Especialista falou ao Last Mile sobre geopolítica, segurança da infraestrutura crítica, Refibra, Edge Computing, manutenção de cabos, expansão dos data centers e os desafios para aumentar a resiliência das redes brasileiras
No fundo dos oceanos existe uma infraestrutura que raramente aparece para o usuário final, mas participa diretamente do funcionamento da economia digital. Cabos submarinos conectam continentes, transportam grandes volumes de dados e ganharam importância adicional em um ambiente marcado pela expansão dos data centers, crescimento da inteligência artificial e aumento das tensões geopolíticas.
Para Rogério Mariano, especialista com mais de 30 anos de atuação no setor de telecomunicações, a discussão brasileira precisa avançar além da quantidade de cabos que chegam ao país. Resiliência, manutenção, novas rotas terrestres, segurança jurídica e capacidade de distribuir o tráfego pelo território são partes da mesma equação.
Head Global da Azion e coordenador de Infraestrutura Crítica e Soberania Digital do IBTD, Mariano participou do Last Mile Podcast para uma conversa que percorreu desde Edge Computing e redes ópticas de longa distância até segurança marítima, rompimentos de cabos, sensoriamento por fibra óptica e a crescente influência da geopolítica sobre o desenho da internet mundial.
Uma das principais mensagens do especialista é que o Brasil já possui uma infraestrutura relevante de conectividade internacional, mas precisa desenvolver com maior velocidade aquilo que acontece depois que essa capacidade chega ao território nacional.
Uma carreira construída entre redes críticas, petróleo e cabos submarinos
A entrada de Rogério Mariano no setor aconteceu quase por acaso.
Natural do Rio de Janeiro, ele cresceu em Campo Grande, região que concentrava grandes operações industriais. A expectativa profissional naquele momento estava muito mais ligada às fábricas existentes na região, e essa realidade influenciou sua decisão de cursar engenharia mecatrônica.
A telecomunicação surgiu quando Mariano procurava estágio.
A experiência começou em redes de dados e posteriormente avançou para projetos ligados a transmissão, redes ópticas e infraestrutura. Entre as passagens que marcaram sua formação está a Petrobras, onde teve contato com uma estrutura de telecomunicações que considera comparável, em escala, à de uma operadora.
Segundo Mariano, a companhia mantém uma extensa infraestrutura terrestre e submarina utilizada para suportar suas próprias operações.
Foi nesse ambiente que acompanhou a transição de diferentes tecnologias de rede para IP e aprofundou o contato com sistemas críticos, transporte óptico e redes de longa distância.
Depois vieram experiências com fabricantes, empresas de tecnologia e projetos internacionais envolvendo grandes redes e cabos submarinos. A atuação incluiu projetos em diferentes partes do mundo e aumentou seu interesse por uma dimensão específica da telecomunicação: a segurança da infraestrutura crítica.
Edge pode abrir uma nova oportunidade para os provedores
Antes de mergulhar nos cabos submarinos, a conversa trouxe outro componente importante da infraestrutura digital: o Edge Computing.
Na visão de Mariano, ainda existe confusão sobre o significado de Edge.
A lógica central está em aproximar aplicações, processamento e conteúdo do usuário. Em vez de uma determinada função depender exclusivamente de uma infraestrutura centralizada e distante, parte da capacidade computacional pode ser distribuída geograficamente.
O especialista comparou essa arquitetura ao funcionamento de uma franquia.
Se uma pessoa precisa viajar constantemente para outra cidade para consumir determinado produto, abrir uma unidade mais próxima reduz o deslocamento. Uma CDN utiliza uma lógica semelhante ao colocar conteúdo mais perto do usuário.
O Edge amplia as possibilidades porque não precisa armazenar somente conteúdo. Pode executar funções e aplicações de segurança, pagamentos e outros serviços próximos ao ponto de consumo.
Essa característica cria uma oportunidade especialmente relevante para os provedores regionais brasileiros.
