Padtec vê nova onda de demanda por redes ópticas em meio à IA, geopolítica e data centers

Carlos Raimar, CEO da Padtec, afirma ao Last Mile que o mercado global vive pressão no supply chain, segregação de tráfego entre blocos geopolíticos e maior demanda por redes resilientes

A demanda por redes ópticas de alta capacidade vive um novo momento global, impulsionada por data centers, inteligência artificial, cabos submarinos e pela necessidade de redes mais resilientes. A avaliação foi apresentada por Carlos Raimar, CEO da Padtec, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo o executivo, a Padtec atua principalmente em tecnologias ópticas de alta capacidade, especialmente DWDM, usadas para transportar grandes volumes de dados por pares de fibra óptica. Raimar explicou que a tecnologia permite colocar vários canais de luz dentro de uma mesma fibra, ampliando a capacidade de transmissão.

“Uma fibra pode ter 80 canais no modelo comercial atual, pode ir até 500 no futuro”, afirmou.

Na entrevista, o CEO também destacou que a companhia vem ampliando sua atuação para outras camadas, como IP, serviços de operação, NOC, automação via software e uma nova frente ligada a cabos submarinos e planta molhada.

Óptica ganha novo peso com data centers

Raimar afirmou que data centers precisam de conectividade terrestre e internacional, e que essa escala tem crescido em volumes que o mercado não via havia cerca de duas décadas.

“Esse é o momento da óptica no mundo”, disse.

Segundo ele, a tecnologia da Padtec é usada em diferentes cenários, desde conexões dentro de data centers até redes metropolitanas, interligações entre países e enlaces internacionais.

O executivo também citou novos equipamentos de maior capacidade. Segundo ele, a nova geração lançada pela empresa permite transportar 800 Gbps em distâncias próximas, além de equipamentos que podem chegar a 2,4 Tbps em distâncias curtas.

Supply chain volta a pressionar o setor

Um dos temas centrais da conversa foi o impacto da geopolítica e da cadeia global de suprimentos no mercado de tecnologia.

Raimar afirmou que clientes em crescimento precisam gerenciar com mais atenção o supply chain para garantir a chegada de transponders, redes e insumos para construção de infraestrutura. Segundo ele, os fabricantes também estão sendo afetados.

“A percepção é que nós estamos numa nova pandemia quase em termos de supply chain, em gestão de escassez, em gestão da logística”, afirmou.

Ele citou impactos em diferentes componentes, começando pela própria fibra óptica. Segundo Raimar, há uso de fibra em drones de guerra, especialmente para contornar bloqueios de radiofrequência, o que contribui para pressões no fornecimento de certos tipos de cabos e fibras.

Também há pressão em componentes eletrônicos, inicialmente em memória, mas agora de forma mais ampla, por conta da demanda de inteligência artificial e da reorganização das cadeias produtivas globais.

Geopolítica muda decisões de rede

Raimar também comentou que o mundo está ficando mais dividido em blocos tecnológicos, com impactos diretos na decisão de compra, montagem e operação de redes.

Segundo ele, a disputa entre fornecedores americanos e chineses afeta mais do que a escolha de equipamentos. Afeta também o caminho por onde o tráfego passa.

“Você tem uma rede num modelo, numa formatação, componentes e todo o fornecimento americano. O chinês não quer passar por ela porque acha que está sendo espionado. O americano não quer passar por uma rede chinesa porque acha que tem backdoor”, afirmou.

Na visão dele, há uma segregação de tráfegos, não apenas de equipamentos. Esse cenário cria desafios para operadores globais e também oportunidades para fornecedores considerados neutros.

Raimar afirmou que a Padtec se posiciona como fornecedor neutro e que a origem brasileira pode ser uma vantagem nesse ambiente. Segundo ele, a empresa não é percebida como parte direta dos principais blocos de disputa tecnológica.

“O Brasil tem essa vantagem tecnológica nesse momento dessa neutralidade”, disse.

Resultados do primeiro trimestre

Durante a entrevista, Raimar também comentou os resultados do primeiro trimestre de 2026 da Padtec.

Segundo ele, o faturamento do primeiro trimestre não mostra toda a história, porque a indústria trabalha com projetos e o início do ano costuma envolver aprovação de orçamento e organização de investimentos pelos clientes.

Ainda assim, o executivo afirmou que o trimestre veio “continuista” em receita, mas muito positivo no resultado final, fruto de ações feitas no ano anterior, como racionalização de custos variáveis, ajustes no supply chain e maior seletividade em negócios.

Segundo Raimar, a Padtec atingiu EBITDA de 25% no primeiro trimestre, patamar que ele classificou como acima da normalidade para a indústria.

