Eduardo Tude revisita 48 anos de transformação nas telecomunicações brasileiras

Fundador e presidente da Teleco participou do Last Mile Podcast e analisou a evolução do setor, os ciclos tecnológicos e os desafios que devem orientar os próximos anos

Poucos profissionais acompanharam de forma tão próxima tantas etapas da construção do setor de telecomunicações no Brasil quanto Eduardo Tude. Engenheiro formado pelo Instituto Militar de Engenharia, fundador e presidente da Teleco, ele acumula 48 anos de atuação em áreas que vão de satélites e planejamento de redes móveis a fibra óptica, regulação, consultoria, infraestrutura digital, fusões e aquisições.

Em participação no Last Mile Podcast, Tude revisitou parte dessa trajetória e compartilhou sua leitura sobre as principais transformações que ocorreram no mercado brasileiro. A conversa também avançou sobre temas como inteligência artificial, redes autônomas, 5G, 6G, MVNOs, Starlink, data centers, cabos submarinos e o futuro dos provedores regionais.

Mais do que uma retrospectiva, o episódio apresentou a visão de quem participou de diferentes ciclos tecnológicos e empresariais das telecomunicações e continua acompanhando os movimentos que podem definir os próximos anos.

Dos primeiros projetos espaciais à expansão das redes móveis

A trajetória de Eduardo Tude começou em um período no qual satélites e fibra óptica estavam entre os principais temas de pesquisa e desenvolvimento das telecomunicações.

Após se formar no IME, ele iniciou sua carreira no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, trabalhando em projetos de estações terrenas e satélites de órbita baixa. Também participou de uma cooperação entre Brasil e China para o desenvolvimento de satélites, em uma fase na qual o país asiático ainda iniciava sua abertura econômica e buscava ampliar sua capacidade de gerenciamento de projetos espaciais.

A experiência incluiu o desenvolvimento técnico, a coordenação entre equipes e a participação em negociações internacionais. Segundo Tude, o conhecimento brasileiro em metodologia de gerenciamento de projetos teve papel importante naquele trabalho conjunto.

Posteriormente, ele entrou no mercado de telefonia móvel durante o período de preparação das licitações da banda B e da expansão das redes celulares no país. Atuou em projetos de planejamento de cobertura e implantação de redes em diferentes estados, em uma fase marcada pela rápida ampliação da telefonia móvel brasileira.

Essa etapa antecedeu sua participação na criação da Pegasus Telecom, empresa que atuou na construção de uma rede de fibra óptica entre Rio de Janeiro e São Paulo voltada principalmente ao mercado corporativo.

A experiência permitiu acompanhar de perto os desafios técnicos das primeiras redes ópticas de longa distância, incluindo problemas relacionados à qualidade dos cabos, emendas, infraestrutura urbana e ausência de uma regulamentação mais estruturada para o uso dos postes.

A criação da Teleco

A Teleco foi criada no início dos anos 2000 por Eduardo Tude e outros profissionais que já haviam trabalhado juntos em projetos de telecomunicações.

O projeto nasceu com a proposta de organizar e disponibilizar informações do setor em um único portal. Naquele período, dados regulatórios e indicadores de mercado eram divulgados por diferentes fontes, mas nem sempre permaneciam acessíveis ou organizados de maneira simples.

A empresa adotou como princípio manter o conteúdo do portal aberto ao público. Com o tempo, a Teleco se tornou uma referência para profissionais, empresas e instituições que buscavam dados sobre o mercado brasileiro de telecomunicações.

Paralelamente, a empresa desenvolveu uma operação de consultoria voltada a projetos técnicos, regulatórios, estratégicos e econômicos.

Ao longo dos anos, a Teleco participou de estudos relacionados a redes de fibra, conectividade regional, infraestrutura pública, MVNOs, data centers, auditorias técnicas, valuation e operações de M&A.

Tude também destacou a importância da renovação constante para a continuidade da empresa. Em mais de duas décadas, a Teleco atravessou diferentes ciclos de clientes, tecnologias e demandas de mercado.

Projetos de conectividade e infraestrutura

Uma parte relevante da atuação da Teleco ocorreu em projetos de conectividade pública e de desenvolvimento de infraestrutura.

Entre os trabalhos mencionados no episódio estão estudos para a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, a RNP, incluindo análises ligadas ao cabo submarino EllaLink e ao programa Norte Conectado.

No caso do Norte Conectado, a Teleco participou do estudo de mercado e da formulação de um modelo de consórcio aberto. A proposta buscava criar uma estrutura capaz de sustentar a operação após o investimento inicial do poder público.

A empresa também trabalhou em estudos de conectividade para regiões da Amazônia, incluindo o Alto Solimões. Tude relembrou o cenário encontrado em Tabatinga antes da ampliação das redes de alta capacidade na região.

Naquele momento, o acesso à internet era limitado, caro e dependente de soluções de baixa capacidade. Mesmo assim, provedores locais já haviam construído redes de fibra dentro do município, aguardando a chegada de uma conexão de longa distância que permitisse ampliar a qualidade do serviço.

