Eletronet amplia atuação em infraestrutura digital e aposta em data centers distribuídos

Rogério Garchet, CEO da Eletronet, afirma ao Last Mile Podcast que conectividade, energia, capilaridade e baixa latência serão peças centrais para o avanço dos data centers no Brasil

A Eletronet vê o crescimento dos data centers no Brasil como uma das grandes oportunidades para a infraestrutura digital nos próximos anos. A avaliação foi apresentada por Rogério Garchet, CEO da companhia, em entrevista ao Last Mile Podcast durante o Abrint Global Congress 2026.

Segundo o executivo, a Eletronet nasceu há quase 27 anos com a proposta de levar fibra óptica pelas linhas de transmissão de energia, utilizando cabos OPGW instalados nas torres. Desde então, a empresa construiu sua atuação no fornecimento de infraestrutura de backbone para grandes operadoras, provedores regionais, data centers e empresas de conteúdo.

Garchet afirmou que a companhia vive um novo ciclo, com mudança de posicionamento, nova marca, novos produtos e expansão da rede. Ele chamou esse momento de “nova Eletronet”, com foco em inovação, neutralidade e oferta de infraestrutura para que seus clientes possam chegar ao mercado com mais soluções.

Data centers e os cinco elementos essenciais

Um dos principais temas da entrevista foi o papel do Brasil no mercado de data centers.

Na visão de Garchet, o país reúne elementos importantes para ampliar sua participação nesse setor. Ele citou cinco fatores essenciais para a operação de data centers: energia, conectividade, espaço físico, tecnologia e qualificação de pessoas.

Segundo o executivo, a energia será cada vez mais relevante para esse mercado. Ao mesmo tempo, conectividade é condição básica para que os data centers tenham valor operacional. Sem conexão adequada, a infraestrutura perde capacidade de atender as demandas de tráfego, aplicações e serviços digitais.

Garchet afirmou que o Brasil tem oportunidade de se tornar um polo relevante de data centers, especialmente se conseguir resolver desafios estruturais e econômicos que ainda afetam o setor.

Consumo de dados ainda depende de data centers externos

Durante a entrevista, Garchet afirmou que cerca de 60% dos dados consumidos no Brasil vêm de data centers localizados fora do país.

Para ele, a internalização desse tráfego representa uma oportunidade relevante. Se uma parcela maior dos dados consumidos no Brasil passar a ser processada localmente, a demanda por data centers no país pode crescer de forma expressiva.

O executivo afirmou que, apenas com essa inversão, o mercado brasileiro de data centers poderia mais que dobrar em relação ao tamanho atual.

Essa leitura conecta a discussão de data centers à soberania digital, à latência, à eficiência de rede e à capacidade do país de sustentar aplicações mais avançadas, especialmente em um cenário de crescimento de inteligência artificial, cloud, serviços digitais e conteúdo.

POPs como futuros edge data centers

Garchet também destacou o papel da capilaridade da Eletronet no desenvolvimento de data centers distribuídos.

Segundo ele, a companhia possui hoje 18 mil km de rede e cerca de 170 pequenos data centers ou pontos de presença. Além disso, está construindo mais 85 estruturas dentro da nova rede de 8 mil km em expansão.

Na visão do executivo, esses pontos podem se transformar em edge data centers, capazes de receber infraestrutura de parceiros, clientes, prospects e hyperscalers interessados em descentralizar processamento e aproximar serviços dos usuários finais.

Garchet afirmou que os grandes data centers continuarão tendo papel relevante, mas a descentralização será cada vez mais importante para suportar aplicações que exigem baixa latência, alta disponibilidade e processamento mais próximo da ponta.

Resiliência, capilaridade e baixa latência

Para Garchet, a conectividade para data centers precisa atender alguns requisitos fundamentais.

O primeiro é resiliência. Segundo ele, a rede precisa ser altamente disponível, com níveis elevados de SLA. O executivo afirmou que a Eletronet trabalha hoje com padrões de disponibilidade na casa dos “quatro noves” e busca avançar para níveis ainda maiores.

O segundo ponto é a capilaridade. A rede precisa chegar a diferentes regiões do país, especialmente em um Brasil de dimensões continentais e com grande diversidade econômica e geográfica.

O terceiro ponto é a baixa latência. Garchet afirmou que a latência se torna ainda mais relevante quando o assunto é inferência de inteligência artificial. Segundo ele, a Eletronet estuda investimentos para reduzir frações de milissegundo em rotas já consideradas competitivas pelo mercado.

Na avaliação do executivo, pequenas reduções de latência podem ser relevantes em ambientes de alto desempenho, especialmente quando envolvem interconexão, data centers, IA e grandes volumes de dados.

Hub B2B² e Slice Data Center

A Eletronet também apresentou no AGC 2026 uma nova plataforma de produtos e serviços voltada ao mercado B2B dos seus clientes.

Garchet chamou o conceito de Hub B2B², ou B2B ao quadrado. A proposta é oferecer produtos e serviços que os clientes da Eletronet possam usar para atender seus próprios clientes empresariais.

