Ascenty vê Brasil bem posicionado para data centers, mas alerta para entrave tributário

Marcos Siqueira, vice-presidente da Ascenty, afirma ao Last Mile Podcast que o país tem energia renovável, conectividade e maturidade no setor, mas ainda precisa reduzir o custo de importação de equipamentos para disputar grandes projetos globais

O Brasil tem condições relevantes para se tornar um grande hub de infraestrutura digital, mas ainda enfrenta um obstáculo importante na atração de grandes projetos de data centers: a carga tributária sobre equipamentos de tecnologia. A avaliação é de Marcos Siqueira, vice-presidente da Ascenty, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo o executivo, o país reúne pontos fortes como conectividade, maturidade operacional, matriz energética renovável, ausência de grandes desastres naturais e capacidade de geração de energia. Ainda assim, o custo para importar equipamentos, especialmente em projetos intensivos em GPUs e inteligência artificial, pode levar investimentos para outros mercados.

“Um grande desafio que o Brasil enfrenta hoje é a questão tributária”, afirmou Siqueira. “Quanto custa para um cliente trazer os seus equipamentos, importar uma GPU, que é o assunto que todo mundo fala?”

A Ascenty, fundada em 2010, anunciou no AGC 2026 a inauguração de seu 26º data center. A empresa possui 21 data centers em operação no Brasil, três no Chile e dois no México. Além disso, tem outros 12 projetos em construção ou em fase anterior ao início da construção.

Investimento segue a demanda do cliente

Siqueira explicou que a escolha de novas regiões para expansão não acontece apenas por decisão estratégica interna. Segundo ele, a Ascenty é “agnóstica” em relação aos locais de investimento e avalia diferentes regiões do Brasil e da América Latina de acordo com a demanda dos clientes.

A lógica é financeira e operacional.

Um data center de inteligência artificial com 100 MW de energia pode exigir investimento próximo a US$ 1 bilhão na construção. O cliente, por sua vez, pode investir de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões para equipar esse ambiente com tecnologia.

Por isso, segundo Siqueira, a decisão precisa considerar a demanda real, o apetite dos clientes, os riscos locais, a disponibilidade de energia, a conectividade, a mão de obra e a capacidade de crescimento de longo prazo.

“Eu preciso saber exatamente onde estou pisando para entender o tamanho da demanda”, afirmou.

Brasil tem vantagens relevantes

Na comparação com outros mercados da América Latina, Siqueira avalia que o Brasil está bem posicionado em vários aspectos.

O primeiro ponto é a maturidade. Segundo ele, o país já possui um mercado de data centers consolidado, com grandes operações em funcionamento e alto nível de satisfação dos clientes.

O segundo ponto é a conectividade internacional. O Brasil possui cabos submarinos que permitem conexão com diferentes continentes, o que ajuda a posicionar o país como ponto relevante para tráfego e processamento de dados.

O terceiro ponto é a energia.

Siqueira afirmou que, para grandes empreendimentos como data centers, o custo da energia no Brasil é competitivo quando comparado a outros países. Ele também destacou que cerca de 90% da matriz energética brasileira já é renovável e que o país possui um grid nacional interligado, permitindo que energia gerada em uma região seja consumida em outra.

Segundo ele, esse conjunto cria uma oportunidade importante para o Brasil.

“O Brasil gera mais energia do que consome”, afirmou.

Tributação pode afastar grandes projetos

Apesar das vantagens, Siqueira apontou a tributação como um dos principais entraves para o país disputar projetos de grande escala.

Segundo ele, uma empresa que importa equipamentos de tecnologia para o Brasil pode enfrentar cerca de 35% de impostos. Em projetos bilionários, esse impacto muda a decisão de investimento.

O executivo usou como exemplo um projeto em que a Ascenty investe US$ 1 bilhão na construção do data center e o cliente investe US$ 5 bilhões em equipamentos. Nesse caso, uma carga de 30% a 35% sobre os equipamentos representa um custo adicional bilionário.

“Aí ele vai olhar outros países, ainda que tenha o custo da energia mais caro, que a energia não seja renovável”, afirmou. “35% é muito dinheiro.”

Na avaliação de Siqueira, se o Brasil conseguir ser mais competitivo também do ponto de vista tributário, terá condições de se tornar um dos principais hubs de infraestrutura digital do mundo.

Para ele, o país pode não apenas atender o mercado local, mas também exportar serviços de processamento de dados. Nesse modelo, a energia gerada no Brasil seria usada para processar dados consumidos em outros países.

Redata como ponte

Questionado sobre o Redata, regime voltado ao incentivo para data centers, Siqueira afirmou que a medida deve ser vista como uma ponte.

Segundo ele, a reforma tributária já prevê mudanças nos próximos anos, mas a questão é o tempo. Na visão do executivo, esperar até 2028, 2029, 2030 ou 2031 pode fazer o Brasil perder a janela atual de investimentos em grandes data centers, especialmente aqueles voltados à inteligência artificial.

“O Redata é relevante porque ele pode antecipar o que a reforma tributária já estava prevendo”, afirmou.

Para Siqueira, os grandes players globais estão tomando decisões agora. Se o Brasil oferecer um ambiente competitivo apenas no fim da década, parte relevante dos investimentos já terá sido direcionada a outros países.

Segundo ele, uma primeira fase de investimento tende a puxar as fases seguintes. Por isso, perder a decisão inicial pode significar ficar fora de uma cadeia de expansão por muitos anos.

