José Roberto Nogueira, CEO e fundador da Brisanet, afirma ao Last Mile Podcast que a combinação entre espectro de capacidade e espectro de cobertura é necessária para viabilizar uma operação móvel regional sustentável
A Brisanet vê o leilão da faixa de 700 MHz como uma etapa fundamental para a continuidade da estratégia móvel dos provedores regionais. A avaliação foi apresentada por José Roberto Nogueira, CEO e fundador da Brisanet, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.
Segundo o executivo, a companhia construiu sua trajetória sem aquisições, com crescimento orgânico, projetando, construindo e operando sua própria rede. Na infraestrutura FTTH, a Brisanet está presente em uma área com cerca de 22 milhões de habitantes, possui aproximadamente 5 milhões de portas físicas e cerca de 1,57 milhão de assinantes.
No móvel, a operação começou mais recentemente. Nogueira afirmou que a companhia já se aproxima de 1 milhão de clientes e cobre cerca de 15 milhões de habitantes. Ele também destacou que a Brisanet opera uma das maiores redes 5G standalone do mundo, o 5G puro.
Apesar do crescimento, o executivo afirmou que a expansão poderia estar em ritmo mais forte. Entre as barreiras citadas está a base de celulares no Brasil, ainda muito concentrada em aparelhos 4G. Segundo ele, mais da metade dos celulares novos vendidos no país ainda funciona apenas em 4G.
Leilão de 700 MHz
Para Nogueira, isso limita a experiência dos usuários na rede 5G. Ele afirmou que cerca de 90% dos clientes móveis da Brisanet ainda estão na rede 4G, enquanto apenas uma parcela menor usa efetivamente a experiência 5G.
Um dos principais temas da entrevista foi o leilão da faixa de 700 MHz.
Nogueira voltou ao leilão de 2021 para contextualizar o tema. Segundo ele, naquele momento a Anatel fez uma inovação ao estruturar blocos regionais e abrir espaço para um modelo que permitiria a entrada de operadores regionais no móvel.
No primeiro momento, os blocos regionais tinham acesso à faixa de 3,5 GHz. Já a faixa de 700 MHz ficou, inicialmente, em disputa nacional. Segundo Nogueira, a Brisanet chegou a ter envelope para uma segunda rodada, mas um movimento de disputa elevou de forma significativa o valor do bloco.
Na leitura do executivo, o preço e os compromissos assumidos naquele momento tornaram o bloco economicamente inviável. Ele afirmou que o resultado acabou impedindo, por anos, que operadores regionais tivessem acesso à faixa de 700 MHz.
Para Nogueira, isso afetou a viabilidade das operações regionais móveis. A faixa de 3,5 GHz tem alta capacidade, mas não possui as mesmas características de cobertura e penetração indoor da faixa de 700 MHz.
2,3 GHz, 3,5 GHz e a operação da Brisanet
No Nordeste, a Brisanet arrematou blocos de 2,3 GHz e 3,5 GHz. Segundo Nogueira, a frequência de 2,3 GHz permitiu separar parte do bloco para LTE/4G e parte para 5G no mesmo equipamento. Isso viabilizou um modelo de operação que outros regionais, com apenas 3,5 GHz, não conseguiam replicar da mesma forma.
Mesmo assim, o executivo afirmou que operar sem 700 MHz exigiu um investimento mais adensado. Na prática, para cobrir a mesma área, foi necessário mais capex do que seria exigido caso a empresa tivesse também a faixa de 700 MHz.
Na avaliação de Nogueira, qualquer engenheiro de telecomunicações sabe que não é possível montar uma operação móvel regional sustentável apenas com espectro de 3,5 GHz, considerando retorno e payback. Para ele, a faixa de 700 MHz é essencial para cobertura, distância e penetração indoor.
Continuidade da política pública
Nogueira afirmou que a atuação recente da Anatel e do Ministério das Comunicações foi importante para garantir continuidade à política pública iniciada no leilão de 2021.
Segundo ele, os provedores regionais já haviam feito investimentos relevantes e assumido compromissos associados aos blocos regionais. Sem acesso ao 700 MHz, a viabilidade desses compromissos poderia ficar ameaçada.
Para o executivo, o sucesso de um leilão não deve ser medido apenas no momento da arrecadação ou da disputa. Ele só se confirma quando os compromissos são entregues e quando a política pública produz resultado concreto.
Na visão da Brisanet, o novo leilão corrige uma lacuna e permite que os regionais deem continuidade à construção de suas operações móveis.
Nogueira também afirmou que, apesar da realização do leilão, houve tentativas de interrupção e judicialização. Segundo ele, a disputa não estaria ligada apenas à necessidade de espectro por parte das grandes operadoras, mas também à resistência à entrada dos regionais como quarto competidor móvel em suas áreas de atuação.
