CPQD vê provedores em transição para oferta de soluções, edge computing e novas redes!

Gustavo Lima, diretor de Tecnologia e Inovação do CPQD, afirma ao Last Mile que ISPs têm vantagem pela proximidade com o cliente, mas precisarão ampliar portfólio, incorporar IA, redes privativas, segurança e infraestrutura de computação

Os provedores de conectividade estão diante de uma nova etapa de evolução tecnológica. A avaliação é de Gustavo Lima, diretor de Tecnologia e Inovação do CPQD, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo ele, o movimento de transformação dos ISPs em empresas de tecnologia passa por uma ampliação da atuação para além da conectividade tradicional. Na visão do executivo, os provedores possuem uma vantagem importante dentro do ecossistema digital: a proximidade com o cliente final, tanto no mercado residencial quanto no empresarial.

“Os provedores de conectividade têm um posicionamento muito vantajoso dentro da cadeia do ecossistema digital, porque ele é o ponto de contato com o cliente”, afirmou Lima.

A partir dessa posição, a oportunidade passa por monetizar melhor a infraestrutura já construída, incorporando novas camadas de serviços, como segurança cibernética, inteligência artificial, redes privativas, edge computing e aplicações verticais.

CPQD completa 50 anos ligado à história da telecom brasileira

Durante a conversa, Lima lembrou que o CPQD completa 50 anos em 2026. A instituição nasceu como braço de pesquisa e desenvolvimento da antiga Telebras, em uma fase em que o mercado brasileiro de telecomunicações ainda era estatal e fechado.

Segundo o executivo, o centro participou de momentos importantes da história tecnológica nacional, incluindo o desenvolvimento da fibra óptica, da central Trópico, do cartão indutivo usado em telefones públicos, da TV digital e de tecnologias ligadas ao 4G.

“O CPQD é um centro de inovação. Ele foi fundado, esse ano completa 50 anos”, afirmou.

Hoje, a instituição atua como centro privado de inovação, com foco em levar tecnologia para empresas, sociedade e para o próprio desenvolvimento do Brasil. Segundo Lima, o CPQD mantém uma relação próxima com agendas de conectividade significativa, sustentabilidade e inovação aplicada.

Do fomento ao mercado

Lima explicou que o CPQD atua em diferentes frentes. Uma delas envolve projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação com mecanismos de fomento, como Embrapii, Finep e fundos ligados a setores como energia, petróleo e gás.

Além disso, o CPQD também possui atuação direta no mercado, com portfólio de produtos e soluções.

Entre os exemplos citados estão laboratórios de certificação e homologação de equipamentos, sistemas de gerência de planta usados por operadoras, soluções de BSS, interfaces de interação, credenciais verificáveis e produtos voltados ao mercado de telecomunicações.

Segundo Lima, qualquer empresa pode procurar o CPQD, independentemente do porte.

“Nós não temos nenhuma restrição a nenhum porte de empresa para trabalhar conosco”, disse.

O executivo afirmou que o centro atende desde startups até grandes empresas e pode apoiar provedores em projetos de inovação, desenvolvimento de soluções, certificação, redes privativas, antifraude e novas aplicações.

Redes privativas, FWA e antifraude para provedores

Para o mercado de provedores, Lima destacou que o CPQD possui soluções aderentes a diferentes realidades de operação.

Uma delas é um core de rede privativa 4G e 5G, que também pode ser utilizado em ofertas de FWA. Segundo ele, o produto foi customizado para redes privativas e pequenos provedores, considerando o crescimento do 4G e 5G nesse mercado.

Outra frente mencionada foi a solução antifraude, aplicável a diferentes segmentos e tamanhos de empresa, de integradores menores a grandes instituições financeiras.

A mensagem é que o CPQD não atua apenas em grandes projetos de operadoras nacionais, mas também em desafios concretos enfrentados por empresas menores, inclusive ISPs regionais.

De conectividade para soluções

Um dos temas centrais da entrevista foi a evolução dos provedores de internet para provedores de soluções.

Lima afirmou que o CPQD lançou a série “CPQD Techco”, voltada ao mercado de telecom, justamente para discutir essa transformação. A primeira edição tratou de inteligência artificial aplicada à automação de redes. A edição seguinte aborda data centers sustentáveis. As próximas devem tratar de redes privativas, redes híbridas, redes comunitárias, redes satelitais, baixa órbita, redes não terrestres e 6G.

Segundo ele, a preocupação das grandes operadoras hoje é uma pergunta que também se aplica aos provedores regionais: como monetizar melhor a rede e a infraestrutura?

“Que toda grande operadora hoje está preocupada: como eu monetizo melhor a minha rede, a minha infraestrutura?”, afirmou.

Na visão de Lima, a resposta passa por ampliar o portfólio e levar novas soluções aos clientes, inclusive em áreas como segurança, privacidade e inteligência artificial.

Edge computing deve ganhar espaço

Lima também defendeu que o setor deve começar a falar cada vez mais de edge computing. Segundo ele, os grandes data centers ainda estão concentrados em alguns eixos, especialmente no litoral brasileiro e no eixo Rio-São Paulo.

Para um país de dimensões continentais, essa concentração não será suficiente para sustentar todos os casos de uso que exigem baixa latência, processamento local e serviços digitais mais próximos dos usuários.

