ABOTTS vê streaming como oportunidade para ISPs, mas alerta para monetização, talentos e pirataria

Yassue Inoki, presidente da ABOTTS, afirma ao Last Mile Podcast que o Brasil reúne boa infraestrutura de internet e alto consumo de vídeo, mas o mercado ainda precisa organizar melhor publicidade, capacitação profissional e combate à pirataria

O mercado brasileiro de streaming e vídeo tem uma combinação favorável para crescer junto aos provedores de internet. A avaliação é de Yassue Inoki, presidente da ABOTTS, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo ela, o Brasil reúne dois fatores importantes: uma internet de boa qualidade e uma população que consome muito vídeo. Para a executiva, essa combinação cria uma oportunidade direta para empresas de streaming, provedores de conteúdo, plataformas, ISPs, empresas de tecnologia, CDNs, players de dados e soluções de inteligência artificial.

“A internet do Brasil, vocês sabem muito melhor do que eu, é uma das melhores do mundo. E vocês também devem saber que hoje o Brasil é um dos países que mais consome vídeo. Então não tem como dar errado essa casadinha”, afirmou Yassue.

A ABOTTS, Associação Brasileira de OTTs e Streaming, existe há nove anos. Yassue está há dois anos na gestão da entidade e afirmou que a associação tem buscado atuar cada vez mais como uma comunidade do ecossistema de OTT e streaming.

ABOTTS quer organizar um mercado fragmentado

Durante a entrevista, Yassue explicou que a ABOTTS vem tentando reduzir a fragmentação do mercado. Segundo ela, o ecossistema reúne muitos players, com empresas buscando crescimento, mas nem sempre com clareza sobre como monetizar ou colaborar.

A proposta da entidade é reunir empresas de diferentes partes da cadeia: canais, provedores de conteúdo, produtoras, plataformas, ISPs, empresas de tecnologia, CDNs, dados e inteligência artificial.

“Quando eu falo isso, são canais, provedores de conteúdo, produtoras, plataformas, ISPs, pessoal de tecnologia, provedores de tecnologia que estão na ponta, CDN, até mesmo inteligência artificial, dados. Está todo mundo ali reunido”, afirmou.

Na visão da executiva, o mercado ainda tem espaço para crescer, mas precisa resolver pendências internas, aproximar empresas e criar iniciativas que ajudem a profissionalizar a cadeia.

Monetização ainda é desafio para o streaming

Um dos temas centrais da conversa foi a monetização de vídeo e streaming.

Yassue afirmou que existem muitas oportunidades, mas também muitas dúvidas no mercado publicitário. Segundo ela, a publicidade no streaming tem características diferentes da TV aberta e exige mais conhecimento de tecnologia, dados e operação.

Na TV tradicional, a lógica de compra de mídia era mais simples: grade, horário, tabela e entrega. No streaming, o ecossistema envolve adtechs, segmentação, plataformas, tecnologia, formatos, dados e vários intermediários.

“No ecossistema de streaming, você tem todo um adstack. A parte de tecnologia é muito maior, tem muito jargão, tem várias empresas”, afirmou.

Para Yassue, parte do mercado ainda está em fase de aprendizado. Profissionais que vieram do broadcast foram colocados diretamente em operações de streaming sem necessariamente passar por formação específica para esse novo ambiente.

Isso ajuda a explicar por que o Brasil ainda avança em ritmo mais lento do que mercados mais maduros, como os Estados Unidos.

ISPs podem capturar valor com vídeo

Questionada sobre a oportunidade para provedores de internet, Yassue afirmou que os ISPs estão bem posicionados para aproveitar o crescimento do vídeo.

Segundo ela, os provedores já têm a infraestrutura de entrega e estão próximos do cliente final. Com o consumo crescente de vídeo no país, a oportunidade está em organizar melhor os modelos comerciais, os combos, as ofertas de streaming e as formas de monetização.

“Você tem a demanda, você tem uma qualidade boa de entrega. É só realmente organizar tudo para a gente poder ver como ganha dinheiro, mais dinheiro ainda nesse mercado”, afirmou.

A ABOTTS busca apoiar essa organização com iniciativas de educação, capacitação, eventos e aproximação entre empresas do ecossistema.

Cursos com PUC Paraná

Yassue também antecipou que a ABOTTS lançará cursos no segundo semestre em parceria com a PUC Paraná.

A associação fará a curadoria e a mentoria dos conteúdos, enquanto a universidade ficará responsável pela organização, comercialização e certificação. Segundo ela, o primeiro curso será voltado à monetização, com carga de 60 horas.

Também estão previstos cursos sobre TV 3.0 para ISPs e streaming para ISPs.

A iniciativa busca formar profissionais para um mercado que cresce, mas ainda carece de conhecimento técnico e comercial mais específico.

