Por Matheus Cofferri – Last Mile
Sempre que satélite entra na conversa dentro de telecom, ele aparecia como solução de borda. Cobertura em área remota, conectividade em regiões onde a conta da torre não fecha, suporte a operações específicas como marítimo, agronegócio ou emergência. Era um elemento importante, mas claramente periférico dentro da arquitetura das redes.
O que começou a mudar agora é a forma como essa camada passa a se encaixar na lógica da rede.
Calma eu não to emocionado.

O satélite de reconhecimento KH-7 Gambit 1, lançado na década de 1960, operava em órbita terrestre muito baixa para capturar imagens de alta resolução décadas antes de a órbita terrestre muito baixa se tornar comercialmente viável, demonstrando que missões em baixa altitude eram tecnicamente viáveis muito antes da propulsão moderna e da economia das constelações.
Com a evolução dos padrões 3GPP e a integração das chamadas redes não terrestres, o satélite começa a operar dentro da mesma lógica da rede celular. Em termos simples, o que antes era uma solução isolada passa a se comportar como mais uma camada de acesso. Para o core da rede, pouco importa se o sinal veio de uma antena em solo ou de um nó em órbita. A estrutura passa a ser reconhecida dentro da mesma arquitetura.

A camada VLEO, localizada entre aproximadamente 180 e 450 km abaixo da LEO tradicional, permite orçamentos de enlace mais robustos e menor latência, ao custo de maior arrasto atmosférico e requisitos de propulsão contínua.
Isso não significa que satélite vai substituir redes terrestres. Especialmente em áreas urbanas densas, onde a demanda por capacidade é extremamente alta, a física continua impondo limites claros. A densidade de tráfego em bairros centrais, prédios corporativos, eventos e grandes centros logísticos ainda exige uma infraestrutura terrestre robusta, com fibra, small cells, Wi-Fi e uma série de soluções complementares.
O ambiente indoor, inclusive, continua sendo um ponto crítico. A propagação de sinal a partir da órbita enfrenta limitações físicas relevantes ao atravessar concreto, vidro e estruturas metálicas. Na prática, isso mantém o papel das redes internas muito forte, seja via Wi-Fi, seja via soluções dedicadas de cobertura indoor. Esse é um território onde a rede terrestre segue sendo protagonista e, ao que tudo indica, continuará sendo por bastante tempo.
Mas o fato de o indoor ainda ser uma barreira não elimina a necessidade de olhar com atenção para o que está acontecendo fora dele.

Arquitetura Starlink Direct to Cell. Cada satélite opera como um eNodeB espacial compatível com os padrões 3GPP, conectando smartphones comuns à rede orbital por meio de operadoras parceiras e gateways terrestres. O conceito transforma um satélite em uma torre de celular móvel a 550 quilômetros acima da Terra.

MWC 2026: A Starlink Mobile revela sua primeira presença global. 32 países, 35 parcerias com operadoras e alcance potencial de 1,7 bilhão de pessoas em 30 milhões de quilômetros quadrados. A camada de satélite da rede móvel deixou de ser teórica.
O que está em curso é uma mudança na camada macro da rede. Constelações em órbita baixa, com milhares de satélites, começam a criar uma cobertura contínua sobre grandes áreas geográficas sem a necessidade de infraestrutura física local. Rodovias, áreas rurais, regiões de baixa densidade e até parte da mobilidade passam a ter uma alternativa que, do ponto de vista técnico, deixa de ser improvisada e passa a ser integrada.
Do lado das operadoras, isso aparece inicialmente como uma boa notícia. Em regiões onde a construção de uma macro estação não se paga, o satélite surge como uma forma eficiente de ampliar cobertura sem carregar CAPEX e OPEX elevados. É uma solução prática para um problema real, especialmente em países com dimensões continentais como o Brasil.
O ponto que merece reflexão não está nesse uso imediato, que faz sentido. Está no efeito acumulado dessa decisão ao longo do tempo.

Ponto de observação: A Janela de Execução da Starship em Meados de 2027. Toda a arquitetura do Starlink Mobile V2, as velocidades de 150 Mb/s, o aumento de 20 vezes na capacidade e a formação de feixe de 20×20 MHz dependem da capacidade de lançamento de grande porte da Starship. O objetivo declarado da SpaceX é lançar 1.200 satélites V2 de grande porte em um período comprimido de seis meses, a partir de meados de 2027. Observe o ritmo de lançamentos da Starship. Se eles cumprirem esse cronograma, a janela para as operadoras de telecomunicações tradicionais garantirem SLAs corporativos de longo prazo e fortalecerem suas vantagens competitivas urbanas se fechará permanentemente.
Quando uma nova camada de rede começa atendendo as extremidades, mas ganha escala, padronização e integração com o restante da arquitetura, ela tende a ocupar espaços maiores dentro da cadeia de valor. Não por substituição direta, mas por redistribuição de funções. Parte do que hoje é atendido por infraestrutura terrestre pode, gradualmente, migrar para essa nova camada quando fizer sentido econômico e operacional.
Ao mesmo tempo, existe um outro movimento acontecendo em paralelo que reforça essa discussão. A conectividade dentro dos ambientes internos vem sendo cada vez mais absorvida por redes Wi-Fi de alta capacidade, integradas a diferentes tipos de acesso, incluindo banda larga fixa via satélite. Em muitas casas e empresas, a experiência do usuário já é majoritariamente definida por essa camada interna, e não pela rede móvel externa.

