SVP da Scala Data Centers falou ao Last Mile sobre Redata, energia, inteligência artificial, competitividade, infraestrutura digital, Edge e os investimentos necessários para o país disputar uma nova onda global de processamento de dados
O avanço da inteligência artificial abriu uma nova disputa global por energia, capacidade computacional e infraestrutura de processamento. Para Luciano Fialho, SVP da Scala Data Centers, o Brasil reúne condições estruturais pouco comuns para ocupar uma posição relevante nesse mercado, mas precisa transformar essas vantagens em competitividade enquanto as grandes decisões de investimento ainda estão sendo tomadas.
Em entrevista ao Last Mile Podcast, Fialho analisou a expansão dos data centers na América Latina, a mudança provocada pela cloud e pela inteligência artificial, os efeitos esperados do Redata, os gargalos do setor elétrico, o papel da conectividade e o potencial econômico de uma indústria que pode movimentar centenas de bilhões de reais no país.
O executivo também apresentou detalhes da estratégia da Scala, do projeto de Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, e da evolução de um mercado em que grandes clientes já demandam prédios e campus inteiros para suportar volumes crescentes de processamento.
Na avaliação de Fialho, a oportunidade brasileira começa por uma característica essencial para essa nova infraestrutura: energia.
“O Brasil tem hoje na mão um ativo que vale ouro para o nosso mercado de data center, para o mercado de processamento do mundo inteiro”, afirmou.
De aquisições à construção de grandes campus
Fialho chegou à Scala em maio de 2020, pouco depois do início das operações da companhia no Brasil. Com formação jurídica e contábil, experiência de mais de 25 anos em fusões e aquisições e MBA pelo MIT, sua missão inicial era conduzir a expansão da empresa por meio da aquisição de ativos na América Latina.
A Scala havia iniciado sua operação a partir da compra de dois data centers da UOL. O plano incluía avaliar oportunidades em mercados como Brasil, Chile, México e Colômbia.
A empresa analisou diferentes ativos disponíveis na região e realizou, em 2021, a aquisição de um data center da Algar em Campinas.
O mercado, porém, estava mudando rapidamente.
A pandemia acelerou streaming, trabalho remoto, serviços digitais e migração para cloud. Ao mesmo tempo, os grandes provedores começaram a demandar capacidades muito superiores às encontradas em boa parte dos data centers existentes na América Latina.
Segundo Fialho, instalações que anteriormente atendiam cargas de poucos megawatts começaram a dar lugar a demandas de 5 MW, 10 MW, 20 MW ou mais.
A Scala então decidiu concentrar sua expansão em projetos greenfield, desenvolvidos desde o início para suportar capacidades maiores.
Desde então, segundo o executivo, a companhia construiu 17 data centers na América Latina e desenvolveu operações e projetos no Brasil, Chile, México e Colômbia.
Em Tamboré, na região metropolitana de São Paulo, a Scala mantém seu principal campus. A empresa também possui presença em Campinas, Rio de Janeiro, Fortaleza e Porto Alegre e desenvolve novas estruturas em outras localidades.
Cloud preparou o mercado. A inteligência artificial aumentou a escala
Antes mesmo da explosão recente da inteligência artificial generativa, o mercado já apresentava uma transformação importante no modelo de contratação dos grandes provedores de cloud.
Um dos fenômenos citados por Fialho é o pre-leasing.
Nesse modelo, hyperscalers reservam capacidade antes mesmo da conclusão da infraestrutura, permitindo que operadores construam data centers a partir de uma demanda futura já contratada.
A necessidade está diretamente relacionada ao prazo necessário para desenvolver esses projetos. Conexão elétrica, obras, equipamentos e sistemas de refrigeração podem exigir anos de planejamento.
A Scala se posicionou nesse mercado oferecendo estruturas de maior capacidade, incluindo prédios single tenant destinados integralmente a um cliente.
De acordo com Fialho, cerca de 97% da receita atual da companhia está relacionada a hyperscalers.
A chegada da inteligência artificial ampliou novamente essa escala.
