Em conversa com Mateus Gomes no Last Mile Tech & Business, Gabriel relembra a evolução do IT Forum, a construção do ecossistema Itaqui e analisa o impacto da inteligência artificial nas empresas
Poucas empresas conseguem atravessar mais de três décadas em um mercado tão sujeito a mudanças quanto o de tecnologia mantendo relevância. A história do IT Forum mostra que essa continuidade esteve ligada menos à preservação de um formato e mais à capacidade de perceber mudanças, abandonar modelos que ainda geravam receita e reconstruir a proposta de valor ao redor do que o mercado demandava.
No quarto episódio do Last Mile Tech & Business, conduzido por Mateus Gomes, Gabriel Meirelles, CEO do Distrito Itaqui, contou parte dessa trajetória e apresentou a visão que hoje sustenta o ecossistema formado ao redor do IT Forum.
A conversa percorreu a origem do grupo na mídia impressa, o desenvolvimento dos eventos corporativos, a importância do relacionamento no mercado B2B, as decisões tomadas durante a pandemia, a criação do Itaqui e, mais recentemente, a adoção da inteligência artificial pelas empresas.
Uma história que começou na mídia impressa
A origem do IT Forum remonta ao início da década de 1990. Em 1991, Adelson de Sousa e Miguel Petrilli trouxeram ao Brasil a revista Byte, publicação internacional especializada em tecnologia. A operação brasileira chegou a alcançar relevância expressiva dentro da rede mundial da revista e abriu caminho para a construção de uma empresa de mídia especializada. Posteriormente, a Byte foi vendida à Editora Globo e o grupo desenvolveu a IT Mídia, responsável por diferentes publicações e marcas ligadas ao setor de tecnologia.
Segundo Gabriel, a percepção de que havia uma oportunidade maior no mercado corporativo surgiu ainda naquele período.
A empresa começou a observar que fornecedores de tecnologia e grandes compradores corporativos tinham necessidade de espaços mais estruturados de relacionamento. A mídia poderia informar esse público, mas havia outra oportunidade: aproximar quem comprava tecnologia de quem desenvolvia e vendia tecnologia.
Essa percepção ajudou a originar os eventos do IT Forum.
O primeiro IT Forum enquanto evento foi realizado em 1999, na Bahia. A proposta já carregava uma característica que permanece no modelo atual: retirar executivos do ambiente tradicional das grandes capitais e criar um período mais longo de convivência, conteúdo e relacionamento.
A lógica parecia simples, mas era incomum para aquele momento.
No mercado B2B Enterprise, explicou Gabriel, grandes contratos raramente dependem somente de uma apresentação comercial. Eles exigem relacionamento, frequência, presença, confiança e proximidade entre as pessoas envolvidas na tomada de decisão.
Foi a partir dessa leitura que os eventos ganharam espaço dentro do negócio.
Quando relacionamento vira parte do modelo de negócio
A origem dessa estratégia aconteceu de maneira quase informal.
Nas grandes feiras de tecnologia realizadas em São Paulo na década de 1990, a então empresa de mídia mantinha estandes para divulgar suas publicações. Os clientes também estavam nesses eventos como expositores.
Ao final das programações, Adelson de Sousa, Miguel Petrilli e a equipe começaram a organizar encontros e jantares entre esses executivos.
Negócios começaram a surgir dessas interações.
A empresa percebeu que poderia estruturar aquilo que inicialmente funcionava como uma ação de relacionamento e transformá-lo em uma entrega própria.
Essa característica ajuda a explicar a permanência dos eventos presenciais mesmo após a expansão das redes sociais, videoconferências e plataformas digitais.
Para Gabriel, a experiência da pandemia reforçou essa percepção. O ambiente digital consegue entregar conteúdo, reuniões e determinadas formas de interação com enorme eficiência. Ainda assim, o relacionamento necessário para negócios corporativos complexos continua encontrando no contato presencial uma dinâmica difícil de reproduzir integralmente por uma plataforma.
Hoje, o próprio ecossistema Itaqui define comunidade e relacionamento como um dos seus eixos de atuação, conectando empresas, talentos e lideranças para estimular colaboração, parcerias e negócios.
A decisão de abandonar um modelo que ainda dava dinheiro
Uma das partes mais relevantes da trajetória relatada por Gabriel ocorreu quando a mídia impressa ainda representava mais da metade do faturamento da companhia.
Mesmo com receita relevante proveniente das revistas, a liderança entendia que o comportamento do mercado estava mudando.
A decisão foi reduzir a dependência daquele modelo antes que a transformação estivesse concluída.
Gabriel definiu decisões como essa a partir da lógica de trade-off: uma escolha estratégica verdadeira normalmente envolve abrir mão de alguma coisa. Se nenhuma renúncia é necessária, dificilmente existe uma mudança real na direção da empresa.
O grupo passou por vários desses momentos.
Primeiro, ampliou a atuação da mídia para os eventos. Depois, reduziu o peso das revistas. Também reorganizou um portfólio que reunia diferentes marcas próprias, adquiridas e licenciadas, concentrando progressivamente a construção em torno do IT Forum.
