Presidente da Cirion Technologies no Brasil falou ao Last Mile sobre inteligência artificial, redes, data centers, mercado B2B, cabos submarinos e os desafios do país para atrair novos investimentos em infraestrutura digital
A expansão da inteligência artificial tende a provocar mudanças profundas na infraestrutura de telecomunicações, nos modelos de negócio das operadoras e na forma como empresas contratam conectividade. Essa foi uma das principais avaliações de Augusto Salomon, presidente da Cirion Technologies no Brasil, em entrevista ao Last Mile Podcast.
Com mais de 25 anos de atuação no setor, Salomon construiu sua carreira entre engenharia, vendas, gestão e infraestrutura digital. Formado pelo Inatel, iniciou sua trajetória profissional no período da privatização do sistema brasileiro de telecomunicações, trabalhou na Telemig, posteriormente Telemar, passou pelo Grupo Nelson Quintas e teve uma longa carreira na Algar Telecom, onde chegou a liderar a unidade B2B. Mais recentemente, também aprofundou seus estudos e atuação em inteligência artificial.
Na avaliação do executivo, o impacto da IA precisa ser observado além das aplicações e ferramentas utilizadas diretamente pelos consumidores. O crescimento do uso de modelos generativos implica maior processamento, consumo de energia, utilização de data centers e circulação de dados entre usuários, empresas, nuvens e diferentes centros de processamento.
Segundo Salomon, a pressão sobre a infraestrutura deve crescer conforme a adoção da tecnologia avance.
“Inteligência artificial, eu tenho uma definição que é minha, não tem nada a ver com tecnologia, é sobre transformação da sociedade”, afirmou durante a entrevista. Para ele, a mudança alcançará tanto a vida das pessoas quanto os processos internos e os modelos operacionais das empresas.
Energia aparece primeiro, mas telecom também pode enfrentar gargalos
O consumo energético dos data centers já está no centro das discussões globais sobre o avanço da inteligência artificial. Salomon considera a disponibilidade de energia um dos principais gargalos atuais, mas avalia que a conectividade ganhará protagonismo à medida que novas capacidades computacionais forem instaladas.
O aumento do processamento envolve comunicação entre servidores dentro dos data centers, interconexão entre diferentes centros de processamento, comunicação das empresas com essas estruturas e, por fim, o tráfego gerado pelos próprios usuários.
Na avaliação do executivo, a infraestrutura atual precisará acompanhar esse crescimento com novos investimentos.
Salomon destacou que a fibra óptica continua sendo a principal tecnologia física para suportar essa expansão. O desafio, segundo ele, está principalmente nos equipamentos instalados nas extremidades das redes, na disponibilidade desses componentes e na capacidade das empresas de antecipar investimentos.
Decisões de expansão de infraestrutura exigem planejamento, aquisição de equipamentos, implantação de rede e disponibilidade de capital. Por isso, os investimentos precisam ocorrer antes que toda a nova demanda apareça efetivamente.
Latência e disponibilidade ganham espaço na contratação de conectividade
Outro ponto abordado no episódio foi a mudança dos indicadores utilizados pelas empresas para avaliar serviços de telecomunicações.
A capacidade contratada continua relevante, mas clientes empresariais começam a observar com maior atenção critérios como latência, disponibilidade, resiliência e flexibilidade.
Segundo Salomon, já existem situações em que a discussão comercial começa pela qualidade e pelas características da conexão antes mesmo de chegar à quantidade de banda.
Essa mudança também pode influenciar os modelos de precificação do setor. Historicamente, boa parte das ofertas de telecom foi estruturada a partir da capacidade contratada. Com aplicações cada vez mais sensíveis ao tempo de resposta e à disponibilidade, outros componentes podem ganhar peso comercial.
Durante a conversa, Salomon levantou inclusive a possibilidade de a evolução da inteligência artificial criar novas formas de remuneração para as empresas responsáveis pela infraestrutura digital.
Entre as hipóteses discutidas está uma eventual associação entre telecom e consumo de tokens ou serviços de inteligência artificial. Para o executivo, o crescimento da IA abre uma oportunidade para o setor discutir como será remunerado pelos investimentos necessários para sustentar essa nova demanda.
Provedores regionais também terão papel na expansão da IA
Os provedores regionais de internet foram apontados como parte importante dessa transformação.
Salomon lembrou que os ISPs tiveram papel relevante na ampliação da conectividade no Brasil e considera que essas empresas continuarão importantes à medida que aplicações de inteligência artificial se tornarem mais presentes na rotina dos consumidores e das empresas.
A oportunidade não se limita à inclusão de ferramentas de IA dentro dos planos de internet. Para o executivo, a própria qualidade da conectividade terá importância crescente.
Disponibilidade, latência e estabilidade também devem ganhar peso no mercado residencial conforme os consumidores utilizem mais aplicações dependentes de processamento em nuvem.
Ao mesmo tempo, a IA oferece oportunidades dentro das próprias operações dos provedores. Salomon citou aplicações em atendimento, marketing, finanças, gestão de ativos, controle de Capex e distribuição de tráfego como exemplos de áreas que podem utilizar automação e inteligência artificial para aumentar produtividade.