Treinamento de grandes modelos demanda enormes volumes de processamento e energia. Se a cloud já havia levado clientes de alguns megawatts para dezenas de megawatts, projetos voltados à IA podem exigir centenas de megawatts ou até gigawatts.
Essa mudança também altera o desenho dos data centers.
Instalações menores e mais antigas enfrentam limitações para receber cargas de inteligência artificial, especialmente pela necessidade de maior densidade energética e novos sistemas de refrigeração. Estruturas mais recentes conseguem incorporar adaptações com maior facilidade.
Brasil ainda processa parte relevante de seus dados no exterior
Apesar de possuir mercado consumidor, conectividade e disponibilidade energética, o Brasil ainda utiliza infraestrutura estrangeira para uma parcela relevante dos serviços digitais consumidos internamente.
Segundo Fialho, isso ocorre principalmente por uma questão de competitividade.
O executivo afirmou que determinados chips utilizados para processamento podem enfrentar uma carga tributária que chega a 53% no país. Considerando o projeto como um todo, ele estima que desenvolver um data center no Brasil pode custar entre 20% e 35% mais do que em alguns mercados concorrentes.
Essa diferença ajuda a explicar por que dados gerados no Brasil podem viajar milhares de quilômetros para serem processados nos Estados Unidos e depois retornar ao usuário brasileiro.
Fialho relaciona esse cenário também à autonomia digital.
Na entrevista, contou o caso da escola de um de seus filhos, em São Paulo, que precisou cancelar uma prova após uma indisponibilidade em uma infraestrutura localizada na Virgínia do Norte, nos Estados Unidos.
O exemplo, segundo ele, demonstra como atividades realizadas no Brasil já podem depender diretamente de infraestrutura computacional instalada em outro país.
A discussão ganha outra dimensão quando envolve informações financeiras, governamentais, empresariais ou de saúde.
Redata é primeiro avanço, mas não resolve sozinho
Um dos principais temas da entrevista foi o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata.
Para Fialho, a iniciativa possui importância que vai além da redução tributária. Ele considera o regime a primeira política pública brasileira direcionada especificamente ao desenvolvimento do mercado de processamento de dados.
O Redata cria benefícios fiscais relacionados a tributos federais incidentes sobre equipamentos utilizados pelo setor.
Na avaliação do executivo, a medida envia uma mensagem ao mercado internacional de que o Brasil pretende competir pela instalação dessa infraestrutura.
Mas essa é somente uma parte do problema.
O ICMS ainda representa uma parcela relevante da carga tributária. Por isso, Fialho considera fundamental uma coordenação entre os estados no Confaz para reduzir o imposto incidente sobre equipamentos que o país não produz em escala suficiente para atender à nova demanda.
Para ele, impedir a redução tributária com o objetivo de proteger fabricantes brasileiros pode produzir o efeito contrário.
Se um projeto deixa de ser competitivo no Brasil, a alternativa de um hyperscaler não é necessariamente comprar um equipamento nacional. A empresa pode simplesmente instalar o data center em outro país.
Nesse caso, toda a cadeia brasileira perde a demanda.
Com a expansão do mercado, Fialho acredita que fabricantes nacionais de transformadores, equipamentos eletromecânicos e diversos outros componentes também seriam beneficiados pelo aumento dos investimentos.
Energia virou o principal fator de localização
Outra transformação apontada pelo executivo está nos critérios utilizados para escolher onde instalar um grande data center.
Historicamente, conectividade tinha papel central nessa decisão. Estar próximo de grandes rotas de fibra e pontos de concentração de tráfego era determinante.
Com a inteligência artificial e o crescimento das cargas computacionais, a disponibilidade de energia ganhou prioridade.
“Sem energia eu nem começo. A conectividade eu consigo resolver”, explicou.
Isso não reduz a importância das redes de telecomunicações. Fibra terrestre, cabos submarinos e interconexões continuam fundamentais e podem determinar o tamanho e as aplicações possíveis em determinado projeto.
A diferença está na sequência.
