Lourenço Lanfranchi, Head of Sales for Latin America da Ookla, afirma ao Last Mile Podcast que a competitividade dos provedores e a expansão da fibra colocaram o país em posição de destaque na experiência do usuário
O Brasil está entre os mercados com melhor desempenho em banda larga fixa, especialmente quando a análise considera qualidade de experiência, estabilidade, upload, latência e uso de serviços digitais. A avaliação foi apresentada por Lourenço Lanfranchi, Head of Sales for Latin America da Ookla, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.
Segundo Lanfranchi, a presença massiva de provedores regionais e a expansão da fibra óptica ajudam a explicar o desempenho brasileiro em comparação com outros mercados. Ele afirmou que o país tem mais de 20 mil ISPs e que esse volume torna o Brasil um caso particular dentro da base global da Ookla.
“Esse ISP que está com fibra, em qualquer região do Brasil, vai ter uma experiência, na média, melhor que a maioria dos países do mundo”, afirmou.
Ookla vai além do Speedtest
Durante a entrevista, Lanfranchi explicou que a Ookla é mais conhecida pelo aplicativo Speedtest, mas que a atuação da empresa vai além dos testes de velocidade.
Segundo ele, sempre que um teste é realizado, a Ookla coleta mais de 500 campos de informação. Esses dados incluem download, upload, latência, localização, altura do usuário em edifícios, qualidade de vídeo, videoconferência, gaming, navegação web, qualidade de sinal e informações sobre o dispositivo utilizado.
A empresa também possui seu código embarcado em mais de 550 aplicativos, o que amplia a capacidade de coleta e análise de dados. Além dos testes ativos, também há medições passivas em segundo plano, feitas a cada 30 minutos quando o usuário está parado e com maior frequência quando está em deslocamento.
No Brasil, segundo Lanfranchi, o Speedtest tem cerca de 20 milhões de usuários. Na América Latina, esse número chega a aproximadamente 80 milhões.
DownDetector e percepção do usuário
Lanfranchi também destacou o papel do DownDetector, plataforma da Ookla usada para monitorar instabilidades em serviços digitais.
Segundo ele, em muitos casos, quando um usuário não consegue acessar determinado serviço, como uma rede social, plataforma de vídeo ou ferramenta de pagamento, a primeira percepção é de que o problema está no provedor. O DownDetector ajuda a identificar quando a falha está fora da rede do ISP.
Ele citou exemplos como WhatsApp, Amazon, Globoplay e Pix para explicar como a plataforma reúne sinais de indisponibilidade a partir de buscas, comentários e comportamento de usuários.
Para provedores, esse tipo de informação pode ajudar no atendimento, na comunicação com clientes e na redução de diagnósticos equivocados sobre a origem de uma falha.
Brasil concentra 25% dos servidores globais da Ookla
Um dos dados apresentados por Lanfranchi foi a relevância do Brasil na infraestrutura global da Ookla.
Segundo ele, a empresa possui cerca de 20 mil servidores no mundo, dos quais quase 5 mil estão no Brasil. Isso representa aproximadamente 25% do total global.
O executivo explicou que o hardware desses servidores pertence aos provedores, enquanto o software é da Ookla. A concentração no Brasil está ligada ao volume de ISPs no país.
“O Brasil tem mais de 20 mil ISPs. A gente tem isso na nossa plataforma. E nenhum país do mundo tem esse volume tão grande”, afirmou.
Segundo ele, essa característica levou a Ookla a adaptar seu modelo comercial e de entrega de informações para o mercado brasileiro.
Dados para operação, expansão e atendimento
Lanfranchi explicou que a Ookla oferece aos provedores um portal com informações sobre cobertura, qualidade, concorrência, desempenho da rede, evolução diária de velocidade e eventuais degradações.
Com esses dados, o ISP pode identificar bairros com problemas, regiões com baixa cobertura, áreas em que concorrentes oferecem planos superiores e clientes que apresentam pior experiência de uso.
Segundo ele, a informação pode apoiar áreas como operação, atendimento, vendas e marketing.
Um exemplo citado foi a possibilidade de identificar quando um cliente tem problema de experiência por causa de fatores dentro da residência, como uso de repetidores, distância em relação ao modem ou dispositivos antigos.
Lanfranchi afirmou que repetidores de Wi-Fi podem ser um dos principais ofensores da qualidade percebida. Em um exemplo, ele mencionou um cliente com plano de 600 Mbps que, ao usar um extensor, não consegue atingir sequer 40 Mbps em determinadas condições.
Experiência dentro da casa ganha peso
Ao comentar os pontos de melhoria no Brasil, Lanfranchi afirmou que os provedores precisam olhar além da entrega da conexão até o modem.
Na avaliação dele, a qualidade percebida pelo cliente depende cada vez mais do ambiente interno, incluindo Wi-Fi, posição do roteador, quantidade de pessoas usando a conexão, tipo de dispositivo e perfil de consumo.
“Os ISPs têm que evoluir em ter mais informação de dentro da casa e como é o uso do cliente”, afirmou.
