Por Alexandre Alves – CEO da TIP BRASIL
Vivemos um momento em que tudo parece dividido. Opiniões, visões de mundo, formas de pensar e, inevitavelmente, também a maneira como conduzimos nossos negócios. Essa polarização não está só no ambiente externo. Ela entra nas empresas, molda culturas e influencia decisões no dia a dia.
Depois de quase quatro décadas no ambiente corporativo, tive a oportunidade de ver diferentes fases do mercado e, principalmente, diferentes tipos de liderança e construção de empresas. Vi gente começar com valores sólidos e, ao longo do tempo, se perder em culturas que priorizavam resultado a qualquer custo. Também vi organizações crescerem sustentadas por relações consistentes, com uma lógica mais equilibrada de construção de valor.
Isso sempre me levou a refletir sobre o tipo de empresa que vale a pena construir e sobre o tipo de ambiente que faz sentido fazer parte.
Observando a natureza, essa reflexão ficou mais clara para mim. Existe uma lógica simples, quase óbvia, que se repete em diferentes espécies: semelhantes se agrupam. Pássaros voam em bandos com outros da mesma espécie. Peixes nadam com seus pares. Existe um senso de pertencimento, de comportamento compartilhado e de sobrevivência coletiva.
No mundo corporativo, isso também acontece, ainda que de forma menos explícita. As empresas acabam atraindo, formando e mantendo pessoas que compartilham da mesma visão de mundo, dos mesmos valores e da mesma forma de agir.
A questão é que tipo de empresa estamos construindo? E com quem estamos voando?
Dentro dessa analogia, é comum ver dois perfis muito claros. De um lado, organizações que operam como predadores, sempre buscando vantagem imediata, muitas vezes explorando relações e priorizando ganhos de curto prazo. Do outro, empresas que vivem de replicar modelos, sem muita construção própria, olhando mais para o que já existe do que para o que pode ser criado.
Mas existe uma terceira forma, que ao longo do tempo fez mais sentido para mim.
Quando penso em adaptação, colaboração, resiliência e consistência, a imagem que me vem é a dos pardais. Eles estão em todos os lugares, operam em grupo, se organizam de forma eficiente e seguem evoluindo sem depender de grandes estruturas ou de movimentos isolados. Existe uma inteligência coletiva ali, uma capacidade de se ajustar ao ambiente e de prosperar mesmo em cenários adversos.
O que mais chama atenção não é força individual ou protagonismo exagerado. É a dinâmica do grupo. É a forma como se organizam, como se mantêm ativos e como seguem avançando de maneira coordenada.
No ambiente de negócios, isso se traduz em empresas que constroem relações sólidas, que operam com transparência e que entendem que crescimento sustentável vem de consistência ao longo do tempo. Não existe necessidade de adotar uma postura agressiva para competir. Existe espaço para construir de forma equilibrada, respeitando clientes, parceiros e o próprio mercado.
Durante muito tempo, foi comum ouvir que, para ter sucesso, era preciso “levar vantagem”. Essa lógica fez parte de uma geração inteira de negócios. Mas o mercado mudou. Hoje, relações baseadas apenas em ganho imediato tendem a se esgotar rápido. Confiança, previsibilidade e coerência passaram a ter um peso muito maior.
Empresas que conseguem alinhar discurso e prática constroem algo mais sólido. Não por obrigação regulatória ou por pressão externa, mas porque existe uma convicção interna sobre como fazer as coisas.
No fim, a escolha é mais simples do que parece.
Toda empresa constrói sua cultura, de forma consciente ou não. E essa cultura define com quem ela se conecta, como ela cresce e até onde ela consegue chegar.
A decisão está em qual lógica seguir.
Construir relações de curto prazo, baseadas em vantagem imediata, ou desenvolver um ambiente onde as pessoas crescem juntas, com consistência e visão de longo prazo.
Ao longo da minha trajetória, ficou claro qual caminho faz mais sentido.
No mundo corporativo, prefiro voar em bando.
E, se for para escolher, que seja com bons pardais.
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