A Skylo demonstra um caminho diferente para a integração de satélites. Em vez de construir sua própria constelação, ela opera uma plataforma NTN baseada em padrões que conecta satélites existentes às redes centrais de operadoras móveis por meio de interfaces de telecomunicações padrão. Para a rede central, o enlace via satélite aparece como mais uma rede de acesso em roaming, transformando o espaço em uma extensão da RAN celular, em vez de um sistema de comunicação separado.
Isso cria uma dinâmica interessante. O usuário passa boa parte do tempo conectado em redes internas e, ao se deslocar, pode ter cada vez mais opções de acesso fora delas. Nesse cenário, a decisão sobre qual rede utilizar deixa de ser exclusiva da operadora e passa a envolver também dispositivos, sistemas operacionais e arquiteturas de conectividade mais amplas.
Nada disso aponta para um cenário simples ou linear. As redes terrestres continuam sendo fundamentais, especialmente onde existe alta concentração de tráfego e necessidade de baixa latência. Aplicações críticas, redes privativas, ambientes industriais, serviços corporativos e uma série de casos de uso dependem de uma infraestrutura local bem construída e bem operada.

Os smartphones com capacidade para comunicação via satélite estão se popularizando rapidamente. A base instalada cresceu de aproximadamente 40 milhões de dispositivos em 2022 para mais de 400 milhões em meados de 2025. Assim que o suporte à NTN for incorporado aos principais chipsets, o espaço deixará de ser uma camada de conectividade de nicho e se tornará mais uma camada de acesso de rádio da rede móvel.

A previsão de receita para 2030 de serviços de satélite de entrega direta ao dispositivo mostra que o segmento de dados de baixo consumo representa o maior volume, enquanto categorias de margem mais alta, como voz garantida, IoT com SLA, infraestrutura crítica, conectividade marítima, aeronáutica, industrial e automotiva, ampliam as possibilidades de monetização.
Mas também é difícil ignorar que a lógica tradicional baseada em cobertura geográfica como principal diferencial começa a perder força quando novas camadas passam a oferecer alternativas viáveis para parte desse problema.
Talvez o ponto mais relevante aqui não seja discutir quem “ganha” essa disputa, mas entender como o papel de cada camada tende a evoluir.
A rede terrestre não deixa de ser importante, mas pode se tornar mais concentrada em capacidade e densidade. O satélite não substitui a infraestrutura existente, mas amplia o alcance e redefine algumas fronteiras. O Wi-Fi continua sendo peça central na experiência indoor. E os dispositivos passam a ter um papel cada vez mais ativo na escolha de como e por onde o tráfego será roteado.
Para um setor que historicamente construiu valor a partir da combinação entre infraestrutura física, espectro e presença geográfica, essa mudança exige uma leitura mais cuidadosa. Não no sentido de reação imediata, mas de entendimento estratégico.
O satélite começa a fazer parte do desenho estrutural da rede.

Starlink cresce 85% em 2025 somente no Brasil!
E talvez a principal provocação seja justamente essa:
se a arquitetura está mudando, onde, de fato, está o valor que cada operador consegue proteger e desenvolver nos próximos anos?
Essa não é uma resposta pronta. Mas é uma pergunta que vale começar a fazer agora.
Alguns dados abaixo pra você pensar!

A perda de propagação no espaço livre aumenta com a altitude orbital. A transição da órbita terrestre baixa (VLEO, em torno de 400 km) para uma órbita terrestre baixa (LEO) acima de 1000 km adiciona mais de 15 a 20 dB de perda, impactando diretamente o orçamento de enlace, os requisitos de potência de transmissão do aparelho e a taxa de transferência alcançável.

A vida útil orbital aumenta exponencialmente com a altitude. Abaixo de aproximadamente 300 a 400 km, o arrasto atmosférico limita a vida útil passiva a meses ou menos, enquanto acima de 600 a 800 km os satélites podem persistir por muitos anos sem propulsão. Essa curva acentuada explica por que as operações em órbita muito baixa da Terra (VLEO) exigem compensação contínua do arrasto e por que pequenas diferenças de altitude alteram significativamente a economia de reposição da frota.

A SpaceX é a empresa espacial mais bem-sucedida de todos os tempos. Ao desenvolver lançadores reutilizáveis confiáveis, a empresa reduziu drasticamente o custo de envio de cargas úteis para a órbita da Terra. Os custos caíram 95%, de US$ 15.600/kg para menos de US$ 1.000/kg nos 17 anos desde 2008.

As sessões em ambientes internos dominam o uso de dispositivos móveis em todas as principais cidades, com a maioria dos mercados registrando mais de 70% do tráfego originado em ambientes internos.
