Not Journal aposta em IA, curadoria humana e novas verticais para construir a mídia do futuro

Em entrevista ao Last Mile Tech & Business, Marlon Ceni detalha o crescimento da Not Journal, o uso de inteligência artificial na operação, a estratégia de expansão da marca e sua visão sobre o futuro da mídia digital

A transformação da mídia passa menos pela substituição das pessoas por tecnologia e mais pela capacidade de combinar velocidade, dados, distribuição e julgamento humano. Essa é uma das principais leituras de Marlon Ceni, fundador do Grupo CPR e ligado à criação da Not Journal, em entrevista a Mateus Gomes no Last Mile Tech & Business.

A conversa percorreu a origem da Not Journal, o crescimento acelerado da audiência, o uso de inteligência artificial para identificar assuntos relevantes, a importância das headlines, o avanço das plataformas digitais e os próximos passos de uma operação que pretende ampliar sua atuação para novas verticais, audiovisual e eventos.

Fundada em julho de 2024, a Not Journal se apresenta hoje como uma plataforma independente de jornalismo voltada a negócios, tecnologia, geopolítica e cultura contemporânea. A própria publicação informa que já supera 50 milhões de visualizações mensais no Instagram e mantém uma audiência formada principalmente por executivos, investidores, empreendedores e profissionais do mercado financeiro.

Da ideia inicial à criação da Not Journal

Marlon Ceni é fundador do Grupo CPR, holding que reúne negócios em diferentes áreas. Segundo o próprio grupo, sua atuação inclui construção, tecnologia, educação, gestão pública, mercado de capitais e energia, com participação em empresas como Analytica Ensino e Not Journal.

Durante o episódio, Ceni contou que a origem da Not Journal está ligada justamente a esse ecossistema. O projeto surgiu a partir de uma ideia dentro da Analytica Ensino, empresa de educação baseada em tecnologia. Inicialmente, a operação utilizava outro nome, The Horizon. Após uma reorganização societária, surgiu a Not Journal.

A Analytica Ensino é uma plataforma educacional que utiliza dados e tecnologia para acompanhar desempenho e personalizar a jornada de aprendizagem. Hoje, a empresa informa alcançar mais de 1,3 milhão de alunos.

Na Not Journal, a condução editorial ganhou papel central com Bruno Richards. Atualmente, ele é apresentado pela própria publicação como editor-chefe, responsável pela seleção, revisão e aprovação dos conteúdos.

Crescimento apoiado em produto e distribuição

Um dos pontos centrais da conversa foi a velocidade com que a Not Journal construiu audiência.

No episódio, Mateus Gomes cita um crescimento que partiu de poucos milhares de seguidores para a casa das centenas de milhares em aproximadamente um ano. Ceni atribui boa parte desse avanço à combinação entre qualidade de conteúdo, capacidade de distribuição e compartilhamento orgânico.

Segundo ele, no início, boa parte do público sequer conhecia as pessoas por trás da marca. O conteúdo começou a circular porque empresários, executivos e outros usuários passaram a compartilhar espontaneamente as publicações.

Outro elemento citado como decisivo foi a escolha das headlines.

Para Ceni, identificar uma boa notícia é apenas parte do trabalho. A forma como o conteúdo é apresentado tem impacto direto sobre sua capacidade de alcançar audiência. Ele destaca o trabalho de Bruno Richards e da equipe editorial na construção de títulos capazes de traduzir um assunto de forma simples e atrativa.

Inteligência artificial para encontrar sinais antes do mercado

A inteligência artificial entrou justamente nessa etapa de ganho de eficiência.

Ceni explicou que a Not Journal desenvolveu mecanismos capazes de percorrer diferentes fontes e identificar palavras-chave, assuntos e sinais de crescimento de determinados temas na internet.

A tecnologia organiza esse volume de informação e direciona possíveis pautas para a equipe.

O processo, porém, não elimina a decisão humana.

A partir das informações encontradas pela IA, os editores analisam o que realmente possui relevância, o que está alinhado à linha editorial e qual abordagem pode funcionar melhor com a audiência.

“A gente cruza muito o humano com a máquina”, resumiu Ceni durante a conversa.

Na prática, a IA reduz o tempo necessário para identificar assuntos relevantes. Já a equipe continua responsável pelo julgamento editorial, pelas headlines e pela decisão final sobre aquilo que ganha espaço nas redes sociais.

É uma estrutura diferente da ideia de uma redação completamente automatizada.