O processo ocorreu justamente quando a companhia ainda tinha negócios relevantes associados ao modelo anterior.
Gabriel também contou que a empresa havia recebido investimentos de private equity ao longo dos anos 2000. A família posteriormente recomprou essas participações e, após a conclusão desse processo, acelerou uma nova etapa de transformação.
A lógica era evitar que a própria história da companhia se transformasse em uma limitação para a próxima fase.
O resultado foi uma empresa que nasceu vinculada à mídia impressa, ganhou força em eventos e posteriormente estruturou uma plataforma baseada em mídia, dados e eventos.
A pandemia colocou o modelo à prova
Esse processo de adaptação enfrentou um dos seus maiores testes em 2020.
O principal evento do grupo acontecia tradicionalmente em abril e, segundo Gabriel, representava mais da metade da receita da companhia naquele período.
Os primeiros sinais de que havia um problema apareceram antes mesmo da paralisação generalizada no Brasil.
No começo de fevereiro daquele ano, o Google informou que não poderia participar do evento devido a uma orientação global que restringia encontros envolvendo seus colaboradores.
A empresa já mantinha um comitê de crise e acompanhava a disseminação do coronavírus. Pouco depois, tomou uma decisão diferente da adotada inicialmente por vários organizadores de eventos: em vez de transferir as datas para o segundo semestre, decidiu que não realizaria eventos presenciais em 2020.
A partir dali começou uma reconstrução completa da experiência.
Em aproximadamente 45 dias, o IT Forum realizou uma edição totalmente digital, incluindo conteúdo, entretenimento e reuniões individuais entre compradores e fornecedores.
O desafio era reproduzir no ambiente online os pilares que sustentavam a plataforma: conteúdo, relacionamento e negócios.
Para Gabriel, aquele período reforçou a importância de antecipação, planejamento de crise e capacidade de modificar rapidamente a operação quando as condições externas mudam.
Do IT Forum para o ecossistema Itaqui
A transformação mais recente amplia novamente o escopo da organização.
O Itaqui reúne iniciativas voltadas a conteúdo, relacionamento, educação, investimentos, inovação e desenvolvimento de negócios. O próprio grupo se apresenta atualmente como um ecossistema que conecta diferentes iniciativas nessas áreas.
Uma das bases continua sendo o IT Forum, responsável pela comunidade construída ao redor do mercado corporativo de tecnologia.
Outra frente é o Instituto Itaqui, cuja origem remonta a 2008 e está relacionada ao objetivo de ampliar o acesso à educação em tecnologia.
Gabriel relatou que a criação do instituto possui ligação direta com a história de seu pai. Já com a carreira empresarial consolidada, Adelson visitou pela primeira vez uma instituição de ensino superior e decidiu ampliar seu próprio investimento em educação e criar oportunidades para jovens que não haviam tido acesso semelhante.
O projeto começou apoiando jovens em situação de exclusão no ingresso ao ensino superior em tecnologia e ganhou novas dimensões posteriormente.
Entre essas iniciativas está o Eu Capacito, plataforma gratuita de capacitação ligada ao Instituto Itaqui.
O instituto atualmente mantém programas voltados à formação, pesquisa, tecnologia e liderança.
Capital brasileiro para empresas brasileiras de tecnologia
Outra frente discutida no episódio foi a IT Invest.
A iniciativa nasceu da percepção de que o ecossistema mantinha forte relacionamento com grandes compradores de tecnologia, mas havia espaço para aproximar esse mercado de empresas brasileiras em desenvolvimento.
Gabriel chamou atenção para um paradoxo: o Brasil possui grande capacidade de consumo de tecnologia, talento e criatividade, enquanto uma parcela relevante dos recursos movimentados pelo setor termina direcionada a propriedade intelectual e empresas estrangeiras.
A IT Invest foi estruturada com a intenção de participar do desenvolvimento de empresas nacionais de tecnologia, oferecendo capital e acesso ao mercado corporativo.
Hoje, a companhia se apresenta como a frente de venture e inovação estratégica do ecossistema Itaqui, com investimentos direcionados a áreas como inteligência artificial e automação, SaaS B2B, produtividade corporativa, cidades inteligentes, saúde, sustentabilidade e educação.
Um distrito de tecnologia dentro da Mata Atlântica
O Distrito Itaqui acrescenta uma dimensão física ao projeto.
Localizado em Itapevi, na Grande São Paulo, o espaço foi concebido para reunir empresas, executivos, educação, inovação e natureza dentro de um mesmo território.
Na entrevista, Gabriel explicou que sua família começou a adquirir áreas de Mata Atlântica na região em 2004 e que o projeto hoje ocupa mais de 1 milhão de metros quadrados de área preservada.
A proposta é desenvolver um distrito de inovação e tecnologia capaz de conviver com a preservação ambiental.
O Distrito também funciona como ambiente para eventos, programas educacionais, encontros corporativos e atividades das diferentes organizações ligadas ao Itaqui.