Muitos ISPs construíram dezenas ou até centenas de POPs ao longo dos últimos anos. Parte dessas estruturas possui energia redundante, conectividade e condições operacionais que podem servir como base para aplicações distribuídas.
Na avaliação de Mariano, existem dois caminhos.
O primeiro é utilizar Edge internamente para reduzir custos, diminuir tráfego de longa distância e melhorar a eficiência da própria rede.
O segundo é transformar essa infraestrutura em plataforma para serviços B2B, aproximando aplicações e conteúdo de empresas e usuários locais.
O desafio está em conectar esses ativos dos provedores às empresas e plataformas que possuem demanda por processamento distribuído.
O conteúdo brasileiro ainda é muito concentrado
A descentralização também apareceu na discussão sobre os pontos de troca de tráfego brasileiros.
Mariano chamou atenção para o peso de São Paulo na distribuição de conteúdo e para o efeito que essa concentração pode produzir sobre o desenvolvimento de outros polos de interconexão.
Segundo os números citados por ele durante a entrevista, entregar conteúdo no ambiente de São Paulo permite alcançar uma parcela muito significativa das redes brasileiras.
Essa escala torna o local extremamente eficiente para grandes produtores de conteúdo.
O problema surge quando a própria eficiência reduz o incentivo para distribuir infraestrutura em outras regiões.
Mariano utilizou Fortaleza como exemplo de como esse cenário pode mudar.
Quando diferentes plataformas começaram a instalar conteúdo localmente, o tráfego cresceu e ajudou a fortalecer o ecossistema de interconexão da região.
A experiência reforça uma tese defendida pelo especialista: existe demanda fora dos principais centros, mas conteúdo e infraestrutura precisam se aproximar desses mercados.
Iniciativas como o OpenCDN aparecem nessa discussão como mecanismos capazes de ajudar na distribuição de conteúdo.
Refibra pode atacar um gargalo estrutural do Brasil
É nesse ponto que a entrevista chega a uma das principais propostas discutidas por Mariano: o Refibra.
O conceito está associado à criação de uma política estruturante para redes ópticas de longa distância no país.
O Brasil possui uma quantidade relevante de cabos submarinos chegando ao território nacional. Mariano citou 16 sistemas existentes e outros projetos em desenvolvimento.
A capacidade internacional, entretanto, precisa encontrar redes terrestres capazes de transportar esse tráfego pelo país com segurança e redundância.
Para Mariano, esse é um dos grandes desafios atuais da infraestrutura brasileira.
Boa parte das redes de longa distância ainda utiliza estruturas aéreas. Um rompimento, acidente ou intervenção em determinados corredores pode afetar simultaneamente diferentes operadoras que utilizam rotas fisicamente semelhantes.
Ter duas fibras diferentes não significa necessariamente possuir redundância se ambas passam pelo mesmo posteamento, duto ou corredor físico.
Por isso, o especialista considera fundamental discutir diversidade de rotas, redes enterradas e aproveitamento de infraestruturas alternativas.
Redes existentes poderiam participar dessa nova infraestrutura
Uma possibilidade mencionada durante a entrevista envolve ativos ópticos de empresas que não possuem telecomunicações como atividade principal.
A Petrobras é um dos exemplos.
Segundo Mariano, a companhia possui uma extensa malha de fibras terrestres e submarinas e mantém capacidade ociosa relevante.
Parte dessa infraestrutura poderia, em determinadas estruturas de parceria ou compartilhamento, contribuir para aumentar a diversidade das redes brasileiras.
Outros ativos associados a setores como energia também entram nessa discussão.
O objetivo não seria simplesmente colocar mais fibras no mapa.
A preocupação central está em construir rotas fisicamente diferentes, capazes de aumentar a resiliência da infraestrutura nacional.
Mariano também considera que os provedores regionais podem exercer papel importante nesse processo.
Ao longo dos últimos anos, milhares de ISPs construíram redes ópticas que chegaram a municípios e regiões onde a infraestrutura tradicional era limitada.