Mercado B2B fica mais competitivo
A transformação do mercado empresarial de telecom também foi um dos temas da entrevista.
Salomon afirmou que o B2B passou por forte mudança nos últimos anos. A entrada de novas empresas e de provedores regionais aumentou a concorrência e trouxe maior pressão sobre preços.
Para competir nesse ambiente, ele aponta duas frentes principais: retenção da base de clientes e especialização.
Na visão do executivo, conhecer profundamente determinados segmentos econômicos pode ajudar empresas de telecom a desenvolver propostas mais aderentes às necessidades dos clientes.
Bancos, agronegócio, indústria e outros setores possuem demandas específicas de conectividade, disponibilidade e operação. Entender essas particularidades pode permitir que a empresa fornecedora participe de maneira mais próxima da infraestrutura necessária para o crescimento do cliente.
Outro fator citado é a redução do número de fornecedores. Empresas de médio e grande porte tendem a buscar parceiros capazes de atender diferentes localidades e necessidades, inclusive utilizando outras empresas como parceiras de última milha quando necessário.
Brasil reúne condições para ampliar participação em infraestrutura digital
Salomon também avaliou a posição brasileira na expansão global da infraestrutura ligada à inteligência artificial.
Na visão do executivo, o país reúne ativos relevantes: mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas, ampla infraestrutura de conectividade, presença de data centers e uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis.
O ponto de atenção está no ambiente regulatório e econômico.
Para investimentos de grande porte, especialmente em data centers e infraestrutura digital, previsibilidade é considerada fundamental. Projetos podem exigir centenas de milhões de dólares e apresentar retorno financeiro somente após vários anos.
Segundo Salomon, uma regulamentação clara para inteligência artificial e um ambiente que ofereça segurança ao capital podem ajudar o país a competir por novos projetos.
A disputa, entretanto, não acontece apenas com mercados desenvolvidos. Países latino-americanos também buscam aumentar sua participação nesse mercado.
O executivo citou Colômbia, México, Argentina e Chile como mercados que vêm apresentando oportunidades relevantes em infraestrutura digital. Apesar disso, considera que o tamanho da economia e da população brasileira continua oferecendo uma vantagem importante ao país.
Cabos submarinos e hyperscalers entram na equação
A necessidade de novas rotas de conectividade também voltou a colocar os cabos submarinos no centro da discussão.
Salomon afirmou que a evolução tecnológica reduziu significativamente a latência dessas infraestruturas e aumentou sua importância para a comunicação entre países e data centers.
O Brasil, segundo ele, possui atualmente uma quantidade relevante de cabos submarinos e novos projetos em desenvolvimento. O crescimento da inteligência artificial, porém, pode ampliar ainda mais a necessidade de conexões internacionais.
Outro fenômeno observado é o investimento direto de grandes empresas de tecnologia em infraestrutura própria.
Empresas como Meta e Google vêm participando de projetos de cabos e redes para garantir capacidade suficiente para suas próprias operações. Na avaliação de Salomon, o movimento está inicialmente relacionado à velocidade de crescimento dessas companhias e à necessidade de evitar dependência de ciclos mais longos de investimento de terceiros.
Isso não significa necessariamente uma competição direta com as operadoras tradicionais. Parcerias entre hyperscalers, operadoras e provedores de infraestrutura podem continuar fazendo parte desse modelo.
IA também começa a modificar estruturas de trabalho
Além da infraestrutura, o episódio tratou dos impactos da inteligência artificial sobre produtividade e mercado de trabalho.
Salomon afirmou utilizar atualmente 13 agentes de IA em atividades como análise de e-mails, pesquisa de informações, acompanhamento de notícias e organização de conteúdo.
Segundo ele, algumas tarefas que anteriormente exigiam trabalho manual podem ser delegadas a sistemas automatizados, liberando profissionais para atividades que exigem julgamento, relacionamento ou resolução de situações excepcionais.
O executivo considera que diversas funções e cargos serão modificados rapidamente pela adoção da tecnologia. Para profissionais em início de carreira, especialmente engenheiros, sua recomendação é utilizar a formação técnica como ferramenta para resolver problemas reais e buscar aplicações práticas de inteligência artificial em diferentes setores.
Salomon também defendeu que profissionais altamente especializados em resolver problemas com IA podem ganhar importância dentro das organizações mesmo sem ocupar posições tradicionais de liderança.
Infraestrutura continuará no centro da transformação
Apesar da velocidade com que novas aplicações de inteligência artificial chegam ao mercado, boa parte dessa transformação depende de elementos conhecidos da indústria de telecomunicações: fibra óptica, equipamentos, data centers, energia, redes redundantes e capacidade de investimento.
A diferença está na escala da demanda e nos requisitos de desempenho.
Com aplicações mais dependentes de processamento contínuo e maior circulação de dados entre sistemas, a discussão sobre infraestrutura tende a ganhar importância nos próximos anos.
Para operadoras, provedores e empresas de infraestrutura digital, o desafio será acompanhar essa evolução ao mesmo tempo em que buscam modelos de negócio capazes de remunerar os investimentos necessários para sustentar a próxima fase da conectividade.