Grandes blocos de energia disponível em uma infraestrutura elétrica resiliente são cada vez mais difíceis de encontrar em mercados maduros.
Nesse ponto, Fialho enxerga uma vantagem brasileira.
O país possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, diversidade de geração e um Sistema Interligado Nacional capaz de transportar energia entre diferentes regiões.
Ele compara essa estrutura com mercados como Estados Unidos e Europa, onde existem dificuldades adicionais de interconexão, disponibilidade e geração.
O desafio está também no tempo para conectar novos projetos
Ter energia no país, entretanto, não significa conseguir entregá-la rapidamente a qualquer projeto.
Segundo Fialho, clientes globais podem demandar uma nova capacidade em um prazo de 12 a 18 meses. Caso seja necessário construir reforços significativos na rede elétrica brasileira, alguns processos podem exigir entre cinco e sete anos.
Essa diferença entre o prazo do cliente e o prazo da infraestrutura é um dos principais desafios para a próxima etapa da expansão.
Na avaliação do executivo, o setor privado realizou boa parte dos investimentos que estavam ao seu alcance. A partir da nova escala exigida pela inteligência artificial, políticas públicas serão necessárias para coordenar energia, tributação, dados, inteligência artificial e conectividade.
A infraestrutura digital, segundo ele, deveria ser tratada como um vetor econômico específico, assim como outras grandes áreas de infraestrutura nacional.
Data centers podem mobilizar investimentos de outra escala
O tamanho financeiro dessa oportunidade foi outro ponto destacado na entrevista.
Segundo Fialho, um data center de 100 MW pode envolver aproximadamente R$ 25 bilhões considerando a infraestrutura e os equipamentos necessários para processamento.
Em projetos na escala de 1 GW, os valores podem chegar a centenas de bilhões de reais.
Ele defende que o impacto econômico não seja medido somente pela quantidade de profissionais empregados diretamente dentro do data center após sua conclusão.
A infraestrutura envolve construção civil, engenharia, subestações, transformadores, geradores, sistemas de refrigeração, automação, fibra óptica, manutenção e uma extensa rede de fornecedores.
Para explicar essa dinâmica, Fialho compara o data center a uma rodovia.
A estrada não é avaliada exclusivamente pelo número de pessoas que trabalham nela depois de pronta. Seu impacto está também nas atividades econômicas que consegue viabilizar.
Na visão do executivo, uma infraestrutura digital robusta exerce papel semelhante ao permitir novos serviços financeiros, aplicações de inteligência artificial, automação industrial, inovação no agronegócio e outras atividades dependentes de processamento e baixa latência.
Estudo da FGV analisa o potencial brasileiro
Para dimensionar esses efeitos, a Scala encomendou à Fundação Getulio Vargas um estudo sobre os impactos socioeconômicos de o Brasil se tornar um hub de processamento de dados na era da inteligência artificial.
Segundo Fialho, o trabalho possui cerca de 480 páginas e analisou referências internacionais em diferentes regiões.
Entre os mercados estudados estão Virgínia do Norte, Canadá, Portugal, Frankfurt, Amsterdam, Paris, Dublin, Emirados Árabes Unidos, Singapura e Japão.
A análise buscou identificar quais condições permitiram o desenvolvimento desses polos e comparar os resultados com a realidade brasileira.
O estudo avalia temas como sistema elétrico, conectividade, cadeia produtiva, cabos submarinos, infraestrutura terrestre, geração de empregos, impacto sobre o PIB e renda.
A conclusão apresentada por Fialho reforça a necessidade de uma política transversal para infraestrutura digital.
Água e sustentabilidade também entram no debate
O crescimento dos data centers tem provocado discussões internacionais sobre consumo de água e energia.
Fialho afirma que parte da percepção relacionada ao uso intensivo de água está associada a tecnologias utilizadas por data centers mais antigos.
Nos novos projetos da Scala, segundo ele, são utilizados sistemas de circuito fechado, nos quais a água circula internamente sem a necessidade de reposição contínua.
Para cargas de inteligência artificial, tecnologias como liquid cooling também modificam a forma de refrigeração dos equipamentos.