Na avaliação dele, essa capacidade instalada precisa ser considerada em qualquer estratégia nacional de expansão das redes de longa distância.
No encerramento do episódio, Rogério resumiu essa contribuição afirmando que os provedores regionais conseguiram realizar uma parte do processo de digitalização que políticas públicas anteriores buscavam alcançar.
Cabos submarinos têm vida técnica e vida comercial diferentes
A entrevista também detalhou como funciona a economia dos cabos submarinos.
Um sistema pode ser construído para operar aproximadamente 25 anos, mas sua vida comercial pode ser diferente.
Novas tecnologias, mudanças na demanda, custos operacionais e o próprio modelo financeiro do consórcio influenciam a sustentabilidade do ativo.
Outro ponto importante é a diferença entre capacidade potencial e capacidade efetivamente iluminada.
Quando um cabo entra em operação, não necessariamente toda sua capacidade é ativada imediatamente.
Equipamentos são adicionados e novos pares podem ser utilizados conforme cresce a demanda.
Essa dinâmica permite que a capacidade evolua ao longo do tempo.
O mercado também mudou com a entrada das grandes empresas de tecnologia.
Google, Meta, Microsoft, Amazon e outras companhias passaram a consumir volumes crescentes de capacidade e começaram a investir diretamente em infraestrutura submarina ou participar de consórcios.
Segundo Mariano, essa transformação modificou a economia do setor.
Empresas que contam com a participação ou contratação dessas grandes plataformas possuem maior previsibilidade de utilização. Outros projetos precisam disputar capacidade no mercado e encontrar diferentes maneiras de monetizar seus ativos.
Um cabo antigo pode continuar no fundo do oceano por décadas
Outro tema pouco conhecido discutido no episódio foi o destino dos sistemas que encerram sua operação.
Historicamente, muitos cabos desativados permaneceram no fundo do oceano.
Em alguns casos, acabam incorporados ao ambiente marinho.
Mais recentemente, surgiu também uma indústria especializada em retirar sistemas antigos, especialmente quando os materiais utilizados possuem valor econômico suficiente para justificar a operação.
Mariano citou o processo envolvendo um antigo cabo coaxial ligado ao Brasil, instalado no final da década de 1970.
O sistema permaneceu desativado por muitos anos e entrou em processo de retirada.
Esse tipo de operação envolve uma complexidade regulatória diferente da própria instalação do cabo.
No Brasil, a implantação normalmente exige interação com diferentes órgãos, incluindo Anatel, Marinha, Ibama e Secretaria do Patrimônio da União.
Segundo Mariano, a experiência acumulada para instalar sistemas é maior do que aquela existente para removê-los, justamente porque o descomissionamento ainda é relativamente incomum.
O problema começa quando um cabo rompe
A manutenção foi uma das partes mais relevantes da conversa.
Mariano destacou que o mercado costuma discutir novos cabos e novas capacidades, mas presta menos atenção à estrutura necessária para reparar esses ativos.
Os reparos dependem de navios especializados.
Na região do Atlântico atendida pelo Brasil, o especialista citou dois grandes arranjos de manutenção e explicou que a disponibilidade das embarcações pode aumentar significativamente o tempo necessário para realizar um reparo.
Segundo ele, o tempo médio pode chegar a aproximadamente 55 dias em determinados cenários de águas profundas.
Os custos também são elevados.
Um único evento pode demandar milhões de dólares entre mobilização, operação do navio, reparo e impactos indiretos relacionados à indisponibilidade da capacidade.
É justamente por isso que Mariano defende discutir uma estrutura brasileira capaz de responder ao menos aos incidentes ocorridos em águas rasas.
Diminuir a dependência de embarcações posicionadas a grandes distâncias poderia reduzir o tempo de recuperação em determinados casos.
A maior parte dos rompimentos tem origem humana
A percepção popular costuma associar danos a cabos submarinos a terremotos, eventos extremos ou mesmo aos famosos casos envolvendo tubarões.
