Em conversa no Last Mile Podcast, fundador da Surf Telecom revisita mais de três décadas de mercado, relembra a evolução da conectividade no Brasil e defende que tecnologia só faz sentido quando simplifica a vida das pessoas
O episódio do Last Mile com Yon Moreira, fundador e CEO da Surf Telecom, foi menos uma entrevista sobre uma empresa específica e mais uma travessia por diferentes momentos da telecomunicação brasileira. Ao longo da conversa, Yon falou sobre sua trajetória profissional, sua passagem por grandes empresas do setor, a experiência internacional em Angola, a criação da Surf, o mercado de MVNO, o papel dos provedores regionais, a conectividade em comunidades, a regulação, o avanço do IoT e a forma como ele enxerga o Brasil dentro do cenário global de tecnologia e infraestrutura.
Yon chegou ao setor de telecomunicações no fim dos anos 1980, depois de uma trajetória ligada a áreas técnicas e científicas, incluindo processamento, engenharia e projetos associados a simulações e desenvolvimento tecnológico. Na entrevista, ele relembrou que sua entrada em telecom não foi algo planejado desde o início, mas acabou se transformando no centro da sua vida profissional. Passou por empresas como Siemens, Ericsson, Brasil Telecom e Telefônica, em um período em que o Brasil ainda lidava com limitações muito básicas de conectividade e telefonia.
Um dos pontos mais interessantes da conversa foi justamente a comparação entre o Brasil de algumas décadas atrás e o Brasil conectado de hoje. Yon lembrou que, na década de 1970, uma ligação telefônica entre Manaus e São Paulo podia levar dias para ser completada. O exemplo ajuda a dimensionar a velocidade com que o país avançou. Em poucas décadas, o Brasil saiu de uma realidade em que uma chamada interurbana era um desafio operacional para um mercado com redes de fibra espalhadas por milhares de cidades, provedores regionais altamente competitivos, internet móvel massificada e novas camadas de serviços digitais chegando à vida cotidiana.
A história pessoal de Yon também atravessa alguns marcos importantes dessa evolução. Ele contou, por exemplo, sobre os primeiros movimentos ligados à banda larga e à internet grátis no Brasil. Um dos episódios citados foi a instalação de um dos primeiros acessos ADSL na casa de sua mãe. A decisão, segundo ele, tinha uma lógica simples: se uma pessoa comum conseguisse usar o serviço sem depender de conhecimento técnico, então a tecnologia estava no caminho certo. Essa visão apareceu várias vezes ao longo da entrevista. Para Yon, telecom não pode ser pensada apenas pelo lado da engenharia, do espectro, do core, da fibra ou do chip. No fim, a tecnologia precisa funcionar de um jeito simples para quem está na ponta.
Essa defesa da simplicidade também apareceu quando ele falou sobre conteúdo e rede. Ao recordar a época da internet grátis, Yon explicou que a rede, sozinha, não era suficiente. Era preciso conteúdo, uso, aplicação e sentido para o consumidor. Ao mesmo tempo, ele fez uma separação importante entre os papéis de cada agente. Na visão dele, rede e conteúdo são atividades diferentes, e misturar essas duas frentes exige cuidado. Essa leitura também apareceu no debate sobre fair share, tema recorrente no setor, em que operadores de rede questionam o uso intensivo de infraestrutura por grandes plataformas digitais. Yon foi direto ao afirmar que o provedor já é remunerado pelo acesso e que, se a conta não fecha, a discussão principal deveria passar por preço, modelo de negócio e capacidade de sustentar valor junto ao cliente.
Outro bloco forte da entrevista foi a experiência de Yon em Angola. Ele assumiu a Movicel em um país ainda marcado por cicatrizes profundas de guerra civil e encontrou uma realidade muito diferente da brasileira. Segundo ele, liderar uma operação naquele contexto envolvia mais do que implantar rede, organizar equipes ou disputar mercado. Era preciso reconstruir confiança, formar pessoas, lidar com histórias de sobrevivência e atuar em um ambiente em que a infraestrutura carregava também uma dimensão social e institucional muito relevante. Yon contou que participou da implantação do primeiro 4G em Angola antes mesmo do Brasil e que a experiência mudou sua forma de enxergar problemas, liderança e responsabilidade.