Fialho afirmou que os novos data centers da Scala apresentam indicador WUE, Water Usage Effectiveness, próximo de zero.
A companhia também utiliza energia renovável e participa de projetos de autoprodução de energia eólica no Nordeste.
Segundo o executivo, essas características não surgem somente de exigências regulatórias. Os próprios grandes clientes globais já incluem metas ambientais entre os critérios utilizados na contratação de infraestrutura.
Provedores regionais terão espaço na expansão do Edge
A entrevista também avançou sobre o futuro dos data centers distribuídos e a relação com os provedores regionais de internet.
Fialho considera que o mercado deverá avançar por diferentes ondas.
O primeiro desafio brasileiro é ampliar o processamento de cloud e inteligência artificial em grandes infraestruturas. Aplicações que exigem latência muito baixa deverão estimular posteriormente uma distribuição maior da capacidade computacional.
Nesse ambiente, data centers Edge podem ser instalados mais próximos dos usuários, das redes móveis, das empresas e dos grandes centros urbanos.
Para Fialho, os provedores regionais brasileiros podem desempenhar papel relevante nessa etapa.
A capilaridade das redes construídas pelos ISPs cria uma infraestrutura que poderá ser aproveitada quando determinadas aplicações precisarem combinar conectividade e processamento na ponta.
O executivo também defende uma visão integrada entre diferentes elementos do setor.
Data centers, cabos submarinos, fibra terrestre, torres e energia formam partes complementares da infraestrutura necessária para sustentar a economia digital.
Eldorado do Sul representa a nova escala da inteligência artificial
Um exemplo da dimensão dos novos projetos está em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul.
Fialho contou que a Scala realizou um mapeamento nacional em busca de regiões com grandes blocos de energia disponíveis no sistema elétrico.
A empresa identificou aproximadamente 5 GW de disponibilidade na região atendida pela subestação Guaíba 3, infraestrutura originalmente planejada para atender um projeto industrial que não foi instalado no estado.
No início de 2025, segundo o executivo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico validou os estudos apresentados pela companhia.
A primeira etapa do projeto deverá receber investimentos de aproximadamente R$ 3 bilhões, mas a área possui capacidade para crescer substancialmente conforme novas demandas sejam contratadas.
Além da energia, outros fatores pesaram na escolha.
A região está próxima de Porto Alegre, possui acesso rodoviário, aeroporto internacional, universidades, clima mais frio e novas alternativas de conectividade.
O projeto também poderá se beneficiar da expansão de cabos internacionais e de novas rotas de fibra. A Eletronet foi citada por Fialho como a primeira conexão prevista para o campus.
A proposta é utilizar a estrutura principalmente para grandes cargas relacionadas à inteligência artificial, incluindo treinamento de modelos para clientes brasileiros e estrangeiros.
Os grandes hubs estão sendo definidos agora
Para Fialho, existe uma questão de tempo por trás de toda essa discussão.
A demanda global por inteligência artificial está crescendo e empresas estão escolhendo agora os locais onde concentrarão seus próximos grandes investimentos.
Depois que bilhões são aplicados em energia, prédios, equipamentos, conectividade e mão de obra, a tendência é que esses polos continuem recebendo novas expansões.
Por isso, os próximos anos serão importantes para determinar se o Brasil conseguirá entrar nesse mapa.
O país já possui boa parte dos ativos necessários: energia, mercado consumidor, conectividade, cabos internacionais e território.
A discussão agora está concentrada na capacidade de transformar essas vantagens em um ambiente competitivo e previsível para investimentos de longo prazo.
Na avaliação de Fialho, a escolha terá efeitos muito além do mercado de data centers.
“O ponto é como o Brasil vai crescer. Ele vai crescer sendo um consumidor ou vai crescer sendo um produtor de infraestrutura digital?”, resumiu.
A resposta ajudará a definir se o país continuará enviando parte crescente de sua demanda digital para processamento no exterior ou se conseguirá transformar energia, conectividade e infraestrutura em uma nova indústria de processamento e exportação de serviços digitais.