André Martins, presidente do instituto, afirma ao Last Mile Podcast que o setor precisa harmonizar pautas, avançar no PL dos postes, discutir melhor o uso do FUST e estruturar uma visão de longo prazo para a infraestrutura digital do país
O Instituto Brasileiro de Telecomunicações e Soluções Digitais, o IBTD, nasce com a proposta de oferecer base técnica e científica para a Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações e Soluções Digitais. A avaliação foi apresentada por André Martins, presidente do instituto, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.
Segundo Martins, o setor de telecomunicações é fragmentado e possui várias entidades, associações e lideranças relevantes. Essa diversidade, embora positiva, pode dificultar o entendimento das pautas por quem está fora do mercado, especialmente no ambiente político.
“O nosso setor é um setor muito fragmentado. Por ser fragmentado, quem não é do meio tem dificuldade de entender essas nuances”, afirmou.
O IBTD foi criado para apoiar tecnicamente a Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações e Soluções Digitais, instalada em 16 de dezembro de 2025. Segundo Martins, a frente reúne telecomunicações como infraestrutura e soluções digitais como tudo que se desenvolve sobre essa base.
Instituto terá sete comitês técnicos
Durante a entrevista, Martins explicou que o IBTD foi estruturado em sete comitês técnicos.
O primeiro é o comitê de infraestrutura crítica e soberania, voltado a temas como cabos submarinos e backbones de alta capacidade e resiliência. Segundo ele, essa camada representa o “nervo central” da infraestrutura digital brasileira.
O segundo é o comitê de expansão e última milha, que trata da ramificação da infraestrutura até o usuário final. É nesse comitê que se encaixa a discussão sobre postes, uma das principais pautas do setor.
Os demais comitês citados por Martins são espectro terrestre e não terrestre, cibersegurança e resiliência, inovação e novas tecnologias, economia digital e conectividade social e acesso remoto.
A proposta, segundo ele, é organizar tecnicamente temas que hoje aparecem de forma dispersa no mercado.
Postes são tema central
Um dos principais pontos da conversa foi o compartilhamento de postes.
Martins afirmou que o tema é central para o IBTD e está alocado no comitê de expansão e última milha. Segundo ele, a pauta está travada há décadas e exige tratamento urgente.
“Os postes são tema central do IBTD. Ele é muito latente, está travado há décadas”, afirmou.
O presidente do instituto disse que o IBTD ouviu entidades do setor, incluindo associações, e levou à frente parlamentar a urgência do PL dos postes. Segundo ele, o presidente da frente parlamentar assumiu pessoalmente a pauta, apresentou requerimento de urgência e pediu a relatoria do projeto.
Na visão de Martins, a discussão precisa considerar as diferenças regionais do Brasil. Ele afirmou que o país não deveria tratar da mesma forma realidades muito distintas, como áreas urbanas de alta densidade e municípios menores do interior.
“Não faz sentido cobrar o mesmo preço de um poste na Faria Lima e um poste em Caicó, em Patos, ou em outra cidade do interior do Nordeste”, afirmou.
Segundo ele, uma das discussões será como trazer simetria de preços ou até isenção em áreas rurais, semirrurais ou mais assistidas.
FUST e necessidade de planejamento
Martins também comentou o papel do FUST na expansão da infraestrutura de telecomunicações.
Segundo ele, o fundo é arrecadado de operadores de telecomunicações para prover investimentos de infraestrutura e apoiar a universalização. No entanto, na visão do presidente do IBTD, o país precisa revisar o que deseja construir em termos de infraestrutura digital para os próximos anos.
Ele afirmou que conectar uma escola, uma unidade básica de saúde ou um estabelecimento público tem valor, mas isso não basta se não houver uma infraestrutura de qualidade sustentando essas conexões.
“O mais fácil que tem é você puxar fibra, puxar cabo e ligar algum estabelecimento, uma escola, uma UBS. Isso é o processo. Mas você precisa prover infraestrutura de qualidade embaixo disso tudo”, afirmou.
Martins disse que o Brasil ainda não possui um plano diretor claro sobre o que quer para sua infraestrutura de telecomunicações nos próximos 25 anos.
Segundo ele, o papel do IBTD não é assumir a elaboração desse plano sozinho, mas criar uma interlocução entre entidades, Anatel, Ministério das Comunicações, Legislativo, Executivo e especialistas para organizar as peças já existentes e identificar lacunas.
Infraestrutura como alicerce
Na visão do presidente do IBTD, o FUST deve continuar atendendo pautas sociais urgentes, mas também precisa ser pensado como instrumento para fortalecer o alicerce da infraestrutura digital.