Em 2026, o próprio IT Forum apresentou essa integração entre IT Forum, Instituto Itaqui, IT Invest e Distrito Itaqui como partes de um mesmo ecossistema, no qual conteúdo, relacionamento, formação, capital e espaço físico se conectam.
Inteligência artificial: ferramenta sem contexto resolve pouco
A conversa também avançou sobre o tema que atualmente domina boa parte do mercado de tecnologia: inteligência artificial.
Gabriel acredita que a IA terá impacto profundo sobre empresas e profissionais e compara sua capacidade transformadora a outras tecnologias fundamentais que reorganizaram a economia.
Mas sua avaliação sobre a adoção empresarial foge da ideia de simplesmente contratar uma ferramenta.
Para ele, a implementação de inteligência artificial também é um processo cultural.
Empresas precisam primeiro entender por que querem utilizar IA, quais problemas desejam resolver e como suas equipes poderão incorporar essas ferramentas às atividades diárias.
Uma analogia usada durante a conversa ajuda a explicar o raciocínio.
Imagine uma empresa contratando uma das maiores consultorias do mundo. Antes de pedir recomendações, provavelmente dedicaria horas ou dias explicando o negócio, os clientes, os problemas, os números e os objetivos.
Com inteligência artificial, muitas empresas fazem exatamente o contrário.
Fornecem poucas informações e esperam respostas extremamente precisas.
Para Gabriel, a qualidade do resultado depende diretamente do contexto disponibilizado. Quanto mais a tecnologia conhece sobre a companhia, suas necessidades e seus objetivos, maior é sua capacidade de gerar algo útil.
Nem toda empresa que usa IA é uma empresa de IA
Gabriel também fez uma distinção importante diante da popularização do termo inteligência artificial no mercado.
O fato de uma empresa utilizar IA em seus processos ou produtos não significa necessariamente que ela seja uma empresa de inteligência artificial.
Uma companhia pode utilizar modelos e agentes para automatizar integrações, aumentar produtividade, desenvolver software ou melhorar uma determinada solução. Nesses casos, a IA funciona como tecnologia habilitadora.
Na visão apresentada por Gabriel, organizações como OpenAI e Anthropic estão efetivamente construindo tecnologia central de inteligência artificial. Grande parte das demais empresas utiliza essa infraestrutura para potencializar produtos e modelos de negócio.
O cuidado se torna especialmente importante diante da expectativa de que novas ferramentas eliminariam a necessidade de conhecimento técnico.
Gabriel defende a experimentação com recursos como vibe coding, inclusive dentro das próprias equipes, mas faz uma ressalva: desenvolver rapidamente uma interface ou protótipo não significa necessariamente construir um produto capaz de operar com segurança, continuidade e escala.
Arquitetura, engenharia e conhecimento técnico continuam relevantes.
A inteligência artificial acelera o desenvolvimento. Ela não substitui automaticamente os fundamentos necessários para transformar uma experiência em um produto empresarial consistente.
Antes da IA, conheça profundamente o próprio negócio
Ao final da conversa, Gabriel foi questionado sobre qual orientação daria aos empreendedores que comandam empresas estabelecidas, mas ainda utilizam menos tecnologia do que poderiam.
A resposta começou antes da tecnologia.
Conhecer profundamente a própria empresa.
Isso significa compreender clientes, ICP, produtos, operação, pontos fortes, limitações e informações acumuladas ao longo da relação com o mercado.
Também significa transformar esse conhecimento em dados organizados.
A lógica é particularmente relevante com o avanço da inteligência artificial. Modelos conseguem cruzar, interpretar e extrair informações em uma escala difícil de reproduzir manualmente, mas dependem da qualidade da base sobre a qual trabalham.
Uma empresa que registra pouco sobre seus clientes, processos e decisões limita o que conseguirá extrair dessas ferramentas.
Por isso, a organização das informações corporativas tende a ganhar importância à medida que a IA avança.
O mesmo princípio vale para a relação com clientes, fornecedores e colaboradores.
Gabriel defende uma postura aberta para ouvir onde a empresa gera valor, o que está fazendo mal e quais necessidades ainda não consegue atender.
É uma característica que também ajuda a explicar a história relatada ao longo do episódio.
A empresa que começou vendendo revistas em banca não poderia continuar operando como uma editora se quisesse acompanhar o mercado de tecnologia. Os eventos também precisaram mudar. A experiência presencial precisou ser reconstruída digitalmente durante a pandemia. E a plataforma de mídia e eventos acabou integrada a uma estrutura maior, envolvendo educação, investimento e um distrito físico de inovação.
Os formatos mudaram várias vezes.
A necessidade de entender pessoas, criar relações e acompanhar como o mercado se transforma permaneceu no centro da estratégia.
E talvez esteja justamente aí uma das principais lições dos 35 anos de história discutidos no episódio: tecnologia muda rapidamente, mas empresas continuam dependendo da capacidade de interpretar o mercado, tomar decisões antes que elas se tornem óbvias e construir relações suficientemente fortes para atravessar essas mudanças.
O episódio completo do Last Mile Tech & Business, com Mateus Gomes e Gabriel Sousa, está disponível no canal do Last Mile no YouTube.