A passagem por Angola também ajuda a explicar uma característica presente em toda a entrevista: a recusa em tratar desconfortos cotidianos como grandes problemas. Logo no início da conversa, Yon comentou que não costuma reclamar de coisas pequenas porque sabe o que é problema de verdade. Essa visão não apareceu como pose ou discurso motivacional. Ela veio conectada a uma vivência concreta em um país que enfrentou guerra, reconstrução e desigualdades profundas. Ao falar dessa fase, ele também destacou o quanto aprendeu com a população local, com as histórias de superação e com profissionais que, mesmo em condições difíceis, buscaram formação e crescimento.
A Surf Telecom nasceu depois desse acúmulo de experiências. Yon contou que a empresa começou a ser estruturada após a regulamentação das MVNOs no Brasil e que os primeiros anos foram de muita insistência. Segundo ele, entre 2013 e 2017, houve um período longo de investimento sem entrada relevante de receita. Esse trecho da conversa é importante porque mostra uma parte pouco glamourosa do empreendedorismo em telecom: antes de escalar uma operação, fechar parcerias, construir plataforma e atender milhões de usuários, existe uma fase de risco, incerteza e desgaste financeiro. Yon relatou que colocou dinheiro próprio, vendeu patrimônio e precisou sustentar a tese por anos antes de ver a operação ganhar tração.
Hoje, a Surf Telecom atua como uma plataforma de telecomunicações voltada principalmente ao modelo de MVNO e private label. Na prática, a empresa oferece a estrutura para que marcas, empresas, provedores e parceiros possam disponibilizar serviços móveis aos seus públicos sem construir uma operadora do zero. Yon comparou o modelo ao funcionamento de cartões de crédito de varejo, em que muitas vezes o consumidor se relaciona com uma marca conhecida, mas existe uma instituição financeira por trás da operação. Na telecom, a lógica é semelhante: uma marca pode conhecer melhor seu cliente, sua comunidade ou seu nicho, enquanto uma plataforma especializada viabiliza a operação móvel.
Esse ponto levou a uma discussão importante para provedores regionais. O mercado de ISPs tem olhado cada vez mais para o móvel como alternativa de portfólio, fidelização e competitividade. Yon reconhece o potencial, mas evita tratar o MVNO como solução automática para todos. O conselho dele foi de prudência. Segundo ele, o provedor deve ter cuidado ao assinar cheques, abrir novas frentes e investir em produtos que não domina. Para Yon, o acesso fixo continua sendo um grande negócio quando bem executado, e a diversificação precisa fazer sentido dentro da relação que o provedor já tem com o cliente.
Ao mesmo tempo, ele vê espaço para o móvel quando o serviço entra como complemento natural da operação regional. O provedor conhece o cliente pelo nome, atende de perto, entende o território, resolve problemas com agilidade e tem uma relação de confiança que grandes operadoras dificilmente conseguem reproduzir em escala nacional. Nessa lógica, oferecer móvel, conta única, suporte local e uma experiência mais integrada pode fortalecer o vínculo com o assinante. Mas o ponto central, para Yon, é não perder o básico. Antes de empilhar produtos no portfólio, o provedor precisa entregar bem aquilo que já vende.
Essa visão também apareceu quando o assunto foi Wi-Fi. Yon observou que, em alguns mercados, empresas de banda larga já se apresentam menos como fornecedoras de fibra e mais como empresas de Wi-Fi. A diferença parece pequena, mas muda a forma de enxergar o cliente. O consumidor não compra tecnologia pela tecnologia. Ele quer internet funcionando dentro de casa, nos cômodos certos, com estabilidade, atendimento e previsibilidade. Para o provedor regional, isso abre uma discussão relevante: muitas vezes, o valor percebido pelo cliente está menos na velocidade nominal contratada e mais na experiência real dentro da residência.