A realidade apresentada por Mariano é diferente.
Segundo ele, aproximadamente 86% dos rompimentos estão relacionados à atividade humana.
Âncoras e pesca aparecem entre as causas mais recorrentes.
Um navio que ancora em uma região inadequada pode arrastar centenas de metros de corrente e atingir diferentes infraestruturas no fundo do mar.
Barcos de pesca também podem causar danos quando equipamentos entram em contato com sistemas instalados em águas mais rasas.
Mariano relatou um episódio ocorrido na costa brasileira em que a âncora de um navio atingiu diferentes infraestruturas durante a navegação.
Casos desse tipo mostram por que identificar rapidamente a embarcação responsável é importante tanto para prevenção quanto para eventual responsabilização.
Monitoramento de embarcações pode reduzir acidentes
Tecnologia e integração de dados aparecem como parte da solução.
Grandes embarcações utilizam sistemas de identificação que permitem acompanhar sua movimentação.
O problema está em embarcações menores, especialmente determinados barcos de pesca.
Mariano mencionou o PREPS, programa de rastreamento utilizado no setor pesqueiro, como uma das ferramentas que poderiam contribuir para identificar embarcações próximas às rotas dos cabos.
Combinado a outros sistemas de acompanhamento marítimo, esse tipo de informação permite aumentar a capacidade de investigação e prevenção.
Outra frente é educação.
Empresas do setor desenvolvem trabalhos com comunidades pesqueiras para explicar onde estão os cabos e quais são os riscos de determinadas atividades.
Para Mariano, essa orientação também poderia ganhar espaço nos processos de formação e renovação de licenças profissionais.
E os tubarões?
A história de tubarões atacando cabos submarinos virou quase uma lenda da internet.
Mas existe uma origem real.
Mariano explicou que, em sistemas mais antigos, existem registros de mordidas capazes de provocar danos.
Uma das hipóteses era que o campo eletromagnético pudesse fazer o animal confundir o cabo com elementos presentes em sua alimentação.
O tubarão não precisava partir completamente a estrutura.
Uma perfuração poderia ser suficiente para provocar um problema elétrico no sistema.
A evolução da construção dos cabos, da proteção física e das técnicas de instalação reduziu esse risco.
Segundo Mariano, os grupos internacionais que acompanham incidentes desse tipo não registram ocorrências relevantes há muitos anos.
Hoje, âncoras e atividades pesqueiras representam preocupações muito maiores.
Geopolítica começou a redesenhar as rotas dos cabos
Se os riscos operacionais já eram importantes, nos últimos anos surgiu uma camada adicional: geopolítica.
Mariano aponta o início desta nova fase para episódios ocorridos entre 2019 e 2020.
Um dos casos citados foi o projeto Pacific Light Cable Network, planejado para conectar Hong Kong aos Estados Unidos com participação de grandes plataformas de tecnologia.
Preocupações relacionadas à segurança e espionagem modificaram a configuração do projeto e ajudaram a mostrar que infraestrutura submarina havia entrado definitivamente na agenda estratégica dos países.
Desde então, novos episódios aumentaram a preocupação.
Mar Báltico, Mar Vermelho, Mar Amarelo, Estreito de Hormuz e Estreito de Malaca foram citados durante a conversa como regiões onde questões geopolíticas podem interferir na infraestrutura.
Esse ambiente começou a modificar até o desenho dos novos sistemas.
As “rotas estranhas” da nova internet
Mariano utiliza uma expressão interessante para definir parte dessa transformação: rotas estranhas.
São conexões que, olhando apenas a distância geográfica ou os grandes centros tradicionais de internet, poderiam parecer pouco óbvias.
Rotas pelo hemisfério Sul, conexões envolvendo América do Sul, África, Oceania e ilhas do Pacífico começam a ganhar importância.
Existe uma lógica econômica por trás disso.
Uma hyperscaler precisa manter seus serviços disponíveis.