Ele também comentou mudanças operacionais realizadas no ano anterior, incluindo nova organização das fábricas. A empresa passou a ter uma fábrica dentro do CPQD para plugáveis, uma unidade de transponders em Campinas e a parte de serviços em Hortolândia.

Novas verticais e Padtec Marine Networks

Raimar afirmou que a empresa vem se preparando para novas verticais ligadas à infraestrutura crítica de dados.

Segundo ele, a Padtec já atua na camada óptica, mas precisa avançar em áreas próximas ao novo ciclo de demanda. Entre os movimentos citados está a criação da Padtec Marine Networks, voltada à planta submarina.

O executivo afirmou que a nova unidade já nasce com projetos em andamento, embora ainda não públicos.

“Agora já é delivery time”, afirmou.

Para Raimar, a demanda por infraestrutura óptica deve seguir relevante mesmo com futuras mudanças tecnológicas, como computação quântica. Segundo ele, o elemento óptico continuará transportando bits ou qubits, mantendo importância nos próximos anos.

Mercado brasileiro em reestruturação

Ao comentar o mercado brasileiro de provedores, Raimar afirmou que sua percepção é de um setor em estruturação e reestruturação.

Segundo ele, a consolidação tende a permanecer, como resposta natural à necessidade de escala, eficiência e boa gestão. O executivo afirmou que empresas precisarão decidir qual papel querem ocupar: operar de forma simples, escalar, fundir, buscar sócios, comprar ou ser compradas.

Para ele, esse movimento leva à otimização das redes tradicionais, como FTTH, fiber to the business e cloud connection.

Por outro lado, novas demandas estão chegando a partir de grandes provedores de inteligência artificial e operadores globais, exigindo redes mais robustas e resilientes.

Resiliência passa a ser demanda central

Raimar afirmou que a latência já é uma preocupação conhecida do mercado, mas que a resiliência passou a ganhar peso maior entre grandes operadores globais.

Ele citou casos de rotas importantes em que operadores, mesmo tendo múltiplas alternativas, ficam com poucas rotas ativas em determinados períodos. Segundo ele, isso reforça a necessidade de redes mais confiáveis.

“Nós precisamos construir novas redes mais resilientes, de mais qualidade”, afirmou.

Na visão do executivo, alguns operadores preferem ter duas ou três rotas muito boas em vez de muitas rotas medianas.

Ele também comentou o surgimento de um novo grupo de provedores de infraestrutura, que já lançam cabos com maior número de fibras, em vez de estruturas menores. Esse movimento acompanha a elevação da demanda por capacidade.

Cabos submarinos e nova onda de capacidade

Segundo Raimar, a demanda por cabos submarinos também tem crescido em saltos relevantes, impulsionada por data centers, IA e tráfego internacional.

Ele afirmou que o mercado vive uma nova onda, mais forte em regiões como América do Norte, Europa, China e Ásia, mas que começa a chegar também à América Latina.

Para o executivo, Brasil e América Latina seguem em expansão, com novas demandas associadas à conectividade, 5G e infraestrutura de alta capacidade.

Abrint como espaço de negócios

Ao final, Raimar também comentou a importância do Abrint Global Congress para a Padtec.

Segundo ele, a feira é a principal feira de negócios de telecom para a empresa, sem paralelo em outras geografias. O executivo afirmou que o evento permite ouvir clientes, entender dores, apresentar novidades e discutir prazos, equipamentos e soluções.

“Para nós é a maior feira de negócio telecom. Não tem nada parecido”, afirmou.

Entre as novidades citadas no evento, ele mencionou equipamentos mais eficientes, como o TMQ 800, além de novidades em OTDR, serviços e soluções.

Um setor pressionado e em expansão

A entrevista com Carlos Raimar mostra um mercado de infraestrutura óptica em transformação.

De um lado, há pressão no supply chain, reorganização geopolítica, escassez de componentes e decisões de rede cada vez mais afetadas por blocos tecnológicos. De outro, há crescimento da demanda por data centers, cabos submarinos, inteligência artificial, interconexão e redes resilientes.

Para a Padtec, esse cenário traz desafios operacionais, mas também abre oportunidades para fornecedores com presença local, capacidade tecnológica e posicionamento neutro.

O mercado brasileiro, por sua vez, passa por consolidação, reestruturação e novas exigências de escala. A próxima etapa não será marcada apenas por expansão de acesso, mas por redes com mais capacidade, redundância e qualidade para suportar o aumento do tráfego e das aplicações digitais.

A entrevista completa com Carlos Raimar está disponível no Last Mile Podcast.

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