Regionais como quarta operadora
Um dos pontos centrais da fala de Nogueira foi a ideia de que o Brasil pode ter uma quarta operadora formada pelos regionais, cada um atuando em suas respectivas regiões.
“O Brasil vai ter uma quarta operadora, que são os regionais juntos, cada um nas suas regiões”, afirmou.
Na visão do executivo, isso tende a melhorar o atendimento ao mercado e beneficiar a população. Ele também destacou que o leilão trouxe compromissos adicionais de cobertura em estradas e localidades, com impacto para população rural e usuários que circulam ao longo das rodovias.
Para Nogueira, os regionais não devem ser vistos apenas como empresas locais de fibra, mas como agentes capazes de ampliar a competição também no móvel, desde que tenham acesso a uma combinação adequada de espectro.
Expansão no Centro-Oeste
A entrevista também abordou a expansão da Brisanet para o Centro-Oeste.
Segundo Nogueira, desde o plano de negócios elaborado no leilão de 2021, a estratégia da empresa já previa começar pelo Nordeste e iniciar o Centro-Oeste em 2026. A decisão tinha relação com o tempo necessário para amadurecer a operação móvel, já que a companhia acumulava experiência em fibra, mas o móvel representava uma nova frente operacional.
O executivo afirmou que, em 2026, a Brisanet planeja entregar aproximadamente 115 a 120 cidades no Centro-Oeste, todas com menos de 30 mil habitantes.
A operação inicial deve se concentrar em parte de Goiás e parte do Mato Grosso do Sul, sem foco em capitais neste primeiro momento. Segundo Nogueira, o cronograma segue os compromissos previstos no plano original.
Planejamento de espectro para o futuro
Nogueira também comentou a importância do planejamento de espectro para os próximos anos.
Segundo ele, a Brisanet participa de eventos e consultas públicas sobre o tema para contribuir com a Anatel no planejamento futuro. Para o executivo, decisões sobre espectro não podem ser pensadas apenas para dois ou três anos, mas para horizontes de 10, 15 ou 20 anos.
Ele afirmou que qualquer faixa a ser leiloada precisa fazer parte do ecossistema global definido pelo padrão 3GPP. Ou seja, não faria sentido um país isolar uma faixa sem escala internacional de equipamentos, terminais e aplicações.
Debate sobre 6 GHz
Nogueira também citou a discussão sobre a faixa de 6 GHz.
Segundo ele, a Brisanet defendeu uma divisão da faixa. A visão apresentada pelo executivo é que parte do espectro deveria ser destinada ao mundo móvel 3GPP e parte ao Wi-Fi.
Ele mencionou a faixa de 6 GHz como uma possível fronteira final para espectro móvel com capacidade de chegar a dispositivos em distâncias da ordem de algumas centenas de metros. Acima dessa frequência, segundo ele, a penetração passa a ser mais prejudicada.
Na proposta defendida pela Brisanet, 700 MHz da faixa de 6 GHz seriam destinados ao móvel e 500 MHz ao Wi-Fi. Para Nogueira, os 500 MHz para Wi-Fi ajudariam a resolver a demanda dos últimos metros dentro da residência, especialmente com a chegada do Wi-Fi 7 e sua maior eficiência espectral.
Uso efetivo do espectro
Outro ponto defendido por Nogueira foi a necessidade de uso efetivo das frequências leiloadas.
Segundo ele, quem adquire espectro precisa colocar a faixa em operação. Para o executivo, não pode haver bloco de frequência ocioso ou desperdiçado.
Ele afirmou que, a partir da entrada dos regionais no leilão de 2021, não faz sentido tratar a operação móvel regional como uma experiência temporária ou limitada. Na visão dele, quem entrou nesse mercado precisa ter condições de continuidade e acesso a espectro nos próximos ciclos.
Nogueira também afirmou que o mundo móvel terá uma necessidade crescente de capacidade nos próximos anos, especialmente com novas tecnologias e aumento do volume de dados entre dispositivos e torres.
Para ele, o espectro disponível hoje será insuficiente para atender à demanda futura. Por isso, a Brisanet pretende seguir participando das discussões para contribuir com decisões de longo prazo.
Fibra e móvel
Ao final da entrevista, Nogueira reforçou que o setor de telecomunicações precisa continuar fortalecido e que os provedores regionais já fizeram muito pelo Brasil.
Segundo ele, algumas empresas seguirão focadas em fibra, enquanto outras, como a Brisanet, avançam em dois movimentos: fibra e móvel.
A entrevista mostra que, para a Brisanet, o móvel não é uma aposta isolada, mas uma extensão estratégica da atuação regional da companhia. A combinação entre fibra, 5G standalone, espectro de capacidade e espectro de cobertura forma a base da visão da empresa para competir em novas camadas do mercado.
A entrevista completa com José Roberto Nogueira está disponível no Last Mile Podcast.