Segundo o executivo, muitos provedores e operadoras querem crescer no B2B, mas não apenas com conectividade. A demanda envolve tecnologia, serviços, infraestrutura, data center, segurança e soluções mais completas.

Dentro desse conceito, o primeiro produto lançado foi o Slice Data Center.

A ideia é permitir que clientes contratem pequenas frações de infraestrutura em data centers, como 1U, em vez de precisarem contratar uma fração maior de rack. Garchet explicou que, em muitos data centers, a contratação mínima costuma ser maior do que a necessidade real de alguns clientes.

Com o Slice Data Center, a Eletronet pretende fracionar essa infraestrutura e disponibilizá-la em modelo white label para provedores e operadoras. Dessa forma, o cliente da Eletronet pode levar a solução ao mercado com sua própria marca.

O produto também inclui suporte operacional, como instalação e acompanhamento local, o que Garchet chamou de “remote hands”.

Expansão de 8 mil km e chegada a novos estados

Outro ponto abordado foi a expansão da rede da Eletronet.

Garchet afirmou que a companhia já cobre grande parte do Brasil com seus 18 mil km atuais, conectando regiões desde Fortaleza até Porto Alegre por diferentes rotas e anéis.

Agora, a empresa está construindo uma nova rede de 8 mil km, que levará a Eletronet a cinco novos estados. Entre os pontos citados estão a chegada ao Espírito Santo, com rotas como Rio-Vitória e Vitória-Belo Horizonte, além da ampliação para estados do Norte.

O executivo também afirmou que a expansão levará a empresa a regiões de fronteira, como Assis Brasil, no Acre, conectando Brasil, Bolívia e Peru, além de Foz do Iguaçu, na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

Segundo Garchet, a rede será entregue em fases ao longo do ano. Ele reconheceu os desafios de construir infraestrutura em regiões como Amazônia e Pantanal, com exigências de licenciamento, acesso e operação em áreas complexas.

Ponto de troca de tráfego em São Paulo

Garchet também comentou a relevância da Eletronet dentro do ecossistema brasileiro de troca de tráfego.

Segundo ele, São Paulo concentra um dos maiores pontos de troca de tráfego do mundo, impulsionado pela quantidade de operadoras, provedores e empresas de conteúdo conectadas no Brasil.

O executivo afirmou que o data center da Eletronet em São Paulo, localizado na região da Granja Julieta, fica entre o segundo e o terceiro ponto de troca de tráfego do Brasil, conforme os rankings acompanhados pela empresa.

Para Garchet, isso mostra a importância da infraestrutura da companhia para o setor. Ele afirmou que a Eletronet possui quase uma centena de clientes de telecom nesse data center e ainda vê oportunidade de crescimento.

Neutralidade como posicionamento

Garchet reforçou que a Eletronet não pretende disputar o cliente final de seus clientes.

Segundo ele, a companhia quer manter sua neutralidade e oferecer infraestrutura para que operadoras, provedores e outros clientes possam ir ao mercado com suas próprias soluções.

Essa visão aparece tanto no posicionamento da rede quanto no lançamento do Hub B2B² e do Slice Data Center. A Eletronet busca atuar como base de infraestrutura, conectividade, interconexão e suporte para outras empresas crescerem em seus mercados.

Cultura de execução e aprendizado

Além dos temas técnicos e de mercado, Garchet falou sobre cultura interna.

Ele afirmou que a nova fase da Eletronet envolve transformação de processos, produtos, marca e comportamento. Para ele, uma empresa que quer inovar precisa agir rápido, ouvir o cliente e não ter medo de errar.

Garchet contou que mantém internamente um “troféu do erro”, usado para reconhecer aprendizados a partir de iniciativas que não saíram como esperado. Segundo ele, a ideia é criar um ambiente em que as pessoas possam expor o erro, explicar o que queriam fazer e mostrar o que aprenderam.

O executivo também criticou a cultura do “gerúndio” nas empresas. Para ele, o cliente prefere uma resposta clara, mesmo que seja negativa, a uma sequência indefinida de promessas sem prazo.

Infraestrutura para o próximo ciclo digital

A entrevista com Rogério Garchet mostra uma Eletronet voltada a ampliar sua participação no novo ciclo de infraestrutura digital do Brasil.

A companhia segue baseada em conectividade de longa distância, backbone e interconexão, mas começa a adicionar novas camadas ligadas a data centers, edge, serviços B2B e suporte a clientes que querem expandir suas ofertas empresariais.

Na visão apresentada por Garchet, o Brasil tem uma oportunidade relevante em data centers, mas essa oportunidade depende de energia, conectividade, espaço, tecnologia e pessoas qualificadas.

Para a Eletronet, o papel está em oferecer uma rede resiliente, capilar, neutra e preparada para servir como base para provedores, operadoras, data centers, empresas de conteúdo e novos serviços digitais.

A entrevista completa com Rogério Garchet está disponível no Last Mile Podcast.

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