Brasscom defende avanço rápido do Redata para destravar data centers no Brasil

Affonso Nina, presidente da Brasscom, afirma ao Last Mile Podcast que o país já perdeu projetos para outros mercados e vê risco de novas perdas se não reduzir entraves tributários, energéticos e regulatórios

O Brasil precisa acelerar a criação de um ambiente mais competitivo para atrair investimentos em data centers e infraestrutura digital. A avaliação é de Affonso Nina, presidente da Brasscom, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo o executivo, o país tem potencial para ocupar uma posição mais relevante na economia digital global, mas ainda enfrenta gargalos que encarecem a instalação e a operação de data centers no território nacional.

“A gente sabe que uma infraestrutura digital robusta puxa toda a cadeia. Nós estamos atrasados. Infelizmente projetos já foram perdidos para outros países”, afirmou Nina.

A Brasscom, Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e Tecnologias Digitais, reúne mais de 100 empresas do setor e atua em pautas ligadas ao desenvolvimento digital do Brasil. Na entrevista, Nina afirmou que a entidade trabalha em duas grandes frentes: a jornada das tecnologias e a jornada dos talentos.

A primeira envolve infraestrutura digital, cibersegurança e inteligência artificial. A segunda trata da formação de profissionais qualificados para sustentar o crescimento do setor.

Infraestrutura digital como base da nova economia

Para Nina, discutir data centers não é apenas falar de grandes estruturas físicas ou de processamento em nuvem. O tema envolve uma cadeia ampla, que passa por energia, conectividade, cabos submarinos, data centers regionais, estruturas de borda e ambientes internos das próprias empresas.

Na visão da Brasscom, uma infraestrutura digital mais forte pode impulsionar startups, empresas de software, desenvolvimento de sistemas, formação de pessoas e toda a cadeia de tecnologia.

“O Brasil, tendo uma infraestrutura digital, especialmente data centers, robusta, forte e relevante, vai acabar puxando e tendo um efeito positivo em todo o ecossistema digital”, afirmou.

A leitura é direta. Sem capacidade local de processamento, o país se torna mais dependente de estruturas internacionais. Com mais data centers no Brasil, o país pode atender melhor a própria demanda, reduzir dependências externas e disputar parte do mercado global de processamento de dados.

Redata é peça central, mas não resolve tudo sozinho

Um dos principais pontos da entrevista foi o Redata, regime voltado à redução da carga tributária sobre equipamentos utilizados em data centers.

Nina explicou que o Redata é uma parte de uma agenda mais ampla de estímulo à infraestrutura digital. Segundo ele, o programa trata principalmente dos impostos federais sobre equipamentos de processamento, servidores, redes e storage.

O problema é que esses equipamentos representam a maior parte do investimento necessário para construir um data center. Segundo o presidente da Brasscom, de 60% a 80% do capex de um data center pode estar concentrado em equipamentos.

No Brasil, a carga tributária sobre esses itens fica em torno de 30% a 35%. Em outros países, segundo Nina, esse percentual costuma ficar entre 5% e 10%.

Essa diferença muda a decisão de investimento.

Se é mais caro construir e operar no Brasil, o capital procura outros mercados. E, quando isso acontece, o país perde data centers, empregos, demanda tecnológica e capacidade de participar de uma cadeia global em expansão.

Brasil tem 1% dos data centers do mundo

Nina também destacou a defasagem brasileira na infraestrutura global de data centers.

Segundo ele, o Brasil concentra aproximadamente 1% dos data centers do mundo, enquanto sua economia de TI representa cerca de 6%. Para a Brasscom, essa diferença mostra que o país está abaixo do seu potencial em infraestrutura de processamento de dados.

O executivo também citou a piora da balança comercial de serviços de TIC. Segundo ele, o déficit saiu de US$ 3 bilhões em 2021 para US$ 8 bilhões em 2025. Na avaliação de Nina, esse movimento indica uma dependência crescente do processamento de dados fora do Brasil.