Se determinadas regiões possuem risco elevado de interrupção, criar caminhos alternativos aumenta a resiliência global da plataforma.
Existe também uma lógica política.
Passar longe de regiões altamente disputadas reduz a exposição do projeto a conflitos entre países.
Nesse ambiente, o mapa físico da internet começa a refletir não somente onde estão os usuários e data centers, mas também quais territórios oferecem maior estabilidade para uma infraestrutura planejada para operar por décadas.
A fibra também pode funcionar como sensor
Outra transformação tecnológica aumenta ainda mais a importância estratégica dos cabos submarinos.
A própria fibra óptica pode ser utilizada para sensoriamento.
Tecnologias de Fiber Optical Sensing permitem identificar diferentes fenômenos a partir de alterações registradas na fibra.
Existem aplicações relacionadas a temperatura, pressão, terremotos, tsunamis e monitoramento ambiental.
Mariano participa de discussões internacionais relacionadas a esse tipo de tecnologia e explicou que alguns projetos estudam incorporar sensores diretamente à infraestrutura dos cabos.
A possibilidade vai além do ambiente natural.
Sensoriamento acústico também pode detectar sons no oceano.
Se a tecnologia consegue reconhecer o ruído produzido por animais marinhos, também pode, em determinadas condições, identificar sinais acústicos gerados por embarcações.
Essa capacidade adiciona uma dimensão estratégica à infraestrutura.
O mesmo cabo utilizado para transportar dados pode ajudar a observar o ambiente em que está instalado.
IA aumenta a demanda, mas data centers são o gatilho físico
Inteligência artificial também apareceu na discussão sobre o crescimento da capacidade.
Mariano faz uma distinção importante.
Na visão dele, o aumento da demanda pelos cabos não ocorre diretamente porque existe inteligência artificial.
O elemento intermediário é o data center.
Aplicações de IA exigem capacidade computacional. Essa capacidade precisa ser instalada em grandes infraestruturas de processamento.
Quando novos data centers são construídos ou ampliados, cresce também a necessidade de conectá-los às demais regiões.
Por isso, a expansão acontece simultaneamente nas redes terrestres e submarinas.
Novos projetos de data centers no Brasil podem aumentar tanto a necessidade de capacidade internacional quanto a demanda por grandes corredores ópticos dentro do próprio país.
Mais cabos não significam automaticamente mais desenvolvimento
A chegada de novos sistemas costuma ser apresentada como indicador de desenvolvimento digital.
Mariano coloca uma ressalva.
Um cabo precisa encontrar um ecossistema capaz de utilizar aquela capacidade.
Entre os fatores considerados por investidores estão atividade econômica, conectividade existente, data centers, redes de usuários, provedores, interconexão e resiliência.
Por isso, ele não considera inevitável que todos os estados costeiros brasileiros recebam seus próprios cabos.
Existem localidades em que a infraestrutura consegue produzir efeitos rapidamente porque já existe demanda e um ecossistema preparado.
Em outras, a equação econômica pode ser diferente.
O papel do poder público, segundo Mariano, está principalmente em criar condições para que investimentos privados ocorram.
Incentivos, simplificação, segurança jurídica e previsibilidade podem tornar determinada região mais atrativa sem necessariamente transformar o governo em proprietário da infraestrutura.
Brasil ainda possui um processo regulatório fragmentado
Hoje, quem pretende implantar um cabo submarino no país precisa lidar com diferentes órgãos.
Mariano considera essa fragmentação um dos pontos que poderiam ser melhorados.
Sua proposta é criar um ponto focal.
Esse papel poderia ser exercido por uma estrutura já existente. O investidor apresentaria o projeto a esse interlocutor, que coordenaria as demandas junto aos demais órgãos responsáveis.
A medida não eliminaria responsabilidades ambientais, marítimas, patrimoniais ou regulatórias.
A mudança estaria na coordenação.
