionais capazes de desenvolver tecnologia.

Por isso, ele defendeu uma atenção maior às carreiras tecnológicas e à capacidade do ensino fundamental e médio de despertar vocações científicas.

O Brasil já possui engenheiros e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. O desafio, na visão de Nazareth, é ampliar essa base e construir condições para que mais talentos sejam formados e encontrem oportunidades de desenvolver tecnologia no próprio país.

“Para investir maciçamente em tecnologia, não basta recurso. Precisa de talento”, afirmou.

É nessa combinação entre educação, pesquisa, desenvolvimento tecnológico, empresas e formação de profissionais que Nazareth enxerga a possibilidade de o Brasil ocupar uma posição maior na cadeia mundial de inovação.

E, olhando para uma conversa que atravessou 5G, 6G, IA, satélites, cibersegurança e engenharia, há um ponto em comum entre todas essas tecnologias: nenhuma delas avança sem gente qualificada para transformá-las em soluções reais.

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