Enterprise, cloud e inteligência artificial

Siqueira também explicou que diferentes tipos de clientes demandam diferentes tipos de data centers.

No mercado enterprise, as necessidades variam conforme o setor. Um cliente pode priorizar conectividade internacional, outro pode buscar baixa latência dentro do Brasil, outro pode exigir certificações de governança, infraestrutura, cibersegurança e sustentabilidade.

No caso de clientes financeiros, por exemplo, resiliência e governança são elementos relevantes. No e-commerce, a preocupação passa por disponibilidade, escala e capacidade de suportar picos de demanda, como a Black Friday.

Já no mercado hyperscale, formado por grandes empresas globais de tecnologia e provedores de cloud, a contratação acontece em maior escala. Esses clientes podem contratar desde 1 MW até um data center inteiro com 50 MW, 60 MW ou 100 MW.

A grande mudança, segundo Siqueira, está na densidade de energia.

Historicamente, um projeto enterprise consome em média 5 kW por rack. Em ambientes de cloud, esse consumo pode chegar a 20 kW ou 30 kW por rack. Em projetos de inteligência artificial, o consumo pode alcançar 100 kW ou 200 kW no mesmo espaço físico.

“A brincadeira mudou drasticamente”, afirmou.

Isso exige data centers preparados não apenas para fornecer energia, mas também para refrigerar equipamentos com alta dissipação de calor.

Conectividade segue como base

Apesar das diferenças entre clientes, Siqueira afirmou que todos têm um ponto em comum: conectividade.

Segundo ele, um data center, por mais resiliente e eficiente que seja, sem conectividade não passa de um galpão.

A Ascenty possui 4 mil km de fibra óptica própria, interligando seus data centers e conectando-os a cabos submarinos em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. A empresa também atua como carrier neutral, conectada às operadoras do mercado.

Siqueira citou o caso de Fortaleza como exemplo de expansão guiada por demanda. A Ascenty construiu seu primeiro data center fora de São Paulo na capital cearense em 2014, por conta da demanda de clientes que buscavam baixa latência para os Estados Unidos.

Segundo ele, a empresa segue avaliando diferentes regiões do Brasil e também outros países da América Latina. A companhia já possui terrenos adquiridos com energia assegurada na Colômbia, mas a decisão de avançar dependerá da demanda do mercado.

Data center não é vilão, diz executivo

Siqueira também abordou críticas relacionadas ao consumo de água e energia por data centers. Segundo ele, é importante diferenciar a realidade brasileira de outros mercados.

O executivo afirmou que nenhum dos 26 data centers da Ascenty consome água adicional para refrigeração. Segundo ele, a empresa utiliza um circuito fechado, em que a água é colocada uma vez e permanece recirculando no sistema.

Ele afirmou ainda que o mercado brasileiro de data centers é maduro e, de forma geral, não utiliza água como insumo contínuo de refrigeração. Em outros países, há data centers que consomem água porque isso pode reduzir o consumo de energia elétrica, especialmente onde a energia é mais cara.

No Brasil, segundo Siqueira, a combinação de energia competitiva e matriz renovável torna esse modelo menos necessário.

“Data center não é vilão”, afirmou.

Autoprodução de energia

Outro ponto citado foi o acordo de autoprodução de energia anunciado pela Ascenty em janeiro. Segundo Siqueira, trata-se do maior acordo desse tipo na América Latina.

Na prática, a empresa passa a gerar a energia que consome. Para o executivo, isso ajuda a afastar a percepção de que data centers competiriam com a população pelo uso da energia disponível.

“Quer dizer que a energia que eu consumo, eu gero”, afirmou.

Segundo ele, esse modelo evita impacto adicional na tarifa da população e reforça o posicionamento do Brasil como mercado competitivo para infraestrutura digital.

Energia nuclear não é necessidade para o Brasil no curto prazo

Ao comentar a discussão global sobre energia nuclear para sustentar a expansão de data centers, Siqueira afirmou que o Brasil está em uma posição diferente de outros países.

Segundo ele, por ter matriz renovável, alta capacidade de geração e consumo de energia ainda relativamente baixo pelo setor de data centers, o país não tem necessidade de recorrer à energia nuclear nos próximos anos.

O executivo afirmou que data centers representam hoje apenas 1,5% do consumo de energia no Brasil. Mesmo que o setor dobre ou triplique de tamanho, continuaria representando uma parcela pequena em um país que gera mais energia do que consome.

Para Siqueira, o Brasil tem sol, vento, água e condições para seguir ampliando geração renovável no longo prazo.

Infraestrutura digital como oportunidade econômica

A entrevista com Marcos Siqueira mostra que a discussão sobre data centers vai além de tecnologia.

Ela envolve energia, tributação, conectividade, mão de obra, soberania digital, latência, inteligência artificial e capacidade do país de competir por investimentos globais.

Na visão apresentada pelo executivo, o Brasil reúne vantagens importantes, mas ainda precisa resolver seus próprios entraves para não perder oportunidades. O país tem mercado, energia renovável, conectividade e maturidade operacional. O desafio está em criar condições tributárias e regulatórias compatíveis com a competição internacional.

A leitura é pragmática. Data centers não resolvem sozinhos os desafios digitais do Brasil, mas podem puxar uma cadeia ampla de investimentos, serviços, empregos e tecnologia.

E, para Siqueira, se o país agir no tempo certo, pode ocupar um espaço maior na infraestrutura digital global.

A entrevista completa com Marcos Siqueira está disponível no Last Mile Podcast.

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