A Teleco ainda participou de projetos financiados por organismos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, em estados como Pará, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Esses estudos envolveram análise de mercado, viabilidade econômica, impacto social e planejamento de infraestrutura.

M&A, regulação e auditorias técnicas

Outro campo importante da atuação de Eduardo Tude e da Teleco foi o apoio técnico a operações de investimento e aquisição no setor.

A empresa participou de auditorias técnicas em diferentes operações envolvendo provedores, operadoras e investidores. Entre os casos mencionados estão análises relacionadas à Americanet, Vero, Algar e Globenet.

Esses trabalhos envolvem avaliação de redes, sistemas, processos, ativos, capacidade operacional e riscos técnicos.

A Teleco também desenvolveu uma atuação relevante na área regulatória, apoiando empresas no relacionamento com a Anatel e em discussões relacionadas à classificação de serviços, tributação e obrigações regulatórias.

No episódio, Tude relatou situações em que diferentes órgãos públicos apresentavam interpretações divergentes sobre telecomunicações e serviços de valor adicionado. Esse tipo de conflito pode gerar insegurança jurídica e aumentar a complexidade operacional das empresas.

A organização e divulgação de dados também contribuíram para melhorar a qualidade das informações disponíveis no setor. Segundo Tude, profissionais da própria Anatel reconhecem a contribuição da Teleco na sistematização de indicadores e no estímulo à evolução das bases regulatórias.

Inteligência artificial e redes mais autônomas

Ao analisar os próximos ciclos das telecomunicações, Tude apontou a inteligência artificial como uma das principais forças de transformação.

Na visão apresentada durante o episódio, a IA terá aplicações tanto dentro das operadoras quanto nos serviços oferecidos aos clientes.

Internamente, ela poderá ampliar a automação das redes, apoiar a identificação de falhas, melhorar a alocação de recursos e permitir respostas mais rápidas a mudanças no tráfego.

Na relação com os usuários, a tendência é que a conectividade se torne mais personalizada. Em vez de oferecer apenas uma capacidade fixa de conexão, as redes poderão adaptar qualidade, latência e prioridade de acordo com cada aplicação.

Esse movimento pode ganhar relevância em videoconferências, jogos, aplicações corporativas, serviços críticos e soluções baseadas em agentes de inteligência artificial.

Tude também destacou o crescimento do edge computing, especialmente dentro das empresas. A necessidade de menor latência, maior controle sobre os dados e redução dos custos de processamento pode estimular a instalação de infraestrutura computacional mais próxima das aplicações.

Nesse contexto, as operadoras buscam ampliar sua atuação para além da conectividade tradicional. O objetivo é oferecer também serviços de nuvem, processamento, armazenamento e infraestrutura computacional.

O papel das operadoras e dos provedores regionais

A entrevista também abordou a diferença de posicionamento entre grandes operadoras e provedores regionais.

As operadoras nacionais possuem maior capacidade financeira, presença em diferentes países e acesso a tecnologias móveis. Por isso, conseguem avançar com mais facilidade em áreas como nuvem, plataformas digitais, inteligência artificial e integração entre serviços fixos e móveis.

Os provedores regionais, por outro lado, construíram sua força com base no conhecimento local, na proximidade com o cliente e na atuação em municípios que nem sempre são prioritários para as grandes empresas.

Tude observou que as operadoras concentram sua atuação principalmente em cidades maiores. Municípios pequenos e médios continuam sendo atendidos majoritariamente por empresas regionais.

Esse fator reduz a probabilidade de o mercado brasileiro de banda larga fixa se concentrar em uma única rede nacional. Na avaliação apresentada no episódio, a estrutura pode se aproximar mais de setores como supermercados e farmácias, nos quais redes regionais fortes convivem em diferentes áreas do país.

A discussão sobre fusões e aquisições também apareceu no episódio. Diversas empresas receberam investimentos de fundos e ampliaram sua escala, mas a saída desses investidores pode ser complexa.

Operações de fusão entre grandes provedores envolvem desafios de integração, governança, valuation e estratégia. As aquisições menores, voltadas à complementação regional, tendem a continuar ocorrendo com maior frequência.

MVNOs e a importância do nicho

O mercado de MVNOs foi outro tema central da conversa.

Tude explicou que o mercado móvel é naturalmente concentrado porque depende de um recurso escasso: o espectro. Na maioria dos países, o setor opera com duas, três ou quatro grandes redes.

As MVNOs encontram espaço ao atender públicos específicos com uma proposta mais adequada do que a oferecida pelas operadoras tradicionais.

O primeiro avanço relevante ocorreu no segmento de IoT, principalmente pela capacidade de oferecer sistemas mais flexíveis para ativação, controle e gestão de chips.

Agora, o modelo também cresce no mercado de pessoas.

A diferenciação pode ocorrer por comunidade, marca, relacionamento, distribuição ou integração com outros serviços. Tude citou o exemplo de uma MVNO regional próxima a Barcelona que utiliza atendimento em catalão, apoia iniciativas locais e constrói uma identidade diretamente ligada à comunidade.

Também existem modelos baseados em ecossistemas, como empresas de varejo e serviços financeiros que integram conectividade aos seus aplicativos e programas de relacionamento.