A entrevista também passou por iniciativas sociais da Surf. Yon afirmou que a empresa atua com internet grátis em comunidades como Rocinha, Paraisópolis, Sapopemba, Jardim Panorama, Osasco e Heliópolis. Ao tratar desse tema, ele fez questão de evitar uma leitura simplista sobre favelas e periferias. Para ele, conectividade em comunidades precisa ser pensada a partir de confiança local, associações, lideranças e pessoas que conhecem a realidade do território. O objetivo, segundo ele, é ampliar oportunidades para quem muitas vezes não teve acesso a educação, informação, renda ou canais básicos de comunicação.
Esse tema se conecta com uma ideia recorrente na conversa: tecnologia sem propósito perde parte do sentido. Yon repetiu, em diferentes momentos, que a conectividade deve melhorar a vida das pessoas. Essa afirmação poderia soar genérica em outro contexto, mas ganha peso quando aparece associada a exemplos concretos: internet grátis, banda larga em casa de usuário comum, chip para públicos de menor renda, microcrédito, comunidades, IoT para reduzir desperdício e serviços móveis adaptados a diferentes realidades.
No debate sobre IoT, Yon também trouxe uma visão prática. Em vez de começar por aplicações futuristas, ele falou de ar-condicionado, geladeira, televisão, lâmpadas, desperdício de energia e desperdício de água. Para ele, o Brasil precisa pensar IoT em escala muito maior, com baixo custo e foco em problemas simples. A casa conectada, nessa leitura, não deveria ser apenas um produto sofisticado para poucos consumidores, mas uma infraestrutura capaz de medir, controlar e reduzir desperdícios em milhões de ambientes. A oportunidade não estaria apenas em conectar máquinas industriais ou grandes operações, mas em levar inteligência para objetos comuns do cotidiano.
A regulação foi outro tema presente. Yon defendeu que telecom é um setor que precisa de organização, padronização e algum nível de controle, justamente porque envolve infraestrutura crítica, espectro, interconexão, competição e direitos do consumidor. Ao comentar o mercado brasileiro, avaliou que a Anatel teve papel importante ao permitir que a banda larga fixa se expandisse e, depois, avançar em mecanismos de organização. Na visão dele, há espaço para provedores regionais participarem mais do mercado móvel, inclusive em oportunidades ligadas ao 5G e a frequências regionais, mas isso deve acontecer com equilíbrio. Para Yon, assimetria regulatória pode fazer sentido para permitir novos entrantes, desde que não desconsidere investimentos já feitos por grandes operadores.
A conversa também trouxe uma visão otimista sobre o Brasil. Yon destacou a capacidade empreendedora do país, a força dos provedores regionais, a energia do brasileiro comum e o potencial nacional em áreas como alimentos, energia, infraestrutura e tecnologia. Ele criticou o excesso de pessimismo e defendeu que o Brasil precisa reconhecer melhor suas competências. Não se trata de ignorar problemas regulatórios, fiscais, políticos ou operacionais. A leitura dele é que, apesar das dificuldades, o país tem ativos humanos e estruturais relevantes demais para ser analisado apenas pela lente da crise.
No encerramento, quando perguntado sobre o que faria diferente se tivesse 30 anos hoje, Yon respondeu que cuidaria ainda mais das pessoas. Depois de uma conversa longa sobre rede, móvel, MVNO, Angola, regulação, IoT e mercado, a resposta ajuda a resumir o episódio. A trajetória dele passa por empresas, tecnologias e projetos relevantes, mas a linha que conecta tudo é a importância das pessoas: clientes, funcionários, comunidades, parceiros, professores, líderes e equipes que participaram da construção do setor.
O papo com Yon Moreira mostra uma telecom menos abstrata e mais vivida. Uma telecom feita de infraestrutura, sim, mas também de risco, tentativa, erro, relacionamento, presença em campo e entendimento profundo de quem usa o serviço. Para quem acompanha o mercado de provedores, MVNOs e conectividade, o episódio ajuda a colocar em perspectiva um ponto importante: novos produtos só fazem sentido quando nascem de uma leitura real do cliente e da capacidade de execução de quem vai entregá-los.
O episódio completo com Yon Moreira está disponível esta semana para membros no canal do Last Mile Podcast no YouTube. O lançamento oficial para todo o público acontece na próxima semana, também em nosso canal no YouTube.