Ele citou que, em regiões com menor renda, é comum haver mais pessoas usando a mesma conexão dentro de uma residência, especialmente no período noturno. Esse comportamento pode afetar a experiência e precisa ser considerado na análise de qualidade.
Para Lanfranchi, entender esses padrões ajuda o provedor a vender melhor, atender melhor e ajustar suas ofertas de acordo com a realidade de cada cliente.
Qualidade brasileira em comparação internacional
Segundo Lanfranchi, o Brasil está entre os 20 países com melhor velocidade e qualidade em banda larga fixa. Quando a análise se concentra apenas na qualidade de experiência, o país aparece ainda melhor posicionado, principalmente pela forte presença de redes de fibra.
Ele comparou o Brasil com mercados como Estados Unidos e Canadá, onde parte relevante da infraestrutura evoluiu a partir de HFC, TV a cabo ou fixed wireless access. Na avaliação dele, esses modelos não oferecem a mesma estabilidade, simetria de upload e latência da fibra.
Lanfranchi afirmou que, em serviços como upload de vídeo, videoconferência, navegação web e streaming, a experiência brasileira tende a ser melhor do que a de vários mercados desenvolvidos.
“Aqui a gente tem uma experiência de serviços muito melhor e uma satisfação melhor comparado com a maioria dos países do mundo”, afirmou.
Competitividade dos ISPs elevou a qualidade
Outro ponto abordado foi a relação entre competitividade e qualidade.
Lanfranchi afirmou que a Ookla vem estudando esse tema há anos e que o Brasil ajudou a comprovar a relação entre maior competição e melhor qualidade de serviço.
Segundo ele, pequenos provedores entraram em regiões onde grandes operadoras não estavam, levaram fibra, aumentaram a qualidade da oferta e pressionaram o mercado como um todo.
“Vieram os pequenos com muita qualidade, com fibra, puxando os grandes”, disse.
Ele citou também o Chile como referência, mas com uma dinâmica diferente. Enquanto o Chile tem oito ou nove ISPs nacionais com alto nível de qualidade, o Brasil chegou a esse resultado por meio de milhares de provedores regionais.
Na avaliação de Lanfranchi, o caso brasileiro é usado pela Ookla em conversas com governos, reguladores e provedores de outros países como exemplo de como a competição pode elevar a qualidade da banda larga fixa.
Satélite aparece também em áreas urbanas
Lanfranchi também comentou o crescimento dos serviços satelitais na América Latina.
Segundo ele, ainda existe a percepção de que satélite é um serviço caro e voltado apenas a áreas rurais. No entanto, os dados mostram uso também em regiões urbanas, inclusive dentro de grandes cidades.
Ele afirmou que, em muitos casos, o serviço aparece em buracos de cobertura ou em modelos compartilhados, como bares, pequenos negócios ou residências que redistribuem a conexão para várias casas.
Para Lanfranchi, isso indica uma oportunidade para provedores identificarem áreas onde há demanda não atendida ou modelos comerciais ainda pouco explorados.
Ele citou a Argentina como exemplo, afirmando que serviços satelitais chegaram a 8% dos acessos de banda larga fixa no país.
“Definir um modelo comercial que enderece esses usuários é algo importantíssimo, porque tem gente entrando e comendo um pouco do que eles podiam estar fazendo”, afirmou.
Inteligência artificial e dados
Ao comentar o impacto da inteligência artificial, Lanfranchi apontou dois efeitos principais.
O primeiro está no uso dos próprios dados. Segundo ele, a IA ajuda a transformar grandes volumes de informação em análises mais acessíveis para provedores menores, que antes precisariam de equipes especializadas em BI ou analytics para interpretar os dados.
O segundo efeito está no comportamento de uso da rede. Aplicações de IA podem aumentar a importância do upload, já que usuários passam a enviar fotos, vídeos e arquivos para processamento em plataformas de IA.
Na avaliação dele, redes de fibra estão bem posicionadas para esse cenário por oferecerem melhor desempenho de upload e latência.
Lanfranchi também mencionou que, em termos de capacidade e estabilidade, o Brasil demonstrou resiliência durante a pandemia. Segundo ele, na América Latina, Brasil e Chile foram os países que suportaram melhor o aumento de uso sem degradação relevante dos serviços.
Dados como vantagem operacional
A entrevista com Lourenço Lanfranchi mostra que a qualidade da conectividade brasileira não pode ser analisada apenas por velocidade contratada ou cobertura de rede.
A experiência real do usuário envolve rede externa, Wi-Fi interno, dispositivos, perfil de uso, número de pessoas conectadas, serviços acessados, rotas de tráfego, disponibilidade de plataformas e concorrência local.
Na visão apresentada pelo executivo, o Brasil tem uma base forte em fibra e um nível elevado de competição, especialmente pela atuação dos ISPs regionais. Ao mesmo tempo, ainda há espaço para os provedores usarem mais dados na operação, atendimento, expansão, marketing e desenho de ofertas.
O avanço de IA, o crescimento de serviços digitais e a presença de alternativas como satélite aumentam a necessidade de entender melhor o comportamento do usuário e transformar informação em decisão.
A entrevista completa com Lourenço Lanfranchi está disponível no Last Mile Podcast.