Em vez de o interessado precisar conduzir individualmente diferentes frentes, existiria um processo centralizado capaz de organizar as exigências.
Segurança jurídica aparece repetidamente na avaliação de Mariano como condição fundamental para atrair mais investimento de longo prazo.
E, em cabos submarinos, longo prazo é literal.
Projetos podem levar três ou quatro anos entre concepção, licenciamento, fabricação, contratação de embarcações e instalação.
Proteção precisa acompanhar o valor da infraestrutura
Outro exemplo citado na entrevista envolve a responsabilização por danos.
Segundo Mariano, determinados mecanismos de penalização existentes hoje são muito pequenos quando comparados ao prejuízo potencial causado pelo rompimento de uma infraestrutura crítica.
Enquanto um acidente pode produzir custos de milhões de dólares e exigir semanas de reparo, algumas sanções permanecem baseadas em legislações antigas.
Para o especialista, modernizar esse arcabouço é parte do processo de fortalecer a infraestrutura digital brasileira.
A proteção não depende somente de colocar mais fiscalização no mar.
Ela envolve monitoramento, educação, regras claras, responsabilização e capacidade rápida de reparo.
Formação de profissionais será outro desafio
A conversa terminou olhando para uma camada menos visível dessa infraestrutura: as pessoas.
Mariano considera que o setor de cabos submarinos enfrenta uma necessidade crescente de formação profissional.
É uma área multidisciplinar.
Engenharia de telecomunicações, fotônica, engenharia de materiais, direito, negócios, finanças e geopolítica aparecem dentro do mesmo ecossistema.
Ao mesmo tempo, muitos dos profissionais mais experientes estão avançando em suas carreiras sem que uma nova geração seja formada na mesma velocidade.
Por isso, um dos projetos que Mariano gostaria de desenvolver é uma escola dedicada a cabos submarinos.
A ideia inicial seria utilizar um formato intensivo, semelhante às escolas de verão internacionais, reunindo especialistas de diferentes áreas para apresentar toda a cadeia.
Não apenas como instalar um cabo, mas como financiar, vender capacidade, estruturar contratos, entender riscos geopolíticos, operar redes e proteger a infraestrutura.
Para Mariano, esse seria um legado importante para o setor.
A infraestrutura invisível ganha protagonismo
A digitalização brasileira construiu uma rede muito maior do que aquela que existia há pouco mais de uma década.
Provedores regionais levaram fibra para milhares de municípios. Grandes plataformas aumentaram investimentos próprios em infraestrutura. Data centers ganharam escala. Novos cabos submarinos chegaram e outros estão em desenvolvimento.
A próxima etapa exige conectar melhor essas peças.
Cabos internacionais precisam encontrar redes terrestres resilientes. Data centers precisam de múltiplos caminhos de conectividade. Edge depende de infraestrutura distribuída. Provedores podem transformar POPs e fibras existentes em novos ativos. E toda essa estrutura precisa ser protegida contra falhas, acidentes e riscos geopolíticos.
Na avaliação de Rogério Mariano, o país possui capacidade técnica e mercado para continuar expandindo essa infraestrutura.
O ponto central é criar condições para que o investimento aconteça com previsibilidade, redundância e segurança.
Ao resumir sua visão no encerramento da conversa, Mariano destacou o papel do poder público em propiciar as condições para o investimento sem dificultar sua execução, enquanto empresas e investidores realizam a expansão necessária.
Num momento em que inteligência artificial, cloud e data centers ampliam a demanda por processamento e transporte de dados, a discussão sobre infraestrutura física volta ao centro.
A internet pode parecer cada vez mais virtual para quem a utiliza.
Mas sua próxima fase continuará dependendo de algo bastante concreto: fibra, rotas, energia, navios, data centers e milhares de quilômetros de cabos conectando o Brasil ao restante do mundo.
O episódio completo com Rogério Mariano, Head Global da Azion e coordenador de Infraestrutura Crítica e Soberania Digital do IBTD, está disponível no Last Mile Podcast.