Nesses casos, a telecomunicação funciona como uma extensão da oferta principal da empresa.

Starlink, satélite e os limites do custo por bit

A expansão da Starlink e das constelações de baixa órbita também recebeu atenção especial.

Tude explicou que o satélite tem aplicações importantes em áreas rurais, regiões isoladas, mobilidade e locais onde redes terrestres não estão disponíveis.

Ao mesmo tempo, a tecnologia possui limitações de capacidade.

O satélite funciona como uma célula móvel em movimento. A quantidade de usuários atendidos em uma área influencia diretamente o desempenho da conexão.

Por isso, em cidades com alta concentração de assinantes, a capacidade pode se esgotar.

O episódio também apresentou uma comparação econômica entre fibra, rede móvel e satélite. O custo por bit da fibra é inferior ao da rede móvel, que, por sua vez, é inferior ao do satélite.

Essa diferença ajuda a explicar por que a banda larga fixa continua relevante mesmo com a expansão das redes móveis e das soluções espaciais.

Tude destacou que o principal fator que viabilizou a Starlink não foi a invenção do satélite de órbita baixa, mas a redução do custo de lançamento.

A possibilidade de colocar muitos satélites em órbita por um custo menor permitiu construir constelações com milhares de unidades. A redução da vida útil esperada também permitiu utilizar componentes comerciais em vez de equipamentos desenvolvidos para permanecer décadas no espaço.

D2D, NTN e integração entre redes

A conexão direta entre satélites e smartphones, conhecida como D2D, também foi analisada.

As primeiras aplicações estão concentradas em mensagens, localização e serviços de emergência. Para ampliar essa capacidade, ainda será necessário desenvolver padrões técnicos, sistemas de cobrança, integração entre operadoras e regras de uso do espectro.

Tude indicou que o caminho mais provável envolve parcerias entre empresas de satélite e operadoras móveis.

O espectro continua sendo o principal recurso limitante. Em regiões onde a rede terrestre não possui cobertura, frequências das operadoras podem ser utilizadas para complementar o serviço por satélite.

A padronização por meio das redes não terrestres, ou NTN, poderá facilitar essa integração nos próximos anos.

Mesmo assim, a transformação em um serviço massivo ainda depende de evolução tecnológica, acordos comerciais e decisões regulatórias.

5G, 6G e conectividade personalizada

Na avaliação de Tude, o 5G estabeleceu uma nova arquitetura de núcleo de rede, mas a adoção completa ainda enfrenta limitações relacionadas à disponibilidade de espectro e à implantação de redes standalone.

O 6G deverá aprofundar tendências já iniciadas, principalmente automação, inteligência artificial e personalização dos serviços.

A expectativa apresentada no episódio não é de uma ruptura semelhante às transições anteriores entre gerações móveis, mas de uma evolução contínua.

As redes devem se tornar mais integradas, autônomas e capazes de compreender melhor o contexto de cada usuário.

Além da conectividade, as operadoras poderão oferecer informações de localização, qualidade sob demanda, prioridade de tráfego e capacidade computacional.

O Brasil na economia dos data centers

O posicionamento do Brasil na expansão global dos data centers também foi discutido.

Tude destacou que o país possui redes móveis e fixas avançadas, forte conexão internacional por cabos submarinos e uma posição relevante na América do Sul.

Fortaleza consolidou-se como um polo de conectividade devido à concentração de cabos submarinos. Outros estados do Nordeste e do Norte também buscam atrair novos investimentos em infraestrutura digital.

A disponibilidade de energia renovável, especialmente eólica, amplia a competitividade dessas regiões.

No entanto, a atração de grandes data centers representa apenas uma parte do desafio. Também será necessário melhorar a integração dessa infraestrutura com redes regionais, empresas e usuários.

A qualidade dos backbones de longa distância aparece como um ponto de atenção.

O Brasil possui uma quantidade expressiva de redes aéreas, principalmente no Norte e no Nordeste. Embora esse modelo reduza custos, ele pode apresentar maior vulnerabilidade a queimadas, acidentes, condições climáticas e falhas físicas.

Para atender aplicações críticas e data centers de grande porte, será necessário ampliar a resiliência, a redundância e a qualidade dessas rotas.

Atualização constante como base da carreira

Ao final da conversa, Eduardo Tude resumiu um dos principais aprendizados acumulados em 48 anos de telecomunicações.

O setor combina rápida evolução tecnológica com mudanças frequentes no mercado. Empresas e profissionais que deixam de acompanhar essas transformações correm o risco de perder relevância.

Para Tude, as oportunidades aparecem justamente nos períodos de mudança.

Sua própria trajetória reflete esse princípio. Satélites, telefonia móvel, fibra óptica, consultoria, dados, regulação, MVNOs, data centers e inteligência artificial fizeram parte de diferentes etapas de uma carreira construída dentro das principais transformações das telecomunicações brasileiras.

O episódio do Last Mile Podcast registra uma parte importante dessa história e oferece uma leitura ampla sobre os desafios que continuam moldando o setor.

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