Ele afirmou que o fundo pode apoiar conectividade para os mais frágeis, mas também deve estar conectado a uma estratégia mais ampla de corredores ópticos, conectividade de alta capacidade e infraestrutura em regiões estratégicas, inclusive próximas a fontes de energia renovável.
“Como é que a gente consegue levar as fibras, a conectividade de alta capacidade, os corredores ópticos para onde a gente precisa, para onde tem energia renovável?”, questionou.
Para Martins, a discussão de infraestrutura precisa olhar para o futuro do país e para a capacidade de suportar novas demandas digitais.
Modernização da rede
Martins também afirmou que a infraestrutura construída no país teve grande mérito, mas não necessariamente será suficiente para sustentar as demandas dos próximos anos.
Segundo ele, o cabeamento feito em várias regiões foi, em muitos casos, o que era possível naquele momento. Agora, o desafio é modernizar essa base para atender a uma nova etapa de conectividade, processamento e serviços digitais.
“Nós já fizemos um grande esforço para cabear grande parte do país, mas não é um cabeamento que vai nos levar aonde a gente quer chegar”, afirmou.
Ele comparou a rentabilidade de uma obra de fibra em regiões de alta densidade, como a Faria Lima, com a dificuldade de levar infraestrutura robusta a cidades do interior. Na visão do presidente do IBTD, o poder público tem papel importante em incentivar ou desonerar projetos que o mercado privado, sozinho, não consegue viabilizar.
Edge data centers e descentralização
Outro tema abordado foi a descentralização dos data centers e o papel futuro dos POPs dos provedores.
Martins afirmou que o universo de data centers mudou e não pode mais ser visto apenas como grandes estruturas centralizadas. Para ele, a demanda por inteligência artificial, processamento distribuído e baixa latência deve exigir uma arquitetura mais descentralizada.
A visão do IBTD é que muitos POPs de provedores poderão fazer parte de um ecossistema maior de processamento e resiliência.
“A gente tem uma visão muito clara de que os nossos 30 mil POPs que temos no Brasil hoje dos provedores, em algum momento, vão virar edge data centers”, afirmou.
Segundo Martins, grandes data centers continuarão sendo construídos por grandes empresas especializadas, mas precisarão se conectar a uma malha mais distribuída, com participação de mid players e front players.
Na avaliação dele, os POPs localizados em regiões mais distantes podem se tornar parte de uma arquitetura “neural” para dar conta do volume de dados que virá nos próximos anos.
Redata e novos modelos
Martins também comentou que o Redata traz uma solução importante para data centers, mas pode cobrir apenas uma parte do futuro da infraestrutura digital.
Segundo ele, será necessário avaliar como adequar o regime ou criar novos instrumentos para contemplar um ecossistema mais amplo, incluindo estruturas menores, distribuídas e integradas a redes regionais.
Ele citou também a necessidade de pensar em zonas de atracação de cabos submarinos e reduzir a concentração de infraestrutura em poucos pontos. Ao comentar Fortaleza, por exemplo, afirmou que o país se vangloria por ter vários cabos submarinos chegando à região, mas alertou para a concentração em um trecho pequeno.
“Temos vários cabos chegando em um trecho de 5 km. Nenhum lugar do mundo tem isso”, afirmou.
Para ele, o país possui condições favoráveis, incluindo litoral adequado e proximidade com grandes eixos de energia eólica, mas precisa transformar isso em plano e execução.
Papel de articulação
Ao final da entrevista, Martins afirmou que existe vontade de avançar em diferentes esferas, incluindo Ministério das Comunicações, Frente Parlamentar, Anatel e demais atores do setor.
O desafio, segundo ele, é criar uma interlocução mais organizada entre um mercado fragmentado e o ambiente político.
“O que eu mais ouvi em Brasília foi: eu não aguento mais receber um monte de gente pedindo coisas parecidas, mas diferentes”, afirmou.
Para o presidente do IBTD, o instituto pode atuar como catalisador e agregador das demandas, oferecendo segurança técnica para que parlamentares e tomadores de decisão compreendam melhor as pautas do setor.
A entrevista com André Martins mostra que o IBTD pretende atuar em temas estruturantes, como postes, FUST, corredores ópticos, data centers, soberania digital, espectro, cibersegurança e conectividade social.
O objetivo declarado é dar base técnica às discussões e ajudar a organizar as pautas de telecomunicações e soluções digitais dentro de uma visão mais coordenada para o país.
A entrevista completa com André Martins está disponível no Last Mile Podcast.