A causa, segundo ele, está principalmente no custo de instalar essa infraestrutura no país.

“É mais caro processar dados no Brasil”, afirmou.

ICMS também precisa entrar na discussão

Apesar da importância do Redata, Nina ressaltou que o regime ataca apenas uma parte do problema.

Segundo ele, os impostos federais representam cerca de um terço da carga tributária sobre os equipamentos. Os outros dois terços estão ligados ao ICMS, tema que exige diálogo com os estados.

Por isso, a Brasscom trabalha em paralelo em duas frentes: o avanço do Redata no âmbito federal e a discussão com governos estaduais sobre o peso do ICMS na atração de data centers.

A avaliação é que o país precisa criar uma estrutura tributária mais compatível com a competição internacional. Não se trata apenas de reduzir custo para empresas, mas de decidir onde a infraestrutura da economia digital será instalada.

Energia e regulação também são gargalos

Além da tributação, Nina apontou outros dois pontos centrais para o avanço dos data centers no Brasil: energia e ambiente regulatório.

Na área de energia, o executivo afirmou que o Brasil possui geração suficiente, mas ainda precisa enfrentar desafios relacionados à transmissão, intermitência de fontes energéticas e acesso das empresas à infraestrutura necessária para operar grandes projetos.

Data centers demandam disponibilidade, previsibilidade e segurança energética. Por isso, a discussão não se limita à geração de energia. Envolve também conexão, estabilidade e planejamento de longo prazo.

O terceiro ponto é o ambiente regulatório.

Para Nina, temas como inteligência artificial exigem uma regulação capaz de proteger a sociedade, mas sem travar o desenvolvimento tecnológico. Ele citou a tramitação do marco regulatório de IA no Congresso e afirmou que a Brasscom acompanha e contribui para que o Brasil tenha um arcabouço favorável à inovação.

A preocupação é clara. Uma regulação mal desenhada pode afastar investimentos justamente no momento em que o mundo disputa capacidade de processamento para IA, nuvem e aplicações digitais avançadas.

Velocidade virou fator decisivo

Questionado sobre a urgência dessa agenda, Nina foi enfático. Para ele, o fator velocidade é fundamental.

O mundo está demandando cada vez mais capacidade de processamento de dados. Essa infraestrutura será instalada onde houver melhores condições econômicas, tributárias, energéticas e regulatórias.

O Brasil ainda atende parte da demanda local, mas poderia crescer muito mais rápido se tivesse uma estrutura de custos mais competitiva. Além disso, poderia se posicionar como exportador de serviços de processamento de dados.

“Hoje nós estamos atrasados. Infelizmente projetos já foram perdidos para outros países. O Brasil já perdeu algumas oportunidades importantes e se a gente não avançar rapidamente, a gente vai perder mais”, afirmou.

Na visão da Brasscom, a atração de data centers também pode fortalecer a indústria local de equipamentos. Com mais projetos no país, a demanda por produção nacional pode crescer, gerando efeitos positivos em várias camadas da cadeia tecnológica.

Oportunidade para o Brasil

A entrevista com Affonso Nina reforça um ponto que precisa entrar com mais força na pauta de telecom, tecnologia e infraestrutura: data center não é apenas um negócio de grandes empresas globais.

É infraestrutura crítica para a economia digital.

Sem data centers competitivos, o Brasil depende mais de processamento externo, perde projetos, deixa de gerar empregos qualificados e reduz sua capacidade de disputar espaço em inteligência artificial, nuvem, cibersegurança e serviços digitais.

O país tem demanda, mercado consumidor, matriz energética relevante e posição estratégica. Mas esses fatores não bastam se o custo de implantação continuar acima de outros mercados.

O recado da Brasscom é objetivo: o Brasil tem uma janela de oportunidade, mas ela não ficará aberta para sempre.

A entrevista completa com Affonso Nina está disponível no Last Mile Podcast.

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