Além dos cursos, Yassue citou a criação da Talent Unlock Community, uma comunidade voltada a profissionais do mercado de streaming e vídeo. A proposta é conectar talentos, divulgar vagas, trocar informações sobre eventos e aproximar profissionais do Brasil e de outros países.

Conteúdo vertical ganha força

Outro tema abordado foi a mudança no formato de consumo de conteúdo.

Yassue afirmou que os formatos verticais e curtos estão entre as principais tendências do momento. Segundo ela, conteúdos em estilo reels ou shorts funcionam como porta de entrada para capturar audiência e, depois, conduzir parte desse público para conteúdos mais longos ou outros produtos da mesma plataforma.

A executiva citou a lógica dos recortes de podcasts como exemplo. O usuário assiste a um trecho curto, gosta, assiste a outros recortes e pode depois buscar o conteúdo completo.

“É a febre primeiro para você capturar a audiência e depois cativar”, afirmou.

Na visão da presidente da ABOTTS, o conteúdo vertical também cria oportunidades de cruzamento com outros conteúdos, produtos e plataformas, ampliando a capacidade de retenção e monetização.

Pirataria prejudica toda a cadeia

A pirataria foi outro ponto importante da entrevista.

Yassue afirmou que a ABOTTS lançou, no fim do ano passado, uma frente de antipirataria liderada por Maurício Almeida, fundador e CEO da Watch. A ideia é criar um grupo de trabalho para colaborar com iniciativas já existentes e ajudar a reduzir os impactos da pirataria no mercado.

Segundo ela, a entidade não parte da ilusão de que a pirataria será eliminada por completo. O objetivo é evitar que os números atuais continuem prejudicando o setor.

“Pirataria sempre vai existir. Não tem como a gente ter a utopia de que nunca vai ter pirataria. Mas como a gente consegue ajudar para que a gente não tenha esses números atuais?”, afirmou.

A frente reúne empresas que atuam com DRM e soluções de segurança, além de players interessados em colaborar com o tema.

Para Yassue, o combate à pirataria precisa ir além do discurso interno do mercado. A população precisa entender os danos causados pelo consumo de conteúdo pirata.

Segundo ela, a pirataria afeta plataformas, produtores, canais, roteiristas, cinegrafistas e toda a cadeia de produção audiovisual.

“O emprego de quem está aqui na ponta também é prejudicado, mas o pessoal não lembra das outras pessoas que estão lá na produção”, afirmou.

A executiva também fez uma comparação direta sobre a ideia de consumir conteúdo pirata apenas porque determinado conteúdo não está disponível gratuitamente.

“Eu também gostaria de ter uma Maserati, no entanto, eu não tenho dinheiro para isso, eu não vou roubar, eu continuo andando no meu carro”, disse.

Comunidade feminina no streaming

No encerramento, Yassue também apresentou a iniciativa Streaming Ladies, grupo feminino dentro da ABOTTS liderado por Paloma Santucci.

A proposta é fortalecer a presença de mulheres no mercado de tecnologia e streaming, conectar profissionais do Brasil e da América Latina, trocar melhores práticas com grupos internacionais e desenvolver ações como mentorias, encontros, painéis, podcasts e webinars.

Segundo Yassue, a ideia reforça o posicionamento da ABOTTS como uma comunidade, não apenas uma associação tradicional.

“Cada vez mais estamos deixando de lado o conceito de ser uma associação para passar a ser uma comunidade”, afirmou.

ABOTTS prepara canal FAST

Yassue também comentou que a ABOTTS prepara o lançamento de um canal FAST. Segundo ela, a entidade está trabalhando na curadoria de conteúdo e fechando contratos de parceria e tecnologia.

A executiva afirmou ainda que o podcast da ABOTTS já é distribuído na TV paga e em plataformas como Claro, Vivo, Sky e Amazon Prime, além de negociações para outras distribuições e contrato internacional.

Streaming, telecom e oportunidade

A entrevista com Yassue Inoki mostra que o mercado de vídeo não deve ser visto pelos provedores apenas como um complemento de combo.

Há uma cadeia maior em formação, envolvendo conteúdo, publicidade, dados, tecnologia, plataformas, segurança, formação profissional, combate à pirataria e novos formatos de consumo.

Para os ISPs, a oportunidade está em usar sua proximidade com o cliente e sua capacidade de entrega para participar melhor dessa cadeia.

O Brasil já tem demanda por vídeo. Tem redes capazes de entregar esse consumo. Tem provedores próximos do usuário. Mas ainda precisa evoluir em monetização, capacitação, organização do ecossistema e consciência sobre os impactos da pirataria.

O recado da ABOTTS é claro: o streaming ainda tem muito espaço para crescer no Brasil, mas esse crescimento dependerá de colaboração entre os diferentes agentes do mercado.

A entrevista completa com Yassue Inoki está disponível no Last Mile Podcast.

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