“Muito em breve a gente vai parar de falar só de rede. Nós vamos começar a falar também de edge computing”, afirmou.

Na visão do executivo, a descentralização da infraestrutura de computação pode seguir uma lógica parecida com a descentralização das redes de telecomunicações. Isso abre espaço para provedores atuarem não só como operadores de conectividade, mas também como pontos de entrega de aplicações, segurança, inteligência artificial e serviços computacionais próximos ao cliente.

Aplicações locais para indústria e agro

Ao comentar a oportunidade de edge data centers e infraestrutura distribuída, Lima afirmou que o CPQD pode apoiar provedores tanto na gestão dessa infraestrutura quanto no desenvolvimento de aplicações.

Segundo ele, há projetos internos ligados à operação de data centers, especialmente na gestão de energia, escolha de carga computacional próxima a fontes renováveis, armazenamento e negociação de energia.

Além disso, o CPQD pode ajudar provedores a entender casos de uso específicos para a realidade regional. Um ISP que atende um polo industrial pode desenvolver aplicações comuns para aquele conjunto de clientes. Já um provedor inserido em uma região de agronegócio pode precisar de soluções completamente diferentes.

Lima citou como exemplo o uso de visão computacional para apoiar drones em detecções no campo. Esse tipo de aplicação pode ser oferecido pelo provedor, que conhece tecnologia, está próximo do cliente e entende melhor a demanda regional.

“O provedor lá próximo conhece de tecnologia, conhece o seu cliente e vai conseguir ajudar melhor esse cliente”, afirmou.

Open RAN como proteção do investimento futuro

Outro tema abordado foi o Open RAN. Lima afirmou que o CPQD trabalha com essa tecnologia desde 2018 e a descreveu como uma nova forma de construir redes 4G, 5G e futuramente 6G.

Segundo ele, o Open RAN traz mais flexibilidade porque permite combinar diferentes componentes da rede, como sistema de gerenciamento, processamento de banda base, rádio e inteligência artificial para otimização.

No modelo tradicional, o operador tende a ficar vinculado a um fornecedor desde a primeira torre. Em expansões futuras, novas cidades ou transições tecnológicas, esse vínculo pode limitar a flexibilidade. Já no Open RAN, parte da rede roda em hardware de uso geral, com softwares que permitem maior possibilidade de integração entre fornecedores.

“É a proteção do seu investimento futuro”, afirmou Lima.

O executivo ressaltou que isso não significa desqualificar vendors tradicionais, mas ampliar a capacidade de escolha dos operadores, especialmente em futuras viradas tecnológicas.

6G ainda está em fase de padronização

Sobre o 6G, Lima afirmou que a tecnologia ainda está em fase de padronização e demonstrações. Segundo ele, vendors, academia e centros de pesquisa ainda estão apresentando proposições sobre o que o 6G deverá ser.

“A jornada do 6G hoje é de demonstrações, tanto de vendors como de academia, centros de pesquisa”, afirmou.

A previsão, segundo o executivo, é que os primeiros pilotos mais amplos aconteçam entre 2029 e 2030. Ainda assim, ele ponderou que a discussão mais importante talvez não seja a evolução tecnológica em si, mas a monetização.

“O mercado ainda se questiona muito. A rentabilização do 5G ainda não se pagou”, afirmou.

Para Lima, a transição para uma nova geração precisa fazer sentido em termos de investimento. Ele também acredita que o setor pode entrar em uma fase de evolução mais contínua, menos baseada em grandes saltos geracionais, por causa da adoção crescente de software nas redes.

Satélites, IA e redes não terrestres

Entre os pontos que devem marcar a evolução para o 6G, Lima destacou a integração entre conectividade terrestre e não terrestre.

Segundo ele, a possibilidade de satélites de baixa órbita funcionarem como estações rádio base pode mudar a forma como a conectividade é entregue, reduzindo a dependência exclusiva das torres tradicionais.

Ele também apontou a inteligência artificial como parte integrante das futuras redes, tanto para operação e otimização da infraestrutura quanto para atender as demandas de aplicações baseadas em IA.

Na visão do executivo, a rede do futuro precisará operar com mais automação, mais software, mais inteligência embarcada e maior capacidade de integração entre diferentes tecnologias.

Oportunidade para provedores regionais

A entrevista com Gustavo Lima mostra que a transformação dos provedores não depende apenas de adicionar novos produtos ao portfólio. Ela exige uma mudança de leitura sobre o papel da infraestrutura.

A rede continua sendo a base, mas começa a ser vista como plataforma para serviços digitais, computação distribuída, inteligência artificial, segurança, redes privativas e aplicações específicas para cada território.

O diferencial dos provedores regionais segue sendo a proximidade com o cliente. Mas essa proximidade precisa ser convertida em novas ofertas, novos casos de uso e novas formas de monetização.

O CPQD se posiciona como um parceiro de inovação nessa jornada, oferecendo pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico, certificação, capacitação e soluções voltadas tanto para grandes operadoras quanto para empresas menores.

O recado central da conversa é que o futuro dos ISPs não será definido apenas pela capacidade de entregar conexão. A próxima etapa passa por transformar infraestrutura em valor aplicado para empresas, consumidores e regiões inteiras.

A entrevista completa com Gustavo Lima está disponível no Last Mile Podcast.

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