IA como ferramenta para potencializar pessoas

Essa lógica também orienta a visão de Ceni sobre inteligência artificial dentro das empresas.

Durante o episódio, ele definiu a tecnologia como uma transformação comparável à chegada da própria internet e afirmou que empresas que não incorporarem essas ferramentas aos seus processos poderão perder eficiência.

A aplicação, segundo ele, não precisa começar com projetos complexos.

Análise de dados, automação de processos, organização de informações e apoio à tomada de decisão já podem modificar a produtividade das equipes.

Na avaliação de Ceni, a IA deve ser encarada como instrumento para potencializar o trabalho humano.

Ele exemplifica que uma estrutura pode executar determinadas atividades com menos pessoas após automatizar processos, mas também pode crescer mais rapidamente e abrir novas frentes que demandem novos profissionais.

Nem tudo é automatizado

A entrevista também mostrou os limites dessa automação.

Segundo Ceni, determinados conteúdos enviados pelo WhatsApp podem utilizar processos automáticos, enquanto as publicações destinadas às redes sociais passam por validação humana.

Bruno Richards continua diretamente envolvido nesse processo editorial, acompanhado de uma equipe maior.

Isso também funciona como proteção contra um dos problemas das ferramentas automatizadas: a qualidade das fontes.

Ceni relata casos em que sistemas podem identificar como notícia um conteúdo publicado por páginas criadas para gerar cliques ou direcionar usuários para sites de apostas e outros ambientes pouco confiáveis.

Quanto maior a automação, portanto, maior também a importância dos filtros.

Uma estratégia editorial distante da lógica da tragédia

Outro ponto que diferencia a estratégia da Not Journal é a escolha dos assuntos.

Ceni afirma que a empresa evita construir sua audiência em torno de tragédias, mortes e conteúdos negativos apenas por seu potencial de viralização.

O foco está principalmente em mercado, negócios e assuntos que possam acrescentar informação ao leitor.

A própria Not Journal afirma atualmente que sua linha editorial prioriza fatos, relevância e precisão, sem alinhamento ideológico ou partidário.

Essa posição também apareceu na conversa sobre política e as eleições de 2026.

Ceni defendeu que o papel do veículo deve ser apresentar propostas, históricos e informações relacionadas aos candidatos sem orientar deliberadamente a audiência para um dos lados da disputa.

A expansão para novas verticais

A Not Journal também está utilizando sua audiência principal para desenvolver outros produtos editoriais.

Um dos exemplos apresentados foi a Not Sports.

Segundo Ceni, a operação começou a ser preparada meses antes de uma Copa do Mundo e foi gradualmente alimentada até a chegada da competição. Durante o período, o canal teria crescido de aproximadamente 6 mil para algo entre 50 mil e 60 mil seguidores.

Outra iniciativa citada foi a The Health Brief, dedicada ao segmento de saúde.

A estratégia é utilizar a força da marca principal para desenvolver canais especializados e construir uma estrutura maior de mídia.

Ceni descreve esse movimento como parte de uma visão mais ampla para a Not Media, reunindo diferentes produtos e audiências sob um mesmo ecossistema.

A audiência saiu da televisão e ganhou novas telas

Para Ceni, entender a migração da atenção é fundamental para qualquer empresa de mídia.

A televisão ainda terá espaço, assim como conteúdos longos, filmes e cinema. O que muda é a fragmentação do consumo.

O mesmo usuário pode assistir a um conteúdo longo na televisão e consumir dezenas de vídeos curtos no celular ao longo do dia.

Plataformas digitais, streamings, redes sociais e YouTube disputam uma parcela cada vez maior dessa atenção.

A consequência é que empresas de mídia precisam pensar menos em um único canal e mais em diferentes formatos de distribuição.

A Not Journal já trabalha com redes sociais, newsletter, WhatsApp e plataforma própria e, segundo Ceni, pretende ampliar sua atuação também no audiovisual, incluindo YouTube e podcasts.

Informação, dados e personalização

Outro passo discutido na entrevista é a utilização de dados para aumentar a qualidade da relação entre audiência e anunciantes.

A ideia apresentada por Ceni é entender melhor o perfil e os interesses dos usuários para que campanhas publicitárias possam chegar a públicos mais aderentes.

Isso aproxima o modelo de mídia de uma lógica já consolidada nas grandes plataformas digitais: utilizar informação sobre o comportamento da audiência para aumentar a precisão da distribuição.

