Construímos a infraestrutura juntos. A inclusão digital exige o mesmo modelo.

Por Victor Arnaud – presidente da Equinix brasilPor que iniciativas isoladas terão impacto limitado e o que o ecossistema precisa decidir junto.

A infraestrutura digital do Brasil viveu uma década de expansão acelerada. Mais data centers. Mais capacidade. Mais conectividade. Mais investimento. E agora, com a inteligência artificial, mais demanda do que nunca.

Mas há uma camada dessa transformação que não aparece nos slides de capacidade instalada: a do acesso humano à economia que estamos construindo.

O FGV IBRE mapeou 30 milhões de ocupações no Brasil expostas à IA generativa, com 5 milhões já em alta exposição. Mulheres e jovens lideram esse grupo. E quase metade dos empregos que poderiam se beneficiar da IA é travada pela falta de acesso a tecnologias digitais e infraestrutura adequada. O gargalo não começa na qualificação; começa antes: na falta de conexão à internet, dispositivos adequados e estabilidade básica para aprender.

Esse dado deveria parar a conversa do setor por um momento.

Estamos construindo a infraestrutura mais sofisticada da história econômica brasileira ao mesmo tempo em que metade do país pode ficar de fora dela. Não por falta de capacidade, mas por falta de acesso.

O alicerce digital chegou aqui através de uma combinação de regulação, investimento privado e mecanismos de cooperação setorial que foram amadurecendo ao longo de três décadas. Não foi simples. Não foi linear. Mas funcionou, e hoje o Brasil tem uma das malhas de conectividade mais robustas da região. A inclusão humana nessa economia, contudo, ainda não tem nada parecido.

O padrão que se repete
Em “Open to Work”, Ryan Roslansky e Aneesh Raman fazem um exercício histórico que ficou comigo. Cada revolução tecnológica enfrentou a mesma acusação: usar a nova ferramenta é trapaça. Escribas achavam que a imprensa acabaria com o aprendizado. A calculadora foi proibida em provas porque “a pessoa precisa saber calcular”. Pesquisar no Google era visto como preguiça intelectual. A IA é só o capítulo mais recente dessa história.

Mas o livro também traz um ponto que merece atenção do setor: cada uma dessas revoluções criou enormes ganhos agregados e, por outro lado, profundas desigualdades de acesso. O Fórum Econômico Mundial projeta 170 milhões de novos empregos criados globalmente até 2030, com 92 milhões deslocados — um saldo líquido positivo de 78 milhões. Além disso, o MIT documenta que 60% dos empregos de 2018 não existiam em 1940.

A tecnologia sempre criou mais do que destruiu. Mas esse dado agregado oferece pouco conforto para quem perde o emprego na segunda-feira. E oferece ainda menos para quem nunca chegou a ter um.

O mesmo relatório do WEF traz um dado que deveria circular mais: se o mundo fosse representado por 100 trabalhadores, 59 precisariam de requalificação até 2030. Desses, 11 provavelmente não receberão o treinamento necessário. O relatório não nomeia quem são esses 11. Não precisa. São os que já estavam fora antes de a IA chegar.

O que o setor de infraestrutura tem a ver com isso
A infraestrutura digital é o substrato físico da economia da IA. Sem data center, sem rede, sem capacidade computacional, nenhuma das transformações que estamos discutindo acontece. Mas a tecnologia sozinha não basta. Ela precisa estar conectada a pessoas preparadas para operá-la, mantê-la, expandi-la e usá-la para gerar valor.

O Fórum Econômico Mundial confirma: 63% dos empregadores identificam a falta de habilidades como a maior barreira para a transformação de negócios. O gargalo não é técnico; é gente preparada. E qualificar pessoas em escala não é tarefa de uma empresa, de um governo ou de uma ONG isoladamente. É uma missão do ecossistema.

O que está sendo feito — e por que ainda não é suficiente
Assumi a posição de conselheiro da Equinix Foundation com essa convicção já formada. A fundação trabalha exatamente nessa lacuna: cria caminhos reais de formação, acesso e inclusão digital para quem ficaria de fora da nova economia.

Recentemente, lançamos no Brasil uma coalizão global para formação de profissionais em data centers, em parceria com ODATA, Cisco, Vertiv e a Generation — organização que já formou mais de 150 mil pessoas em 17 países. As primeiras turmas começam em junho. O modelo deverá se expandir globalmente até 2027. Trabalhamos também com a Escola da Nuvem, que capacita profissionais brasileiros em computação em nuvem com foco em empregabilidade real.

Globalmente, a Equinix Foundation atua com mais de 60 organizações sem fins lucrativos. Desde a Giga — iniciativa da ONU e do UNICEF que pretende conectar todas as escolas do planeta à internet até 2030 — até a World Pulse, que capacita mulheres em mais de 200 países, e o BigHope, no Texas, que prepara crianças para carreiras técnicas.

Cada uma tem seu mérito próprio. Mas todas, juntas, ainda são uma fração do que o desafio exige.

A verdade que o setor precisa encarar é que soluções isoladas, por mais bem desenhadas que sejam, continuarão tendo um alcance restrito diante da escala do problema. Estamos falando de milhões de brasileiros. Não vai ser uma única empresa, fundação ou programa que vai resolver isso.

O que precisa estar na mesa
A inclusão humana nesta nova era ainda não tem nada parecido com o modelo que criamos para a infraestrutura física. E enquanto não tiver, vamos continuar produzindo ações pontuais enquanto a desigualdade de acesso se amplia em silêncio.

A construção desse modelo passa por três frentes que só funcionam em conjunto:

O setor privado precisa enxergar a formação como investimento na própria base de talentos, e não como custo.

O governo precisa tratar o acesso digital como infraestrutura básica, e não como benefício social.

O terceiro setor precisa operar com a urgência e a escala que o momento exige, sendo tratado como parte do desenho estratégico, e não como mero executor de programas terceiros.

Nenhuma dessas frentes resolve o problema sozinha. E nenhuma pode esperar a outra começar. Precisamos parar de tratar a inclusão digital como uma pauta secundária da agenda do setor. Ela está no centro dela.

O que falta
Talento existe em todo lugar. Oportunidade, não.

O custo real de não agir não está nas planilhas de RH. Está nas pessoas com capacidade de inovar que nunca chegam ao ambiente onde esse potencial poderia se desenvolver. Sem referência, sem mentoria e sem chance, o talento vira nada. E não estamos falando de exceções; estamos falando de milhões de cidadãos.

Isso não é um problema social descolado dos negócios. É um desafio estratégico para qualquer empresa que pretenda crescer na economia digital brasileira nos próximos dez anos.

Desta vez, sabemos exatamente o que vem pela frente. O WEF mapeou. O MIT documentou. A FGV colocou rosto no problema dentro do Brasil. O “Open to Work” mostrou que ainda há tempo. O que falta não é informação. É uma decisão tomada em conjunto, com objetivos compartilhados e responsabilidade mútua.

Caso contrário, iniciativas isoladas continuarão aquém da escala que o país exige.

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