Por Matheus Cofferri – Fundador do Last Mile
De 2022 pra cá satélites atuaram como complemento, como camada de apoio, como solução para aquilo que a rede terrestre não alcança com eficiência econômica.
Em 2026 acompanhamos um amadurecimento do modelo.
Até pouco tempo, a conectividade via satélite orbitava fora do núcleo do negócio fixo/móvel. Casos de uso bem delimitados, comunicação de emergência, cobertura pontual, exigências regulatórias. Baixa taxa de dados, uso esporádico, impacto irrelevante na receita das operadoras. Para o setor, era quase um “seguro técnico” contra áreas de difícil acesso, sem tocar no core.
A comunicação direta com o dispositivo evolui. Sai do modo excepcional e passa a operar de forma contínua, ainda que com baixa capacidade. Dados persistentes, IoT distribuído, conectividade sempre disponível. Não substitui as redes móveis ou fixas de alta capacidade, mas começa a ocupar espaços que antes eram considerados marginais e que, somados, formam um mercado relevante.
O efeito prático não é uma ruptura abrupta, mas uma sobreposição gradual. Conectividade rural de baixo uso, links de contingência para empresas, operações distribuídas em regiões remotas, residências fora dos grandes centros. O risco de canibalização existe, não em escala massiva, mas suficiente para exigir atenção.
Onde essa dinâmica fica mais sensível é no desenho do mercado. Setores como energia, mineração, logística, agronegócio, marítimo e defesa já tratam o satélite como infraestrutura primária. Com terminais mais acessíveis e desempenho mais previsível, parte dessas operações passa a questionar a dependência de soluções terrestres tradicionais. Isso desloca orçamento, muda fornecedores e altera a lógica de quem controla a relação com o cliente final.
No residencial, as limitações continuam. Latência, custo e experiência ainda impõem barreiras. Mas em regiões de baixíssima densidade, onde o acesso fixo sempre foi economicamente frágil, o satélite passa a ser a primeira opção. Especialmente quando políticas públicas e fundos de universalização entram na equação.
Atacado ou varejo direto. Nível de integração com mobilidade, identidade, faturamento e serviços digitais. Grau de dependência ou autonomia em relação às operadoras locais. Essas escolhas definem se o satélite será apenas uma extensão da cobertura ou se passará a disputar, silenciosamente, partes do mercado de acesso.
Satélites entram em 2026 fazendo um teste aos limites dos modelos tradicionais de telecom. Eles não ameaçam o core de forma imediata, mas tensionam exatamente aquelas áreas que sempre foram tratadas como seguras, pouco disputadas ou economicamente secundárias.
E é justamente aí que mora a oportunidade. Para quem entende que o futuro da conectividade não será definido por uma única rede, mas pela capacidade de orquestrar múltiplas camadas de acesso, serviços e modelos de negócio.