Na visão apresentada no episódio, inteligência artificial e cruzamento de dados terão participação importante nesse processo.

Uma plataforma também voltada ao mercado financeiro

A Not Journal também desenvolveu produtos além da publicação tradicional de notícias.

Durante a conversa, Ceni apresentou uma plataforma voltada à organização de informações relevantes para investidores e profissionais do mercado financeiro.

O objetivo é reunir notícias, dados corporativos e diferentes sinais relacionados às empresas acompanhadas pelo usuário em um único ambiente.

Ceni compara a experiência a uma espécie de painel de inteligência, no qual a tecnologia organiza informações que podem ajudar o investidor a formar sua própria leitura.

A decisão de investimento continua sendo do usuário.

A própria Not Journal informa atualmente que oferece um terminal acessível via web e WhatsApp como parte de seus produtos de assinatura.

Assinatura, publicidade e eventos

A monetização também ganhou espaço na entrevista.

Ceni apontou três grandes frentes para a operação: assinatura, mídia paga e eventos.

A assinatura está ligada aos produtos próprios e à distribuição de informação. A publicidade conecta marcas à audiência. Já os eventos representam uma nova etapa de aproximação presencial com a comunidade construída no digital.

Entre os projetos citados está o Not Talks.

A proposta apresentada durante o episódio é realizar um evento de grande porte após as eleições de 2026 para discutir as perspectivas econômicas e empresariais do Brasil em 2027.

Ceni mencionou a intenção de reunir mais de mil pessoas, com participação de economistas, empresários e grandes executivos.

Uma empresa de mídia também precisa virar marca

A expansão para eventos está relacionada a outro conceito defendido por Ceni: uma empresa de mídia digital precisa criar proximidade com sua audiência.

Ele cita experiências presenciais, ativações em eventos e produtos físicos como maneiras de fortalecer essa relação.

A ambição é transformar a Not Journal em uma marca que as pessoas desejem consumir e também representar.

Ceni utiliza um exemplo simples: enquanto é raro encontrar alguém usando espontaneamente uma peça de roupa de um veículo tradicional de notícias, ele acredita que uma edição limitada de produtos da Not Journal poderia gerar interesse entre os próprios seguidores.

A mídia, nessa visão, se aproxima também da lógica de comunidade e lifestyle.

Toda empresa precisa virar mídia?

Apesar de trabalhar diretamente com comunicação, Ceni não acredita que toda companhia precise criar sua própria operação de conteúdo.

Segundo ele, essa decisão precisa fazer sentido para o negócio e para o público.

Uma incorporadora, por exemplo, pode obter mais resultado aparecendo no veículo certo do que tentando transformar sua própria estrutura em uma empresa de mídia.

A lógica é estar onde o cliente está.

A resposta muda quando o assunto é posicionamento dos executivos.

Ceni defende uma presença mais ativa dos CEOs no ambiente digital, principalmente quando a exposição do líder ajuda a aumentar a confiança, o reconhecimento e a visibilidade da organização.

Ainda assim, reforça que o formato precisa respeitar o perfil do executivo e as características de cada mercado.

A nova mídia ainda está sendo construída

Quando questionado sobre onde a Not Journal poderá estar em cinco anos, Ceni evita cravar um formato definitivo.

Ele cita referências como MrBeast e CazéTV para mostrar como novas organizações de mídia conseguiram construir audiência a partir de modelos muito diferentes daqueles utilizados pelos grupos tradicionais.

A pergunta para a Not Journal agora é como transportar sua audiência para diferentes telas, produtos e experiências sem perder a identidade construída até aqui.

O crescimento também já chamou atenção de empresas interessadas em operações ou participações relacionadas ao negócio, segundo Ceni. Ele evitou entrar em detalhes por questões de confidencialidade.

Um dos símbolos dessa evolução apareceu em um evento citado durante o episódio, quando a Not Journal esteve posicionada próxima à Exame, publicação consolidada no mercado brasileiro.

Para Ceni, ver uma marca ainda jovem ocupando o mesmo ambiente de veículos tradicionais reforçou a percepção de que existe espaço para uma nova geração de empresas de mídia.

O episódio completo do Last Mile Tech & Business, apresentado por Mateus Gomes, aprofunda a conversa com Marlon Ceni sobre inteligência artificial, mídia, crescimento digital, novos modelos de receita e as mudanças no comportamento das audiências.

A entrevista está disponível no canal do Last Mile no YouTube.

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